quarta-feira, 1 de março de 2017

Alguns pensamentos do A. W. Tozer


Temo porque os cristãos modernos são de falar muito e de fazer pouco. Usamos a linguagem do poder, mas as nossas ações demonstram fraqueza.
Um ministro ineficaz, semimorto, é uma propaganda melhor para o inferno que um bom homem morto.
Existe um verdadeiro perigo nos esforços de alguns de substituir a vida pela organização, de tal maneira que mesmo que tenham um nome para viver, estão espiritualmente mortos.
Não é o corpo na verdade o que ilumina, mas o Espírito da verdade.
O meu serviço será julgado por Cristo, não pelo que tenha feito, mas por quanto mais poderia ter feito.
Aos olhos de Deus, as minhas dádivas não são medidas por quanto dei, mas por quanto deixei para mim uma vez que separei a minha dádiva.
Santos que não são santos; essa é a tragédia do cristianismo.
Se um homem tratar de pôr a fé de Cristo junto com a opinião humana, ou trata de provar que os seus ensinos estão em harmonia com esta filosofia ou aquela religião, ao procurar defender a Cristo na realidade o está rejeitando.
Devemos odiar o pecado em nós mesmos e em todos os homens, mas jamais devemos subestimar o homem que se encontra no pecado.
Procurar Deus nas inspiradas Escrituras deixando de lado a sua própria revelação, não somente é fútil, como também perigoso.
Permaneça próximo de Jesus, e todos os lobos do mundo não poderão te ferir!
A verdadeira adoração procura a união com o ser amado, e é um esforço ativo para salvar a distância entre o coração e Deus a quem adoramos.
Quando encontro a alguém que se acha muito acomodado neste mundo e em seu sistema, sinto-me obrigado a duvidar que alguma vez nasceu verdadeiramente de novo. Na verdade, todos os cristãos que conheço que fazem algo para Deus são aqueles que não estão acordes à sua época, que não estão em concordância com a sua geração.
Eu não creio que nenhum bem duradouro possa provir de atividades religiosas que não lancem as suas raízes nesta qualidade da criatura: o temor. O animal que está dentro de nós é muito forte e seguro de si mesmo. Até que não tenha sido vencido, Deus não se revelará aos olhos da nossa fé.
O Espírito Santo não é um luxo que pretende criar cristãos de luxo, como também uma capa com letras douradas e cobertas de couro faz que um livro seja de luxo. O Espírito é uma necessidade imperativa. Só o Espírito eterno pode realizar obras eternas.
Existe a arte de esquecer, e cada cristão deveria fazer-se destro nisto. Esquecer as coisas que ficam para trás é uma necessidade positiva se é que vamos nos converter em algo a mais que bebês em Cristo.
Algo agradável na relação com o nosso Pai celestial é descobrir que nos ama pelo que somos, e que valoriza o nosso amor mais que muitas galáxias de novos mundos.
Hoje, como em todos os séculos, os verdadeiros cristãos são um enigma para o mundo, um espinho na carne de Adão, um enigma para os anjos, o deleite de Deus e a habitação do Espírito Santo.
Os pais da igreja escreveram dizendo que se um homem sente que está ocupando algum lugar no reino de Deus, isso é orgulho, e até que isso morra, na realidade não ocupa lugar algum.
O homem que está seriamente convencido de que merece ir para o inferno, possivelmente não vá para lá, enquanto que o homem que está seguro de que merece o céu, com toda segurança nunca entrará nesse bendito lugar.
O cientista moderno perdeu a Deus no meio das maravilhas deste mundo; nós os cristãos estamos em verdadeiro perigo de perder a Deus no meio das maravilhas de sua Palavra.
Qualquer avivamento que venha a uma nação e deixe às pessoas tão apaixonadas por dinheiro como antes e tão absorvida pelos prazeres mundanos, é uma armadilha e um engano.
Em muitas igrejas o cristianismo foi diluído de tal maneira, que a solução se tornou tão fraca que se fosse veneno não afetaria a ninguém, e se fosse remédio não curaria a ninguém.
É de duvidar que Deus abençoe a um homem grandemente antes que Ele o tenha ferido profundamente.
Um cristão real é um caso raro, sem dúvida. Ele sente amor supremo por Aquele a quem nunca viu; fala todos os dias familiarmente com alguém a quem não pode ver; espera ir para o céu pela virtude de Outro; se esvazia para estar cheio; admite que está errado se pode declarar-se reto; desce para levantar-se; é mais forte quando é mais fraco; mais rico quando é mais pobre e mais feliz quando se sente pior. Morre para poder viver; abandona para ter; dá de presente para guardar; vê o invisível; ouve o inaudível.
Fé é ver o invisível, mas não o inexistente.
Tenho achado que Deus é cordial e generoso e em todos os sentidos é fácil de viver com ele.
Eis aqui uma prova para ver se a sua missão na vida terminou: se ainda está vivo, é porque não.
Meu fogo não é grande, mas é real, e pode haver alguns que podem acender a sua vela em sua chama.
Como podemos desculpar essa paixão pela publicidade tão claramente evidente entre os líderes cristãos? O que dizer sobre a ambição política nos círculos da igreja? Ou sobre a enfebrecida palma que se estende por mais e maiores ‘oferendas de amor’? Ou sobre a egolatria desavergonhada entre cristãos? Como podemos explicar nós, um grosseiro homem de culto que habitualmente levanta um e outro líder popular ao tamanho de um colosso? O que dizer sobre o obsequioso ‘beija-mão’ a homens enriquecidos por aqueles que pretendem ser pregadores legítimos do evangelho? Há só uma resposta a estas perguntas; é simplesmente que nestas manifestações nós vemos o mundo e nada mais que o mundo. Nenhuma profissão apaixonada de amor pelas 'almas' pode trocar o mau pelo bom. Estes são os mesmos pecados que crucificaram a Jesus.
Quase tudo associado com o ministério pode ser aprendido com uma quantidade média do uso da inteligente. Não é difícil pregar ou dirigir assuntos da igreja ou atender uma chamada social; os casamentos e enterros podem ser conduzidos facilmente com um pouco de ajuda do Emily Post e o Manual do Ministro. Pode-se aprender a fazer um sermão tão facilmente como fabricar sapatos – introdução, conclusão e tudo. E assim com todo o trabalho do ministério que se faz na igreja de valor médio de hoje. Mas a oração é outra questão. Ali Mrs. Post está incapacitada, e o Manual do Ministro não pode oferecer assistência. Ali o solitário homem de Deus deve lutar sozinho, às vezes com jejum, lágrimas e cansaço inexprimível. Ali cada homem deve ser original, porque a verdadeira oração não pode ser imitada nem pode ser aprendida de ninguém.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Don Richardson: O inigualável sacrifício de Cristo


