quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

La Bruyère e a necessidade de Deus


Chamo mundanos, terrestres ou grosseiros aqueles cujo espírito e coração estão apegados a uma pequena porção do mundo que habitam, que é a terra; que nada estimam, que nada amam do além: homens de tão estreitos limites como aquilo que julgam seus domínios e possessões, cujo tamanho pode ser medido e cujas fronteiras podem ser mostradas. Não me surpreende que homens que se apoiam assim num átomo cambaleiem em seus mínimos esforços para sondar a verdade e que sua visão tão curta não lhes deixe atingir a Deus, através do céu e dos astros. Não percebendo a excelência do que é espírito nem a dignidade da alma, sentem menos ainda como esta é difícil de satisfazer, como a terra inteira é inferior a ela, como lhe é necessária a existência de um ser soberanamente perfeito, que é Deus, e quanto é indispensável uma religião que o revele e o garanta. Compreendo facilmente, pelo contrário, que é natural a esses espíritos caírem na incredulidade ou na indiferença e fazer com que Deus e a religião sirvam a política, isto é, a ordem e o ornamento deste mundo, única coisa, segundo eles, que merece atenção.

La Bruyère in Caracteres

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Ruysbroeck e a (im)possibilidade moderna de iluminação


"Se pudéssemos renunciar a nós mesmos e a todo o egoísmo em nosso trabalho, deveríamos, com nosso espírito nu de imagens, transcender todas as coisas, e sem intermediários ser conduzidos pelo Espírito de Deus até a Nudez... Quando transcendermos a nós mesmos, e nos tornarmos, em nossa ascensão para Deus, tão simples que o amor nu das alturas possa nos tomar, onde o amor abraça o amor, acima do exercício de qualquer virtude - isto é, em nossa Origem, de Onde nascemos espiritualmente - então cessamos, e nós e toda nossa individualidade morre em Deus".


Os afeitos aos estudos dos textos/discursos religiosos universais notarão a semelhança com um texto budista, hindu ou até mesmo sufi. Mas é do místico cristão do século XIV, (Jan Van) Ruysbroeck (Bélgica 1293-1381). 

Há algo de perturbador em todos os místicos cristãos, seja na 'ortodoxia' de um Ruysbroeck até o quase panteísmo (se não herético, fronteiriço) de um Eckhart. Algo incaptável, obscurecido no e pelo tempo, que nossa razão moderna logo se apressa a oferecer um primeiro combate. Interessante também, para os afeitos às religiões comparadas, a semelhança de percepções em relação à iluminação, à ascese e processos de epifania entre os místicos das variadas correntes, sem desejar entrar aqui no mérito da Verdade religiosa (pois sabemos que Jesus é a Verdade). 
Gosto de refletir se um dia terei alma, tempo e paz para me dedicar à contemplação mística de Deus. E se, possuindo eventualmente tais atributos, lograrei ir além de pálidos rudimentos, sombras de outras sombras, obliterado que terá sido meu entendimento pela velocidade e hipersolicitações (hiperinformação, hiperengajamentos) que a vida moderna terá me obrigado até então.
Há espaço para a verdadeira e efetiva (realizável) contemplação mística em nosso século?  Já que o pensamento místico cristão é de maneira geral a seara de alguns teólogos e doutores da igreja católica, um dos maiores teólogos católicos do século XX, Karl Rahner, dizia que "o cristão do futuro ou será místico ou nao será cristão." Espero que esteja certo neste prognóstico, espero que possamos lançarmo-nos na nudez de Deus.

Sammis Reachers

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Sobre a literatura, a fraternidade e a liberalidade


Meu fascínio por frases e citações vem de longe, de alguns livros da pequenina biblioteca de meu pai, mas principalmente de um certo livro, e sua história em especial. O livro é o Coquetel Literário (uma antologia de citações), calhamaço fascinante de quase 500 páginas, de autoria de Dário Derenzi, eminente e falecido dentista afeito às lides literárias. 
Certa feita, eu ainda moleque de meus quatorze anos, li em certo periódico sobre o lançamento de tal livro, uma edição do autor, não comercializada. Dava endereço para solicitação de informações. Eu, humildemente, enviei minha cartinha, solicitando informações sobre como adquirir o livro. 
Um belo dia eu estava com meu pai do lado de fora de nossa casa, cortando alguns galhos de uma árvore. De repente para um carro de luxo, presença estranha no bairro naquela época. Um homem saiu do carro, em trajes sociais, viu o número da casa pintado no muro, conferiu em um papel, e em seguida indagou ao meu pai: "O senhor é o senhor... hum... Sammis... Reachers?" "Não, o 'senhor' Sammis Reachers é ele", disse meu pai, espantado, me apontando. O homem me observou, também algo espantado, e em seguida me estendeu um pacote. "Este livro é para você. O Dr. Dário me pediu para entregar". 
O cidadão se deslocara da Tijuca até São Gonçalo (!!!!) para dar um livro a um desconhecido. 
Aprendi muitas coisas naquele dia. Aprendi sobre liberalidade. Sobre o apreço pela literatura, seu alto valor, não redutível a cifrões, e a fraternidade que ela promove entre os homens. E ampliei meu apreço pelas máximas. 
Com o tempo publiquei minha própria seleta de máximas, "SABEDORIA: Breve Manual do Usuário", creio que em 2006 ou 2007, por sinal uma de minhas antologias mais baixadas e compartilhadas em diferentes frentes. E agora, trabalhando em novos projetos envolvendo frases, me lembro com carinho da generosidade do velho Dário, de quem nunca tive o prazer de apertar a mão, senão em pensamento. 
Parafraseando Isaac Newton, se aprendi a fazer livros e a disponibilizá-los de graça, foi amparado nos ombros de gigantes!

