quinta-feira, 20 de novembro de 2008

A Morte tira umas férias



“No dia seguinte ninguém morreu.” E as consequências éticas, filosóficas, religiosas do desajuste da demografia mundial estavam lançadas, por ninguém morrer.
Trata-se aqui do início da intriga ficcional do romance «As Intermitências da Morte»(2005), de José Saramago, que repetiu, formalmente, o seu estilo na pontuação e no uso de minúsculas.

O Prémio Nobel da Literatura português previu ficcionalmente um facto contrário às normas da vida, a ausência da morte. Contrariamente a outras declarações suas pessimistas, estava a contradizer uma observação comum à decada de 40 do escritor argelino Albert Camus, segundo o qual «os homens morrem e não são felizes». A seu modo gosta também de elaborar uma escrita sobre absurdos.

Desde que a sua literatura começou a ser prolífica e marca de griffe editorial, que José Saramago tem uma tendência para surrealizar o que ele mais contesta, a religião cristã, o que não pode suportar, a «solução Deus», e por isso antepõe que Deus «é o problema». Em entrevista recente ao «Diário de Notícias»(5/11/2008), afirmou que a Igreja «está em toda a parte e meteu-se nas nossas vidas e não quer sair». Segundo o escritor ela “tem uma obsessão moldadora”.

Portanto, não tomando a religião cristã pela alegoria da caverna de Platão( que glosou noutro romance), isto é, pelas sombras, reinventa-a em algumas realidades teológicas que são conteúdo incontornável do Cristianismo. É inegável que a sua boa escrita no plano científico da crítica literária, não sejamos preconceituosos, surpreende.

Evidenciando conhecer a Bíblia, não o poderemos negar, o autor do «Evangelho Segundo Jesus Cristo» gostaria de «desmitologizá-la» como em certo sentido o fez Rudolf Bultmann, o téologo, no que concernia aos Evangelhos. Como se estes fossem um tratado de mitologias que era necessário ajustar ao mundo moderno, usando para tanto um programa de desmitologização do evangelho, por exemplo, por em dúvida factos da vida de Cristo. Por vezes de subvertê-los, porque não quer nada de sobrenatural e não pode basear-se em outra explicação que não seja o seu ateísmo militante.
Desta forma, no seu Evangelho Segundo...coloca um facto central do Cristianismo, Cristo na Cruz.

Todavia, mistura-lhe um acontecimento diverso e doutra ocasião, a voz do Pai Celestial fazendo-se ouvir entre nuvens «Este é o Meu filho amado em quem me comprazo», e, por fim, altera todo o evento expiatório da Salvação, invertendo e mutilando uma das mais fundamentais palavras pronunciadas na cruz por Cristo: “Homens, perdoem a meu Pai, porque Ele não sabe o que está a fazer.”

Aqui está uma inversão blasfema, um reducionismo da crucificação a um mero caso de equívoco, uma humanização absurda do Divino. A qual pretende colocar aqui o problema da humanização da Divindade ainda que seja através de metáforas sob a capa da literatura. Há na realidade, escreveu alguém, no escritor português José Saramago, uma fonte vasta de inquietantes questões e esse livro destinava-se à problematização de algumas delas, como: A literatura humaniza o Divino ou diviniza o homem? Os textos bíblicos são ditames santos ou literatura santificada?

Mas é precisamente nesta área que Saramago gosta de elaborar ficcionalmente. Gosta de embaraçar os sentimentos de alguns leitores e de estabelecer contrastes. E o que pensa ser mito, prefere destruí-lo e reconstruir com outro mito, a que chama, em alguns casos, metáfora.

Era desta capacidade de Saramago para o cambio de valores, para lograr estabelecer inversões, para a efabulação e subversão de realidades enraizadas no património cultural e religioso dos cristãos, estejam estes no Leste ou no Oeste, que se falava com muito ruído no ano de 1992. O barulho aconteceu quando o romance de José Saramago Evangelho segundo Jesus Cristo foi cortado da lista dos concorrentes ao Prémio Literário Europeu, pelo Subsecretário de Estado da Cultura de então, Sousa Lara. Este nem teve sequer necessidade de recorrer a um dos Salmos(53,1), onde se afirma que «o insensato diz no seu coração: Não há Deus».

Pode ter sido um acto a roçar uma censura, admitimo-lo nessa altura, mas não tão execrável quanto isso, tomando em linha de conta as explicações do governo da época: "A obra atacou princípios que têm a ver com o património religioso dos portugueses. Longe de os unir, dividiu-os." A verdade é que alguma coisa do que escreve e diz o autor de Ensaio sobre a Cegueira, longe de unir, divide.
De resto, como escritor, é a sua marca de água. O tradicional anúncio do Prémio Nobel feito pela Academia, que caracteriza autor e obra galardoados, disse em 1998 acerca de Saramago, que se tratava de um romancista que “com parábolas sustentadas pela imaginação, compaixão e ironia continuamente, nos permite apreender uma realidade indefinível".