O homem não-regenerado é duplamente perseguido! Primeiro, ele sente a eternidade, em direção à qual se move - partícula finita que é - como alguém estranhamente destinado. A seguir, descobre gravada em seu próprio coração uma lei que o condena a não atingir o seu destino eterno!
Não é de admirar que Paulo tenha escrito em outro ponto: “ Ai de mim se não pregar o evangelho” (1 Co 9.16). Nada mais pode dar fim a esta dupla perseguição do homem!
Aqueles dentre nós que estudaram as jornadas do apóstolo ainda mais profundamente no domínio gentio, descobriram que a sua observação cumpriu-se de maneiras que ele mesmo talvez jamais tivesse julgado possíveis. Por exemplo: Uma das exigências da lei mosaica era um estranho rito anual envolvendo dois bodes machos. Ambos os bodes eram primeiro apresentados ao Senhor (Lv 16.7). A seguir, o sumo sacerdote hebreu tirava sortes para escolher um dos bodes como oferta sacrificial. Depois disso, ele matava o bode escolhido e aspergia seu sangue sobre o “ propiciatório” (Lv 16.15).
O que acontecia ao outro bode? 
O sumo sacerdote impunha as mãos sobre a cabeça dele, depois confessava os pecados do povo, colocando-os simbolicamente sobre o segundo bode. Uma pessoa indicada para a tarefa levava então o mesmo para longe do povo e o soltava no deserto. Uma vez que o “ bode emissário” desaparecia de vista, o povo hebreu começava a louvar a Javé pela remoção de seus pecados.
Quando João Batista apontou para Jesus e disse: “ Eis o Cordeiro de Deus, cue tira o pecado do mundo!” (Jo 1.29), ele identificou Jesus Cristo como o cumprimento perfeito e pessoal do simbolismo hebreu do bode expiatório. Eram necessários dois animais para representar o que Cristo iria realizar sozinho quando morresse pelos nossos pecados. Não satisfeito em simplesmente expiar nossos pecados, Ele também removeria a própria presença dos mesmos!