Sammis Reachers

terça-feira, 1 de novembro de 2016

OUVE-SE UM CHORO EM ALEPO




Um choro se ouve em Alepo
É Raquel chorando os seus filhos
Que não regressarão da escola

O grande pranto triste do fundo dos úteros
Que ficaram órfãos

Ouve-se um choro em Alepo
É Raquel a despedir-se 
De si mesma.

01-11-2016  
João Tomaz Parreira



quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Terceira Idade – Virtudes, Conflitos e Saídas


No decorrer dos anos o conceito sobre o envelhecimento tem sofrido modificações devido aos estudos cada vez mais profundos sobre o ser humano. Dados estatísticos revelam que, na década de 50, a média superior de vida era de 60 anos. Atualmente, o Brasil tem mais de 8% de sua população com pessoas acima dos 65 anos. A expectativa é de que no ano 2000 tenhamos 15% na faixa etária da terceira idade.
A vida é uma seqüência que só é construída com o passar dos anos. A Terceira Idade é classificada como a última seqüência da vida humana.
De acordo com a biologia e a psicologia, o corpo e a mente humana obedecem a uma cronologia que vai até um nível determinado de maturidade. A partir daí, começa o desgaste físico e mental.
Esse é um processo natural, que, mais cedo ou mais tarde, ocorre com tudo que existe no universo; até as pedras sofrem um desgaste.
Da mesma forma acontece com o ser humano, alguns envelhecem mais cedo do que outros, isso depende de fatores hereditários, ambiente em que se vive, condições de trabalho, situação econômica, etc. No entanto, há um fator determinante nesse processo, que é o psicológico. Há uma grande diferença entre o ser velho e o sentir-se velho. Existem pessoas que vivem como se tivessem 100 anos, quando na verdade têm 30 ou 40; assim como aqueles que tem 70 ou 90, mas vivem com muita disposição e vigor.
Não podemos negar ou fingir que não percebemos quando o corpo envia os sinais de seu amadurecimento. Com o passar dos anos, pode ser na casa dos 50 ou 60, o espelho, os amigos, a vida, começam a mostrar a realidade que para muitos é dificílima de aceitar: o envelhecimento do corpo. Sábiamente, Goethe escreveu: “A idade apodera-se de nós de surpresa.” E essa evidência pode desencadear grandes conflitos pessoais.

CRISES DA TERCEIRA IDADE

O fator cultural – Infelizmente, em nossa sociedade, os preconceitos em torno da pessoa de mais idade são muitos. A sociedade não tem respeito para com o idoso; considera-o improdutivo e senil, um peso a ser carregado.
O fator biológico - Uma das causas constantes de crise, é o conflito entre o desejo da alma e a limitação do corpo. A força muscular e a rapidez de resposta motora vão diminuindo gradualmente e as dores ou enfermidades mais freqüentes muitas vezes impedem a pessoa de fazer o que gostaria.
O fator emocional – Um possível sentimento de inutilidade também pode tornar-se um ponto conflitante. A possibilidade de não ser útil para ninguém pode fazer com que o idoso fique apático e deprimido.
Muitas vezes os familiares, preocupados com a fragilidade dos mais idosos, os proíbem de fazerem uma porção de coisas que, na verdade, ainda seriam capazes de realizar. No entanto, isso acaba causando uma grande frustração, tornando a vida na terceira idade triste e vazia.