Comecemos pelo fim, pela morte, no seu conceito judaico-cristão. O filósofo inglês Bernard Williams, o mais importante da filosofia da moral do século XX, argumentou um dia que a vida eterna seria tão entediante que ninguém podia aguentar. De acordo com ele, a constância que define uma eterna auto-existência implicaria um infinito deserto de experiências repetitivas. Baseou-se numa peça teatral de referência de um autor checo da década de 20, Karel Cepek, que criou uma personagem Elina Makropulos, de 342 anos, que tendo bebido o elixir da vida eterna desde os 42 anos, opta por deixar de tomá-lo e morre. Ambos, dramaturgo e o filosofo moralista defenderam o chamado tédio da imortalidade.

As Sagradas Escrituras, de uma forma lapidar, estabelecem que ao “homem está destinado morrer uma vez, vindo depois disso o juízo”, o apóstolo Paulo apontou a causa, ao dizer que o “salário do pecado é a morte”. José Saramago preferiu efabular sobre o fim inesperado da Morte. Dir-se-ia a morte da Morte.

Acercando-se deste aspecto da desconstrução de um facto, a revista The New Yorker publicou no final de Outubro uma crítica literária à tradução do livro “Intermitências da Morte” nos Estados Unidos. Segundo o articulista, a obra resume aquela tese de Williams segunda a qual a vida precisa da morte para fazer sentido - a morte é apresentada como o período negro que ordena a sintaxe da vida. A ironia do titulo da peça jornalística “Death takes a holiday" ("A morte tira umas férias") em conjunto com a simplificação do titulo da obra traduzida de Saramago, "Death with Interruptions", traduzem o sentido irónico e que altera a ordem ou o estado de coisas que o escritor utiliza para perverter um conjunto de dogmas que, partindo da ideia da morte, valorizam valores doutrinários da religião cristã.

Em síntese, entre outras finalidades de carácter literário, ficcional, o ataque a esse conjunto de dogmas não é a menor. As funções da igreja, a doutrina da ressurreição, a utilidade da pregação, etc.
Sem margem para dúvidas, a páginas 21, escutamos a conversa telefónica entre o «primeiro-ministro» e a «Eminência»: «Sem morte, ouça-me bem, senhor primeiro-ministro, sem morte não há ressurreição, e sem ressurreição não há igreja:.. como lhe veio à cabeça que deus poderá querer o seu próprio fim».

Saramago tenta reescrever a história do Sagrado sob o prisma do fantástico e da ficção especulativa como se fossem os mais prováveis acontecimentos. «Dá-lhes uma sólida interpretação literal»- assevera o crítico da revista nova iorquina.
Nós acrescentamos: pelo próprio ateísmo em que vive e escreve Saramago, ainda que não possa fugir a escrever muitas vezes o vocábulo «Deus», seja em maiúsculas ou letra pequenina. – JOÃO TOMAZ PARREIRA

Texto publicado no Portal da Aliança Evangélica Portuguesa.

3 comentários:

Sammis Reachers disse...

BRAVO!!!

Já desde minha época atéia, percebi algo sobre a alta literatura, e o grosso da filosofia passada e hodierna...
Em seu fim, no 'âmago do âmago', eles(as) não oferecem respostas, apenas novos nomes e adornos (não é um trocadilho...) para as dúvidas e angústias. Fazem disso um baile sem fim, desde antes de Platão...

Desconhecedores de Deus, violentamente incapazes de suportar a mensagem da Cruz, fabulam para que o tédio não os mate. E ele irremediavelmente mata-os. Como Hemingway com um tiro na boca, como Barthes tolamente atropelado...

Mais um excelente texto, João. Bravo!

Eduardo Neves disse...

Graça e Paz

Olá irmãos, nos próximos meses estarei postando no “Entendes tu o que lês?” sobre a História do Cristianismo!

Vou apontar ligeiramente alguns aspectos da história da igreja, especialmente: evangelização (estratégia da expansão e teologia missionária), política (a relação da igreja com o estado) e culto (desenvolvimento litúrgico e organização formal da igreja).

* IGREJA E CULTO (Novembro-Dezembro)
* IGREJA E POLÍTICA (Janeiro)
* IGREJA E EVANGELIZAÇÃO (Fevereiro)

Será um estudo que tem por finalidade levar nossos amigos leitores a enxergar o grande abismo entre o verdadeiro ideal da igreja cristã e o estado presente de omissão, hierarquização e aburguesamento (com raras exceções).

Necessariamente alguns textos serão controversos. Deles discorde. Essencialmente alguns textos induzirão os nossos pressupostos. A partir destes, discuta. E aos que existirem erros, denuncie!

Agora se alguém reconhecer que os escritos são verdadeiros, não os ignore.

Parabéns pelo blog! Espero sua visita e comentário!

Um abraço!
Eduardo Neves.

Antonio Tadeu Ayres disse...

Meus irmãos:

Infelizmente, a despeito de sua indiscutível criatividade literária, Saramago sabe que, para ter sucesso enquanto escritor e se tornar notório, é imperativo polemizar.

Que bom que ainda existem outros bons nomes portugueses, tais como Camões, Fernando Pessoa e Eça de Queiroz que não precisaram ir tão longe para serem reconhecidos.

Forte abraço!