Trecho do livro O Fator Melquisedeque (Editora Vida Nova).


quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

A centralidade de Cristo - Erasmo de Roterdam


Fixa-te em Cristo como o seu único e absoluto bem. Não ame nada, nem te entusiasme com nada, nem queira nada que não seja Cristo, ou por Cristo. E não aborreça nada, nem despreze nada, nem fuja de nada, mas sim do pecado ou por causa do pecado.
O que faça -veles ou durma, comas ou bebas, descanse ou divirtas- tudo te acontecerá para acrescentar mais o seu prêmio. E assim acontecerá inclusive com alguns vícios menores, os que caem em nosso caminho para a virtude, se converterão para ti em motivo de prêmio. Mas se o teu olho é mau e olhas para outra coisa que não seja Cristo, então, o próprio bem que faz não reportará em fruto e até pode ser pernicioso. Toda coisa boa que não for bem feita é defeituosa. Tudo, pois, o que achar em seu caminho para a meta do supremo bem, terá que recusar ou aceitar enquanto estorva ou favorece a sua caminhada.
Os próprios filósofos vêem certos fins imperfeitos e intermediários, nos quais não terá que se deter, nem convém servir-se ou gozar deles. Como são meios, nem todos ajudam ou atrapalham de igual modo os que caminham para Cristo. Da mesma maneira, terá que recusá-los ou assumi-los na medida em que impedem ou favoreçam o seu caminhar para ele. O conhecimento, por exemplo, é mais útil para a piedade que a beleza, as forças do corpo ou as riquezas. E ainda que todo o saber possa se referir a Cristo, no entanto, uns conduzem melhor que outro em seu caminho.
Este fim é o que tem que medir a utilidade ou inutilidade dos meios. Amas o saber? Estupendo; ame-o por Cristo. Mas se o amas para saber por saber, fique ali onde era preciso seguir adiante. Mas se amas as letras para melhor poder achar e conhecer a Cristo, oculto nos mistérios das Escrituras -e uma vez conhecido, o ama; e conhecido e amado, o dás a conhecer e te alegras disso-, então aplica-te ao estudo das letras. Mas não além do que possa contribuir para um sólido conhecimento. Vale mais saber menos e amar mais, do que saber mais e não amar.


quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Riqueza, frágil segurança


Joselir Martins

O ensinamento cristão ensina que o perigo não está no ambiente que o homem vive, o perigo está no próprio homem. O meio mais perigoso que existe para o homem é o meio confortável. Os fabricantes modernos tem procurado muitos meios de aumentar o buraco da agulha para que o camelo possa passar mais confortavelmente, mais à vontade! Um camelo bem econômico, bem diminuído, fruto dos 'biólogos' modernos, dos cristãos modernos, da igreja moderninha. Sem preces nem ladainha, mas com muitas hipocrisias.
Jesus ensinou que seria muito provável que os ricos não sejam dignos de confiança. Por isso mesmo é que éle é rico. Que os homens que dependem do conforto desta vida são corruptíveis. Financeiramente corrupto, politicamente corrupto e espiritualmente corrupto.
Ele ensinou também que ser rico é correr riscos de desastre moral. E que não é errado se submeter aos ricos, errado é sempre confiar nos ricos. Já que no altar dos ricos, o deus adorado não é outro, senão, MAMOM. O deus que oferece pão tirado das pedras. O deus pão -duro. O deus que oferece as glórias mais mundanas e pálidas.
O mistério do Evangelho é justamente ensinar que só faz a diferença quem sai dos bancos das catedrais e vai se encontrar com Deus no deserto! O mistério do Evangelho é o que o homem é, não o que o homem tem. "A vida de um homem não consiste na abundância de bens que ele possui" ( Lucas 12:15).
A igreja verdadeira foi justamente edificada sobre a pedra, para poder um dia ir para cima. Porque para Deus, fragilidade também é força. Força esta que faz com que os fracos se sintam fortes, que os últimos se sintam os primeiros e os pobres ricos.

A PAZ!!!

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Henri Nouwen e Philip Yancey: "Por sede de amor".