BUSCANDO UM NOVO EQUILÍBRIO

Todas as fases da vida humana passam por transformações: a infância, a adolescência, a juventude, a vida adulta, o casamento, a gravidez, etc.   Em cada fase acontece em nós uma nova organização; a fim de mantermos o equilíbrio pessoal, mudamos comportamentos, atitudes, pensamentos. Na terceira idade acontece a mesma coisa.
Quando chega o inverno da vida, em que os cabelos vão ficando com a cor da neve, o ser humano necessita se proteger dos inconvenientes próprios da estação. É necessário reconhecer que é possível caminhar, quando não dá mais para correr e que há possibilidade de fazer um pouco, quando não puder mais fazer tudo. Cada um deve buscar dentro de si mesmo suas próprias possibilidades; mesmo que só lhe reste uma rica e intensa vida de oração.
Uma das coisas que mais podem ser positivas na terceira idade é poder olhar tudo o que foi possível realizar um dia e sentir que sua missão foi cumprida. A sensação do dever cumprido produz grande satisfação.
É hora de colher o que se plantou; de aproveitar os momentos preciosos da vida que ainda estão por vir.
Outro ponto interessante é a possibilidade de viver sem preocupação com o futuro. Simone de Bouvoir, em seu livro “A Velhice” (pág.375), cita o grande escritor Fontenelle, que morreu com quase 100 anos, como alguém que dizia que “Nessa idade, já estamos com uma posição definida. Não temos mais ambição; não desejamos mais nada, e usufruímos do que já semeamos. É a idade da colheita já realizada.”
O tempo disponível pode e deve ser usado em função de muitas coisas boas, como por exemplo, passear; visitar os amigos e os enfermos; desfrutar da companhia dos filhos, netos e, quem sabe, dos bisnetos; ler; estudar a Palavra; compartilhar experiências, entre outras coisas mais.

CONCLUSÃO

Todo ser humano tem grande valor, afinal, foi criado a imagem e semelhança de Deus.
Quando a sociedade em que vivemos, ou até mesmo familiares não sabem respeitar e apreciar a pessoa de mais idade, não quer dizer que ela tenha de viver desrespeitada e depreciada.
A conscientização dos inconvenientes que surgem com a chegada dos “anos dourados” não deve trazer consigo o sentimento de incapacidade. Uma atitude de auto valorização pode ajudar muito para que o idoso tenha uma qualidade de vida satisfatória, com todo o direito de ser feliz! Quando alguém tem a alegria natural de viver, ninguém pode tirá-la!
Conhecedor das profundezas do vivido coração do ser mais belo que criou, Deus inspirou um de seus servos a escrever: “Os justos florescerão como a palmeira (…) Na velhice ainda darão frutos, serão viçosos e florescentes.” (Salmo 92:12,14)

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

PARÁBOLA DO SALMO DO PASTOR



As ovelhas são o meu alimento, oferecem
Com mugidos o leite que risca a noite
Com uma torrente branca, são o calor
Entre as minhas mãos, as ovelhas são a minha lã
Que me resguarda dos medos nocturnos
Pelo rebanho me levanto no meio do luar
Para encontrar entre os espinhos a centésima
Enquanto as noventa e nove estão presas
No redil às próprias sombras.



19-10-2015
© João Tomaz Parreira

domingo, 28 de agosto de 2016

ONDE DAVID PÕE OS OLHOS

Micro conto 

                  

Do alto do terraço, que recebe toda a luminosidade com que a tarde se espraia e demora nas varandas, David perguntava com o olhar quem era aquela mulher.
Formosa, num despudor que talvez não fosse inocente mas sem exibicionismos, apesar da sua beleza jovial.  Deixava passar sobre o corpo, na sua leviandade,  o frescor da água do  banho.
David, pastor de povos, tinha um enormíssimo rebanho, mas foi logo apaixonar-se por essa pequena cordeira, e roubá-la ao marido.
A jovem mulher também passava os olhos, despreocupadamente,  pelo próprio corpo, as suas mãos tocavam-no inocentes,  sem ter um rasgo de lucidez  que a levasse a pensar que poderia estar a ser observada. Mas os olhares reais estão acima de qualquer leve suspeita. Um olhar de soberano pode ser uma ordem, como foi o caso.
O vento não soprava com força, era um leve ventar, mas os cabelos compridos de Bate-Seba, molhados, não acompanhavam as voltas e revoltas do vento, eram ornatos negros que se moviam apenas aos movimentos do corpo.
Fazia-se sentir, no entanto, nos ramos das plantas ornamentais,  nas talhas douradas que adornavam o terraço.  E foi esse vento que agitou os véus e fez descobrir como, quase nua, se lavava Bate-Seba.
Ela lavava-se não tão inocentemente quanto possa parecer, como muitos séculos depois Pilatos, pegando numa bacia, lavou as suas mãos diante da multidão.

28-08-2016

© João Tomaz Parreira  

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

JESUS–NO NOVO FILME “BEN-HUR”–“É UM INSTRUMENTO” ?