Minha única conversa longa com Henri Nouwen ocorreu logo depois de ele ter voltado de São Francisco, onde havia trabalhado por uma semana numa clínica para doentes de Aids. Naquela época, eu não sabia nada sobre as questões sexuais de Nouwen. Ele me contou o que vira no distrito de Castro. A palavra gay parecia totalmente fora de lugar naquele local, bem no apogeu da crise da Aids. Rapazes morriam todos os dias, e milhares andavam apavorados, sem saber se eram portadores do vírus. Mesmo nas lojas em que eram vendidas camisetas espalhafatosas e objetos que beiravam o obsceno, o medo pairava como um denso nevoeiro sobre as ruas. Não apenas o medo, disse ele, mas também o senti-mento de culpa, o ódio e a rejeição.
Na clínica, Nouwen ouvia histórias pessoais. "Sou um padre, este é meu trabalho. Ouço as histórias das pessoas. Elas se confessam a mim." Ele me contou de jovens banidos de suas próprias famílias, forçados a se prostituir nas ruas. Alguns deles tinham centenas de parceiros com quem haviam se encontrado em casas de banho, cujos nomes nunca souberam, sendo que, de um desses parceiros, eles haviam contraído o vírus que agora os estava matando. Nouwen olhou para mim com seus olhos penetrantes, brilhando de compaixão e dor. "Philip, aqueles rapazes estavam morrendo - literalmente - por causa de sua sede de amor." Ele prosseguiu, contando-me histórias individuais que ouvira ali. Todos os relatos tinham em comum a busca por um lugar seguro, por um relacionamento estável, por um lar, por aceitação, por amor incondicional, por perdão - a própria busca de Nouwen, percebi depois. 

Philip Yancey, no livro Alma Sobrevivente (Ed. Mundo Cristão).

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

SALMO DE NATAL


Alexey Kondakov  "Le Chant des Anges", de Bouguereau


Meu Deus, Meu Deus, por que nos abandonaram
Nestes lugares vazios?
Em trânsito de Belém da Judeia  para o mundo
Circunscrito dos homens, viajando
Em todos os comboios, com o sono
Do Menino em sobressalto, com anjos
Sem sapatos, que adormecem os ouvidos
Do Menino e de Maria
A tocarem nos intervalos do silêncio
Um glória a Deus na terra da alegria.


07-12-2016


© João Tomaz Parreira  

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

La Bruyère e a necessidade de Deus


Chamo mundanos, terrestres ou grosseiros aqueles cujo espírito e coração estão apegados a uma pequena porção do mundo que habitam, que é a terra; que nada estimam, que nada amam do além: homens de tão estreitos limites como aquilo que julgam seus domínios e possessões, cujo tamanho pode ser medido e cujas fronteiras podem ser mostradas. Não me surpreende que homens que se apoiam assim num átomo cambaleiem em seus mínimos esforços para sondar a verdade e que sua visão tão curta não lhes deixe atingir a Deus, através do céu e dos astros. Não percebendo a excelência do que é espírito nem a dignidade da alma, sentem menos ainda como esta é difícil de satisfazer, como a terra inteira é inferior a ela, como lhe é necessária a existência de um ser soberanamente perfeito, que é Deus, e quanto é indispensável uma religião que o revele e o garanta. Compreendo facilmente, pelo contrário, que é natural a esses espíritos caírem na incredulidade ou na indiferença e fazer com que Deus e a religião sirvam a política, isto é, a ordem e o ornamento deste mundo, única coisa, segundo eles, que merece atenção.

La Bruyère in Caracteres

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Ruysbroeck e a (im)possibilidade moderna de iluminação


"Se pudéssemos renunciar a nós mesmos e a todo o egoísmo em nosso trabalho, deveríamos, com nosso espírito nu de imagens, transcender todas as coisas, e sem intermediários ser conduzidos pelo Espírito de Deus até a Nudez... Quando transcendermos a nós mesmos, e nos tornarmos, em nossa ascensão para Deus, tão simples que o amor nu das alturas possa nos tomar, onde o amor abraça o amor, acima do exercício de qualquer virtude - isto é, em nossa Origem, de Onde nascemos espiritualmente - então cessamos, e nós e toda nossa individualidade morre em Deus".


Os afeitos aos estudos dos textos/discursos religiosos universais notarão a semelhança com um texto budista, hindu ou até mesmo sufi. Mas é do místico cristão do século XIV, (Jan Van) Ruysbroeck (Bélgica 1293-1381). 