Quem viu há anos, ou nas sucessivas passagens nos canais de cinema do cabo, o filme Ben-Hur, baseado no romance de Lew Wallace do século XIX, interpretado por Charleton Heston, lembrar-se-á de que a figura de Jesus aparecia apenas em silhueta. Embora o enredo do romance se reporte a “A Tale of Christ”.
A nova readaptação de “Ben-Hur”, de 2016, trata a mesma história, como uma aventura desse tempo, sobretudo aventura ética e religiosa, em que os judeus têm uma palavra de supremacia moral a contrapor aos romanos, reforçando no filme o que foi o romance, classificado com algum exagero como “o mais influente livro cristão do século XIX”.
No que concerne à figura de Cristo no filme épico pré-cistão de 1959, Jesus não aparecia directamente, mas apenas em silhueta. 
Neste filme de 2016, a personagem Jesus (o actor Ricardo Santoro) aparece para construir todo o sentido ao protagonista Ben-Hur e à sua transformação espiritual.
O actor principal, Jack Huston, no papel de Ben-Hur, para reforçar a aparição de Jesus no filme, valorizando com legitimidade esta mais valia do "remake" do clássico, declarou à imprensa que a figura divina aparece porque “Jesus é um instrumento”.
Compreende-se, embora desajustado, o que se quis dizer com isso, é que assim o filme reforça a mensagem cristã.
Mas Jesus Cristo não pode nunca ser visto como um “instrumento”. Talvez, sem querer, isso explique muito do que se passa com as “igrejas” neo-pentecostais, as IURD, e outras derivadas, que apresentam Jesus de facto como “um instrumento” para todas as coisas: financeiras, pseudo milagres, manipulação dos fiéis, etc.etc.
© 


sexta-feira, 22 de julho de 2016

A ÁRVORE






Era uma árvore, no meio do jardim
sabia a verdade das coisas: Adão e Eva
a esconderem os olhos do seu próprio sexo;
ou os querubins com uma espada
torneada a fogo,  que  guardaria
a melancolia de um jardim vazio.


21-07-2016

© João Tomaz Parreira

segunda-feira, 27 de junho de 2016

Buscando sua vida perante Cristo




Suely Ceruci

"Então, Zípora, tomou uma pedra aguda e circuncidou o prepúcio de seu filho, e o lançou a seus pés, e disse: Certamente me és um esposo sanguinário" - Gênesis 4.25.

Zípora era a esposa de Moisés.

E, não vamos discutir aqui a atitude dela, ou o relacionamento que tinha com seu esposo.

Vamos nos atentar a conduta de Moisés perante o Senhor, seu Deus! Ele não foi atento ao Concerto que Deus fizera com Abraão: a circuncisão.

Moisés fora criado dentro de um palácio, certamente por criaturas com outros deuses. Mas, sabia do Concerto, pois seus pais verdadeiros eram hebreus, e não deu importância,(provavelmente por causa da influência ímpia na infância!).

Além disso, já tivera contato direto com Deus, já fora eleito para uma missão pelo próprio Deus.

Então,estava em desobediência à Palavra do seu Senhor! E seria castigado por isso,com a morte! (Gênesis 4.24).

Que lição, cristãos,aprendemos aqui?

1) Obedecer as determinações do Cristo e sua Palavra é quesito fundamental àqueles que o aceitam como seu Senhor e Salvador.

2) Vigiar, para que, proposital ou inadvertidamente, não sejamos influenciados por outros deuses, deixando Cristo em segundo plano, sem a devida importância em nossa vida.

3) Orar, para que o Senhor nos mostre o que temos de errado, e nos é oculto.

"Quem pode entender os próprios erros; expurga-me tu dos que me são ocultos" (Salmos 19.12).

quinta-feira, 19 de maio de 2016

Ronaldo Lidório - O Evangelho remodelado


Em dias atuais o evangelho tem sido insistentemente remodelado para se encaixar na expectativa da sociedade. Perante uma sociedade hedônica que valoriza o prazer, evita-se o evangelho bíblico que confronta e chama o pecado de pecado. Perante uma sociedade insaciável que busca sempre novidades, reveste-se o evangelho de interpretações humanistas de prosperidade. Perante uma sociedade narcisista que busca destaque individual o evangelho é usado para exaltar a homens e não a Cristo. A tentativa de deformar o evangelho é antiga e Paulo alertou as igrejas na Galácia contra os que pregavam um “outro evangelho”.
A Palavra esclarece que o autor do evangelho é Deus – e não homens; que a identidade do evangelho é Cristo – e não os apóstolos; e que a natureza do evangelho é de profunda e crescente transformação. Transforma perseguidores em perseguidos; agnósticos em crentes; orgulhosos em servos; perdidos em salvos. Quanto à crença, o evangelho nos levar a depositar nossa fé e esperança na graça de Deus e não na capacidade dos homens. Quanto ao relacionamento, o evangelho nos ensina a amar a Deus acima de tudo e ao próximo (amigos ou inimigos) como a nós mesmos. Quanto à missão, o evangelho nos lança ao desejo (e ordem) de Cristo, de fazermos discípulos (dEle) em todas as nações.
O evangelho bíblico diz “bem aventurados” e também “raça de víboras”. Manifesta a graça e também a justiça de Deus. Mostra os atos de bondade e também de punição. Apresenta o céu e também o inferno. Somos pelo evangelho convidados a conhecer a Cristo (nas Escrituras), viver Cristo (dia a dia) e proclamar Cristo (perto e longe). Jesus Cristo é o evangelho.

sexta-feira, 22 de abril de 2016

O QUE DISSE UM DOS MALFEITORES



A caminho da morte não falou,  a sua boca
reservava-se ao silêncio divino,  dentro da alma
chorava talvez. Assim vi o melhor espírito de Israel
consumido pela dor
numa cruz, vestido do seu próprio sangue
atravessando  o coração do Pai.
Ao meu lado a arrastar a voz ferida
a deixar no ar palavras de perdão.
Digo
aquela cruz não era para um Deus, eu que sou
um malfeitor a quem  Ele deu uma rua de ouro
no Paraíso.

08-10-2015


© João Tomaz Parreira

sábado, 26 de março de 2016

QUEM FOI MÁRIO RIBEIRO MARTINS?


Filemon F. Martins


        Mário Ribeiro Martins nasceu a 07/08/1943, no agreste da Bahia, na cidade de Ipupiara, Região da Chapada Diamantina. Filho de Adão Francisco Martins e Francolina Ribeiro Martins. Aprendeu as primeiras letras nas cidades de Ipupiara, Morpará e Xique-Xique, tendo concluído o curso ginasial no Colégio São Vicente de Paulo, em Bom Jesus da Lapa.
        No Recife, fez o curso Clássico no Colégio Americano Batista Gilreath, onde também estudara Gilberto Freyre nos idos do ano de 1907. No Seminário Teológico Batista do Norte do Brasil bacharelou-se em Teologia em 1970. Na Universidade Católica de Pernambuco licenciou-se em Filosofia Pura, onde também fez Licenciatura em Sociologia. Em 1972, bacharelou-se em Ciências Sociais, na Universidade Federal de Pernambuco. Ainda em 1972 terminou o Mestrado em Teologia, com especialização em História do Cristianismo, defendendo a tese “O Radicalismo Batista Brasileiro”. 
        Tornou-se professor na Universidade Católica de Pernambuco, na Universidade Federal Rural, no Seminário Teológico Batista do Norte do Brasil e na Escola Superior de Relações Públicas.
        Escreveu para os jornais, “DIÁRIO DE PERNAMBUCO” e “JORNAL DO COMMERCIO”, ambos do Recife, ao lado de MAURO MOTA, ORLANDO PARAHYM, NILO PEREIRA, ALBERTO CUNHA MELO e outros.
        Em 1973, na Espanha, fez cursos de Especialização na área de Educação Moderna e Sociologia, no Instituto de Cultura Hispânica de Madrid, além de Administração Pública, na Escuela Nacional de Alcalá de Henares. De volta ao Brasil, publicou: “GILBERTO FREYRE, O EX-PROTESTANTE” (São Paulo - Imprensa Metodista, 1973), uma contribuição biográfica focalizando aspectos interessantes da vida do Mestre de Apipucos, posteriormente traduzido para o espanhol por Jorge Piñero Marques.
        Em 1975, transferiu-se para Anápolis – Goiás, onde se dedicou ao Magistério Superior, como professor da Faculdade de Filosofia Bernardo Sayão e da Faculdade de Direito. Depois de ter concluído o curso de Bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais, na Faculdade de Direito de Anápolis, em 1976, tornou-se, através de Concurso Público de Provas e Títulos, em 1978, Promotor de Justiça de Abadiânia, atuando também em Corumbá de Goiás e depois, Anápolis.
        Aposentado em abril de 1998, como Procurador de Justiça do Estado de Goiás, transferiu-se para Palmas, Tocantins, onde passou a residir. Desde então, tem-se dedicado a atividades literárias, fazendo palestras, seminários e conferências sobre literatura goiana e tocantinense, bem como pesquisando material para novos livros. Fez curso de Pós-Graduação em Administração Pública, no III Ciclo de Estudos de Política e Estratégia, num convênio entre a Universidade do Tocantins e a ADESG (Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra), quando estudou no Rio de Janeiro para complementação do curso, através de visitas aos diversos Ministérios e Instituições Públicas.
        Escritor, Cronista, Poeta, Sociólogo, Pensador, Mestre em Teologia, Ecologista, Filósofo, Jurista, Dicionarista, Biógrafo, Historiador, é autor de vários livros, entre outros: “CORRENTES IMIGRATÓRIAS NO BRASIL” (1972), “SUBDESENVOLVIMENTO-UMA CONCEITUAÇÃO ESTÁTICA E DINÂMICA” (1973), “SOCIOLOGIA DA COMUNIDADE” (1973), “MISCELÂNEA POÉTICA” (1973), “GILBERTO FREYRE, O EX-PROTESTANTE” (1973), “ESBOÇO DE SOCIOLOGIA” (1974), “FILOSOFIA DA CIÊNCIA” (1979), “SOCIOLOGIA GERAL & ESPECIAL” (1982), “LETRAS ANAPOLINAS” (1984), “JORNALISTAS, POETAS E ESCRITORES DE ANÁPOLIS” (1986), “ESTUDOS LITERÁRIOS DE AUTORES GOIANOS” (1995), “ESCRITORES DE GOIÁS” (1996), “DICIONÁRIO BIOBIBLIOGRÁFICO DE GOIÁS” (1999), “DICIONÁRIO BIOBIBLIOGRÁFICO DO TOCANTINS” (2001), “CORONELISMO NO ANTIGO FUNDÃO DE BROTAS” (2004), “RETRATO DA ACADEMIA TOCANTINENSE DE LETRAS” (2005), “DICIONÁRIO BIOBIBLIOGRÁFICO DE MEMBROS DA ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS” (2007), “DICIONÁRIO GENEALÓGICO DA FAMÍLIA RIBEIRO MARTINS” (2007), “A CONSCIÊNCIA DA LIBERDADE E OUTROS TEMAS” (2008), “MANIFESTO CONTRA O ÓBVIO E OUTROS ASSUNTOS” (2009), “ENCANTAMENTO DO MUNDO E OUTRAS IDEIAS” (2009) “CONFLITO DE GERAÇÕES E OUTRAS PROVOCAÇÕES” (2010) “RAZÃO DO MEU VIVER E OUTRAS AMENIDADES” (2011).