Há algo de perturbador em todos os místicos cristãos, seja na 'ortodoxia' de um Ruysbroeck até o quase panteísmo (se não herético, fronteiriço) de um Eckhart. Algo incaptável, obscurecido no e pelo tempo, que nossa razão moderna logo se apressa a oferecer um primeiro combate. Interessante também, para os afeitos às religiões comparadas, a semelhança de percepções em relação à iluminação, à ascese e processos de epifania entre os místicos das variadas correntes, sem desejar entrar aqui no mérito da Verdade religiosa (pois sabemos que Jesus é a Verdade). 
Gosto de refletir se um dia terei alma, tempo e paz para me dedicar à contemplação mística de Deus. E se, possuindo eventualmente tais atributos, lograrei ir além de pálidos rudimentos, sombras de outras sombras, obliterado que terá sido meu entendimento pela velocidade e hipersolicitações (hiperinformação, hiperengajamentos) que a vida moderna terá me obrigado até então.
Há espaço para a verdadeira e efetiva (realizável) contemplação mística em nosso século?  Já que o pensamento místico cristão é de maneira geral a seara de alguns teólogos e doutores da igreja católica, um dos maiores teólogos católicos do século XX, Karl Rahner, dizia que "o cristão do futuro ou será místico ou nao será cristão." Espero que esteja certo neste prognóstico, espero que possamos lançarmo-nos na nudez de Deus.

Sammis Reachers

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Sobre a literatura, a fraternidade e a liberalidade


Meu fascínio por frases e citações vem de longe, de alguns livros da pequenina biblioteca de meu pai, mas principalmente de um certo livro, e sua história em especial. O livro é o Coquetel Literário (uma antologia de citações), calhamaço fascinante de quase 500 páginas, de autoria de Dário Derenzi, eminente e falecido dentista afeito às lides literárias. 
Certa feita, eu ainda moleque de meus quatorze anos, li em certo periódico sobre o lançamento de tal livro, uma edição do autor, não comercializada. Dava endereço para solicitação de informações. Eu, humildemente, enviei minha cartinha, solicitando informações sobre como adquirir o livro. 
Um belo dia eu estava com meu pai do lado de fora de nossa casa, cortando alguns galhos de uma árvore. De repente para um carro de luxo, presença estranha no bairro naquela época. Um homem saiu do carro, em trajes sociais, viu o número da casa pintado no muro, conferiu em um papel, e em seguida indagou ao meu pai: "O senhor é o senhor... hum... Sammis... Reachers?" "Não, o 'senhor' Sammis Reachers é ele", disse meu pai, espantado, me apontando. O homem me observou, também algo espantado, e em seguida me estendeu um pacote. "Este livro é para você. O Dr. Dário me pediu para entregar". 
O cidadão se deslocara da Tijuca até São Gonçalo (!!!!) para dar um livro a um desconhecido. 
Aprendi muitas coisas naquele dia. Aprendi sobre liberalidade. Sobre o apreço pela literatura, seu alto valor, não redutível a cifrões, e a fraternidade que ela promove entre os homens. E ampliei meu apreço pelas máximas. 
Com o tempo publiquei minha própria seleta de máximas, "SABEDORIA: Breve Manual do Usuário", creio que em 2006 ou 2007, por sinal uma de minhas antologias mais baixadas e compartilhadas em diferentes frentes. E agora, trabalhando em novos projetos envolvendo frases, me lembro com carinho da generosidade do velho Dário, de quem nunca tive o prazer de apertar a mão, senão em pensamento. 
Parafraseando Isaac Newton, se aprendi a fazer livros e a disponibilizá-los de graça, foi amparado nos ombros de gigantes!

Sammis Reachers

terça-feira, 1 de novembro de 2016

OUVE-SE UM CHORO EM ALEPO




Um choro se ouve em Alepo
É Raquel chorando os seus filhos
Que não regressarão da escola

O grande pranto triste do fundo dos úteros
Que ficaram órfãos

Ouve-se um choro em Alepo
É Raquel a despedir-se 
De si mesma.

01-11-2016  
João Tomaz Parreira



quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Terceira Idade – Virtudes, Conflitos e Saídas