        Em “MISCELÂNEA POÉTICA” revelou-se um excelente sonetista compondo sonetos como estes: MEDO DAS TREVAS – “Nos dolentes caminhos desta vida,/parei chorosamente pra pensar:/vi o passado – que grande ferida!/Vi o presente – que tempo vulgar! Com quase a minha fé desfalecida,/desvendei o futuro a me acenar:/contemplei minha nau quase perdida,/do encapelado mar se retirar. Encosta, encosta, encosta foi meu brado./Quando saiu meu grito desvairado,/a nau chegou ao cais lá no porvir. Que tremenda visão eu tive agora!/Que sonho! Que beleza! Amável hora,/pois acordei morrendo de sorrir.”
        VERGEL – “No meu lindo vergel de experiências,/colho versos de amor e de saudade;/vejo neles excelsa claridade/dos sonhos meus e das reminiscências. Passo horas e horas vendo estas essências,/do meu jardim, da rica mocidade;/busco aqui, busco ali sublimidade,/todos são versos, são resplandecências. Vivo dias e noites escrevendo/e minuto por hora vou relendo/os versos que me traz a inspiração. Extingue-se o prazer se perco um verso/e sinto toda a dor deste universo/quando me falta a rima em perfeição.”
        Em “CONFLITO DE GERAÇÕES E OUTRAS PROVOCAÇÕES” uma série de artigos e crônicas publicadas em jornais e revistas ao longo de sua trajetória literária: “A história jamais resolverá o conflito entre a juventude e a velhice. Não é que a juventude seja inevitavelmente inimiga da velhice. O fato é que o ponteiro de equilíbrio entre as duas gerações tem estado em direção da juventude. Constituindo a maioria populacional, os jovens, como não poderia deixar de ser, brilham mais intensamente. Daí o uso de expressões, como “o mundo é dos jovens” e outras. Isto, porém, não dá o direito de negar à velhice grandes realizações em todos os tempos.” Do mesmo livro, o artigo sobre a IMPORTÂNCIA DA FILOSOFIA, “Não se pode negar a importância da Filosofia em qualquer faceta da vida humana. Embora o centro de gravidade dos interesses do homem esteja, modernamente, no campo da ciência e da tecnologia, exerce a Filosofia um atrativo impar e tem sua presença marcante no mundo moderno... A Filosofia tem um presente e terá um futuro como teve um passado de vinte e cinco séculos. Não tivesse ela a sua grandeza e a sua significação já teria sido abandonada pelo homem, como sói acontecer com tudo aquilo que é inútil ou que se torna desnecessário.”
        Considerado o maior Biobibliógrafo do Brasil, segundo LICINIO LEAL BARBOSA, advogado criminalista, professor titular da Universidade Católica de Goiás, manteve via Internet o DICIONÁRIO BIOBIBLIOGRÁFICO REGIONAL DO BRASIL com mais de 40 (quarenta) mil biografias, dentro de ENSAIOS, no site www.usinadeletras.com.br, além de publicar crônicas, artigos e discursos.
        É membro da Academia Goiana de Letras, do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás, da Associação Goiana de Imprensa, da União Brasileira de Escritores de Goiás, da Academia Anapolina de Filosofia, Ciências e Letras, de Anápolis e da Academia Goianiense de Letras.
        Em outros Estados, é membro da Academia de Letras do Estado do Rio de Janeiro, da Academia Evangélica de Letras do Brasil, da Academia de Letras Municipais do Brasil, em São Paulo, da Academia Tocantinense de Letras e da Academia Pernambucanas de Letras e Artes.
        Algumas opiniões sobre o autor: “Mário Ribeiro Martins foi lançado por este jornal com uma série de artigos sobre Gilberto Freyre e sua adolescência religiosa, sendo hoje um dos melhores articulistas deste e de outros órgãos da imprensa”. José dos Reis Pereira (Jornal Batista-Rio de Janeiro, 31.12.74). “Um simpático Dr. Mário Ribeiro Martins publicou há pouco um opúsculo – GILBERTO FREYRE, O EX-PROTESTANTE. Pena que não me tenha ouvido outras vezes. Eu lhe teria contado coisas talvez de interesse para o seu estudo”. Gilberto Freyre (Folha de São Paulo-SP, 29.03.81). “Quero cumprimentá-lo pelo seu livro “FILOSOFIA DA CIÊNCIA”, de excepcional qualidade, pela modernidade do texto, onde faz referência não somente às minhas obras, entre as quais, FILOSOFIA DO DIREITO, mas também ao Instituto Brasileiro de Filosofia que tive o prazer de fundar, em 1949, na capital paulista”. Miguel Reale, (in O Popular-Goiânia-23.10.79). “O presente trabalho – FILOSOFIA DA CIÊNCIA – publicado pela Editora Oriente, em Goiânia, de autoria do ilustre professor Mário Ribeiro Martins, não se restringe aos seus objetivos pedagógicos, mas busca, sobretudo, reafirmar a grandeza e a significação da investigação filosófica, através da qual o homem se descobre como ser no mundo, daí a razão por que se trata de um livro do mais alto valor, essencial à reflexão filosófica”. Benedicto Silva (Informativo da Fundação Getúlio Vargas - Rio de Janeiro – 10.06.81).
        “Pelo inestimável valor e magnitude de sua gigantesca obra, Mário Ribeiro Martins tem lugar garantido na honrosa galeria dos maiores escritores e homens de letras do Brasil”. Adrião Neto – Teresina, Piauí, 25.11.2004. “Prezado acadêmico Mário Martins, agradeço, sensibilizado, o obséquio de 2 (dois) exemplares (para a Academia e para mim), de seu belo DICIONÁRIO BIOBIBLIOGRÁFICO DE MEMBROS DA ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS, de fina sensibilidade e de importância histórica para as letras nacionais, retribuindo-lhe com o meu CEM SONETOS, publicado em 2006”. Ives Gandra da Silva Martins (Presidente da Academia Paulista de Letras, 07.12.2006).
          Seus trabalhos literários estão publicados em vários jornais e revistas, entre os quais, “Revista Nacional”, do Rio de Janeiro; “Correio do Ceará” de Fortaleza; “Diário da Manhã”, de Goiânia; “Jornal da Paraíba”, de Campina Grande; “O Progresso” de Dourados, MS; “Tribuna Piracicabana” de Piracicaba, SP; jornal “Manchester”, jornal “O Popular” de Goiânia, “Revista Brasília”, DF.
        Publicou artigos de crítica literária, em diferentes jornais, sobre uma infinidade de autores goianos e nacionais, entre os quais, José Mendonça Teles (O Anápolis-30.08.82); Modesto Gomes da Silva (O Anápolis-13.09.82); Gilberto Mendonça Teles (Correio do Planalto-31.1181); Bernardo Élis (Correio do Planalto-12.12.81); Jaime Câmara (Correio do Planalto-28.11.81); Paulo Nunes Batista (Correio do Planalto-29.05.81); Carlos Ribeiro Rocha (O Popular-10.07.77); Ursulino Leão (O Popular-13.11.77); Gilberto Freyre (O Popular-30.07.78, Correio do Planalto-série de 18 artigos, 5.07.80 a 13.09.80, Jornal do Commercio, Recife-04.10.72, Jornal Batista-RJ-16.07.72, Diário de Pernambuco-09.01.75.
        Outros artigos do autor na Internet, www.usinadeletras.com.br, sobre LICINIO BARBOSA E SEUS DEUSES E DEMÔNIOS, O GOVERNO DO TOCANTINS E A SEDE DA ACADEMIA, A INJUSTIÇA DOS CORREIOS COM AS BIBLIOTECAS, MIRORÓS (Bahia) – UM PROJETO INACABADO, RESTRIÇÕES À ENCICLOPÉDIA BARSA, VIAGEM PELOS RIOS TOCANTINS E ARAGUAIA, QUEM FOI JÚLIO PATERNOSTRO? O BRASIL ESTÁ VIRANDO UM PAÍS DE CORRUPTOS? A LEI BURLANDO A LEI, A SOJA COMO DESASTRE ECOLÓGICO, IOGA: RELIGIÃO OU TERAPIA? A CONSTRUÇÃO DO ROMANCE EM MOURA LIMA E OUTRAS FACETAS, ENCICLOPÉDIA LITERÁRIA E A ENTREVISTA DE JOÃO UBALDO RIBEIRO, UM BAIANO ILUSTRE (Milton Santos), CORONELISMO NO ANTIGO FUNDÃO DE BROTAS E DICIONÁRIO BIOBIBLIOGRÁFICO REGIONAL DO BRASIL DE A a Z.   
        Está vinculado à “Sociedade de Homens de Letras do Brasil”, no Rio de Janeiro, à “União Brasileira de Escritores do Amazonas” e à “Associação Goiana do Ministério Público”.
        É biografado por Luiz Vital Duarte no livro “RUY BARBOSA – SUA OBRA, SUA PERSONALIDADE”, 1984. Figura no livro de José Mendonça Teles “GENTE & LITERATURA”, como um dos nomes ligados à literatura goiana. É biografado também no “DICIONÁRIO DE ESCRITORES PIAUIENSES DE TODOS OS TEMPOS”, de Adrião Neto, no “DICIONÁRIO DE ESCRITORES DE BRASÍLIA”, de Napoleão Valadares e no livro “A POESIA GOIANA no Século XX”, de Assis Brasil. 
        É verbete na “ENCICLOPÉDIA DE LITERATURA BRASILEIRA”, de Afrânio Coutinho, edição do MEC-1990 e no “DICIONÁRIO LITERÁRIO BRASILEIRO”, de Raimundo Menezes. É referenciado no “DICIONÁRIO DE POETAS CONTEMPORÂNEOS”, de Francisco Igreja-1991. Citado no “DICIONÁRIO DA INTERNATIONAL WRITERS AND ARTISTS ASSOCIATION”, de Teresinha Pereira, USA-1994. Mencionado no livro “SOCIEDADE GOIANA”, de Artur Rezende e presente em várias Antologias de poesia e prosa, entre as quais, “VENTANIA”, de Gabriel Nascente, “PLURICANTO”, de Joanyr de Oliveira e “ANUÁRIO DE POETAS BRASILEIROS”, de Aparício Fernandes-RJ.
        Por tudo isso e muito mais, Mário Ribeiro Martins foi um dos nomes mais expressivos na Literatura Brasileira, em especial nos campos da Sociologia, Filosofia e História.
Faleceu a 18/03/2016 em Palmas, Tocantins, onde residia, tendo sido velado na sede da Ordem dos Advogados do Brasil, seção de Palmas e recebido homenagens da Academia Tocantinense de Letras, Academia Palmense de Letras e do Ministério Público do Tocantins. Seu corpo foi velado também no salão da Igreja Batista de Ipupiara, tendo sido sepultado no cemitério da cidade de Ipupiara, onde nasceu, com a presença de parentes, amigos e admiradores.