No decorrer dos anos o conceito sobre o envelhecimento tem sofrido modificações devido aos estudos cada vez mais profundos sobre o ser humano. Dados estatísticos revelam que, na década de 50, a média superior de vida era de 60 anos. Atualmente, o Brasil tem mais de 8% de sua população com pessoas acima dos 65 anos. A expectativa é de que no ano 2000 tenhamos 15% na faixa etária da terceira idade.
A vida é uma seqüência que só é construída com o passar dos anos. A Terceira Idade é classificada como a última seqüência da vida humana.
De acordo com a biologia e a psicologia, o corpo e a mente humana obedecem a uma cronologia que vai até um nível determinado de maturidade. A partir daí, começa o desgaste físico e mental.
Esse é um processo natural, que, mais cedo ou mais tarde, ocorre com tudo que existe no universo; até as pedras sofrem um desgaste.
Da mesma forma acontece com o ser humano, alguns envelhecem mais cedo do que outros, isso depende de fatores hereditários, ambiente em que se vive, condições de trabalho, situação econômica, etc. No entanto, há um fator determinante nesse processo, que é o psicológico. Há uma grande diferença entre o ser velho e o sentir-se velho. Existem pessoas que vivem como se tivessem 100 anos, quando na verdade têm 30 ou 40; assim como aqueles que tem 70 ou 90, mas vivem com muita disposição e vigor.
Não podemos negar ou fingir que não percebemos quando o corpo envia os sinais de seu amadurecimento. Com o passar dos anos, pode ser na casa dos 50 ou 60, o espelho, os amigos, a vida, começam a mostrar a realidade que para muitos é dificílima de aceitar: o envelhecimento do corpo. Sábiamente, Goethe escreveu: “A idade apodera-se de nós de surpresa.” E essa evidência pode desencadear grandes conflitos pessoais.

CRISES DA TERCEIRA IDADE

O fator cultural – Infelizmente, em nossa sociedade, os preconceitos em torno da pessoa de mais idade são muitos. A sociedade não tem respeito para com o idoso; considera-o improdutivo e senil, um peso a ser carregado.
O fator biológico - Uma das causas constantes de crise, é o conflito entre o desejo da alma e a limitação do corpo. A força muscular e a rapidez de resposta motora vão diminuindo gradualmente e as dores ou enfermidades mais freqüentes muitas vezes impedem a pessoa de fazer o que gostaria.
O fator emocional – Um possível sentimento de inutilidade também pode tornar-se um ponto conflitante. A possibilidade de não ser útil para ninguém pode fazer com que o idoso fique apático e deprimido.
Muitas vezes os familiares, preocupados com a fragilidade dos mais idosos, os proíbem de fazerem uma porção de coisas que, na verdade, ainda seriam capazes de realizar. No entanto, isso acaba causando uma grande frustração, tornando a vida na terceira idade triste e vazia.

BUSCANDO UM NOVO EQUILÍBRIO

Todas as fases da vida humana passam por transformações: a infância, a adolescência, a juventude, a vida adulta, o casamento, a gravidez, etc.   Em cada fase acontece em nós uma nova organização; a fim de mantermos o equilíbrio pessoal, mudamos comportamentos, atitudes, pensamentos. Na terceira idade acontece a mesma coisa.
Quando chega o inverno da vida, em que os cabelos vão ficando com a cor da neve, o ser humano necessita se proteger dos inconvenientes próprios da estação. É necessário reconhecer que é possível caminhar, quando não dá mais para correr e que há possibilidade de fazer um pouco, quando não puder mais fazer tudo. Cada um deve buscar dentro de si mesmo suas próprias possibilidades; mesmo que só lhe reste uma rica e intensa vida de oração.
Uma das coisas que mais podem ser positivas na terceira idade é poder olhar tudo o que foi possível realizar um dia e sentir que sua missão foi cumprida. A sensação do dever cumprido produz grande satisfação.
É hora de colher o que se plantou; de aproveitar os momentos preciosos da vida que ainda estão por vir.
Outro ponto interessante é a possibilidade de viver sem preocupação com o futuro. Simone de Bouvoir, em seu livro “A Velhice” (pág.375), cita o grande escritor Fontenelle, que morreu com quase 100 anos, como alguém que dizia que “Nessa idade, já estamos com uma posição definida. Não temos mais ambição; não desejamos mais nada, e usufruímos do que já semeamos. É a idade da colheita já realizada.”
O tempo disponível pode e deve ser usado em função de muitas coisas boas, como por exemplo, passear; visitar os amigos e os enfermos; desfrutar da companhia dos filhos, netos e, quem sabe, dos bisnetos; ler; estudar a Palavra; compartilhar experiências, entre outras coisas mais.

CONCLUSÃO

Todo ser humano tem grande valor, afinal, foi criado a imagem e semelhança de Deus.
Quando a sociedade em que vivemos, ou até mesmo familiares não sabem respeitar e apreciar a pessoa de mais idade, não quer dizer que ela tenha de viver desrespeitada e depreciada.
A conscientização dos inconvenientes que surgem com a chegada dos “anos dourados” não deve trazer consigo o sentimento de incapacidade. Uma atitude de auto valorização pode ajudar muito para que o idoso tenha uma qualidade de vida satisfatória, com todo o direito de ser feliz! Quando alguém tem a alegria natural de viver, ninguém pode tirá-la!
Conhecedor das profundezas do vivido coração do ser mais belo que criou, Deus inspirou um de seus servos a escrever: “Os justos florescerão como a palmeira (…) Na velhice ainda darão frutos, serão viçosos e florescentes.” (Salmo 92:12,14)

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

PARÁBOLA DO SALMO DO PASTOR



As ovelhas são o meu alimento, oferecem
Com mugidos o leite que risca a noite
Com uma torrente branca, são o calor
Entre as minhas mãos, as ovelhas são a minha lã
Que me resguarda dos medos nocturnos
Pelo rebanho me levanto no meio do luar
Para encontrar entre os espinhos a centésima
Enquanto as noventa e nove estão presas
No redil às próprias sombras.



19-10-2015
© João Tomaz Parreira

domingo, 28 de agosto de 2016

ONDE DAVID PÕE OS OLHOS

Micro conto 

                  

Do alto do terraço, que recebe toda a luminosidade com que a tarde se espraia e demora nas varandas, David perguntava com o olhar quem era aquela mulher.
Formosa, num despudor que talvez não fosse inocente mas sem exibicionismos, apesar da sua beleza jovial.  Deixava passar sobre o corpo, na sua leviandade,  o frescor da água do  banho.
David, pastor de povos, tinha um enormíssimo rebanho, mas foi logo apaixonar-se por essa pequena cordeira, e roubá-la ao marido.
A jovem mulher também passava os olhos, despreocupadamente,  pelo próprio corpo, as suas mãos tocavam-no inocentes,  sem ter um rasgo de lucidez  que a levasse a pensar que poderia estar a ser observada. Mas os olhares reais estão acima de qualquer leve suspeita. Um olhar de soberano pode ser uma ordem, como foi o caso.
O vento não soprava com força, era um leve ventar, mas os cabelos compridos de Bate-Seba, molhados, não acompanhavam as voltas e revoltas do vento, eram ornatos negros que se moviam apenas aos movimentos do corpo.
Fazia-se sentir, no entanto, nos ramos das plantas ornamentais,  nas talhas douradas que adornavam o terraço.  E foi esse vento que agitou os véus e fez descobrir como, quase nua, se lavava Bate-Seba.
Ela lavava-se não tão inocentemente quanto possa parecer, como muitos séculos depois Pilatos, pegando numa bacia, lavou as suas mãos diante da multidão.

28-08-2016

© João Tomaz Parreira  

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

JESUS–NO NOVO FILME “BEN-HUR”–“É UM INSTRUMENTO” ?





Quem viu há anos, ou nas sucessivas passagens nos canais de cinema do cabo, o filme Ben-Hur, baseado no romance de Lew Wallace do século XIX, interpretado por Charleton Heston, lembrar-se-á de que a figura de Jesus aparecia apenas em silhueta. Embora o enredo do romance se reporte a “A Tale of Christ”.
A nova readaptação de “Ben-Hur”, de 2016, trata a mesma história, como uma aventura desse tempo, sobretudo aventura ética e religiosa, em que os judeus têm uma palavra de supremacia moral a contrapor aos romanos, reforçando no filme o que foi o romance, classificado com algum exagero como “o mais influente livro cristão do século XIX”.
No que concerne à figura de Cristo no filme épico pré-cistão de 1959, Jesus não aparecia directamente, mas apenas em silhueta. 
Neste filme de 2016, a personagem Jesus (o actor Ricardo Santoro) aparece para construir todo o sentido ao protagonista Ben-Hur e à sua transformação espiritual.
O actor principal, Jack Huston, no papel de Ben-Hur, para reforçar a aparição de Jesus no filme, valorizando com legitimidade esta mais valia do "remake" do clássico, declarou à imprensa que a figura divina aparece porque “Jesus é um instrumento”.
Compreende-se, embora desajustado, o que se quis dizer com isso, é que assim o filme reforça a mensagem cristã.
Mas Jesus Cristo não pode nunca ser visto como um “instrumento”. Talvez, sem querer, isso explique muito do que se passa com as “igrejas” neo-pentecostais, as IURD, e outras derivadas, que apresentam Jesus de facto como “um instrumento” para todas as coisas: financeiras, pseudo milagres, manipulação dos fiéis, etc.etc.
© 


sexta-feira, 22 de julho de 2016

A ÁRVORE






Era uma árvore, no meio do jardim
sabia a verdade das coisas: Adão e Eva
a esconderem os olhos do seu próprio sexo;
ou os querubins com uma espada
torneada a fogo,  que  guardaria
a melancolia de um jardim vazio.


21-07-2016

© João Tomaz Parreira

segunda-feira, 27 de junho de 2016

Buscando sua vida perante Cristo




Suely Ceruci

"Então, Zípora, tomou uma pedra aguda e circuncidou o prepúcio de seu filho, e o lançou a seus pés, e disse: Certamente me és um esposo sanguinário" - Gênesis 4.25.

Zípora era a esposa de Moisés.

E, não vamos discutir aqui a atitude dela, ou o relacionamento que tinha com seu esposo.

Vamos nos atentar a conduta de Moisés perante o Senhor, seu Deus! Ele não foi atento ao Concerto que Deus fizera com Abraão: a circuncisão.

Moisés fora criado dentro de um palácio, certamente por criaturas com outros deuses. Mas, sabia do Concerto, pois seus pais verdadeiros eram hebreus, e não deu importância,(provavelmente por causa da influência ímpia na infância!).

Além disso, já tivera contato direto com Deus, já fora eleito para uma missão pelo próprio Deus.

Então,estava em desobediência à Palavra do seu Senhor! E seria castigado por isso,com a morte! (Gênesis 4.24).

Que lição, cristãos,aprendemos aqui?

1) Obedecer as determinações do Cristo e sua Palavra é quesito fundamental àqueles que o aceitam como seu Senhor e Salvador.

2) Vigiar, para que, proposital ou inadvertidamente, não sejamos influenciados por outros deuses, deixando Cristo em segundo plano, sem a devida importância em nossa vida.

3) Orar, para que o Senhor nos mostre o que temos de errado, e nos é oculto.

"Quem pode entender os próprios erros; expurga-me tu dos que me são ocultos" (Salmos 19.12).

quinta-feira, 19 de maio de 2016

Ronaldo Lidório - O Evangelho remodelado


Em dias atuais o evangelho tem sido insistentemente remodelado para se encaixar na expectativa da sociedade. Perante uma sociedade hedônica que valoriza o prazer, evita-se o evangelho bíblico que confronta e chama o pecado de pecado. Perante uma sociedade insaciável que busca sempre novidades, reveste-se o evangelho de interpretações humanistas de prosperidade. Perante uma sociedade narcisista que busca destaque individual o evangelho é usado para exaltar a homens e não a Cristo. A tentativa de deformar o evangelho é antiga e Paulo alertou as igrejas na Galácia contra os que pregavam um “outro evangelho”.
A Palavra esclarece que o autor do evangelho é Deus – e não homens; que a identidade do evangelho é Cristo – e não os apóstolos; e que a natureza do evangelho é de profunda e crescente transformação. Transforma perseguidores em perseguidos; agnósticos em crentes; orgulhosos em servos; perdidos em salvos. Quanto à crença, o evangelho nos levar a depositar nossa fé e esperança na graça de Deus e não na capacidade dos homens. Quanto ao relacionamento, o evangelho nos ensina a amar a Deus acima de tudo e ao próximo (amigos ou inimigos) como a nós mesmos. Quanto à missão, o evangelho nos lança ao desejo (e ordem) de Cristo, de fazermos discípulos (dEle) em todas as nações.
O evangelho bíblico diz “bem aventurados” e também “raça de víboras”. Manifesta a graça e também a justiça de Deus. Mostra os atos de bondade e também de punição. Apresenta o céu e também o inferno. Somos pelo evangelho convidados a conhecer a Cristo (nas Escrituras), viver Cristo (dia a dia) e proclamar Cristo (perto e longe). Jesus Cristo é o evangelho.

sexta-feira, 22 de abril de 2016

O QUE DISSE UM DOS MALFEITORES



A caminho da morte não falou,  a sua boca
reservava-se ao silêncio divino,  dentro da alma
chorava talvez. Assim vi o melhor espírito de Israel
consumido pela dor
numa cruz, vestido do seu próprio sangue
atravessando  o coração do Pai.
Ao meu lado a arrastar a voz ferida
a deixar no ar palavras de perdão.
Digo
aquela cruz não era para um Deus, eu que sou
um malfeitor a quem  Ele deu uma rua de ouro
no Paraíso.

08-10-2015


© João Tomaz Parreira