Deixou a mulher e duas filhas do primeiro casamento e quatro netos. No campo da Literatura deixou 36 obras publicadas. 

quarta-feira, 9 de março de 2016

Espartanos - Um conto sobre missionários


Espartanos

       Foi um e-mail de sua irmã, dando conta da tragédia.
      Éramos amigos da época do Exército, servimos juntos no extinto 3˚BI, em São Gonçalo.
      Após os dez meses regulamentares, dei baixa: planejava abrir o negócio que afinal nunca abri.
      Aritana (ele era um mulato com esse estranho nome de índio tupi) continuou na farda, engajou-se e chegou a 3˚ Sargento.
      Depois de sua baixa, foi homem de realizar nosso sonho: viajou para Aubagne, na França, e alistou-se na Legião Estrangeira.
      Ainda não contei porque Aritana, bem encaminhado no Exército Brasileiro, pediu sua baixa. Ele sempre sonhara ser um soldado na acepção veraz-voraz do termo: queria porque queria entrar em combate real, dizia mesmo que nascera para combater.
      Membro dos Comandos de Selva no Amazonas, aparentemente chegara onde queria: sabia das constantes e oficialmente abafadas incursões de membros das FARC colombianas território brasileiro adentro. Inimigos reais: Aritana precisava, e iria encontrá-los. Para isso fizera os testes e os extenuantes cursos para servir no Amazonas.
      Num estranho maio, chegou pela manhã a notícia, vinda via rádio de um informante duma tribo aruaque: dois barcos dos guerrilheiros desciam pelo rio Içá. O Comandante do Destacamento de Fronteira constituiu um Comando para ir de encontro ao grupo, mas excluíra Aritana da missão. A isso se seguiu uma discussão infrutífera, um frutífero soco no queixo do Comandante, um mês de cadeia e um pedido de baixa, para evitar a expulsão com desonra.

*  *  *

      Aritana chegou à Legião sonhando em combater. Onde fosse: operações da OTAN, Senegal, Chade, em Roma, Jerusalém ou no inferno.
      No último dia 14, ainda no campo de treinamento da Legião, em Castelnaudary, meu amigo espartano foi atingido acidentalmente pelo disparo de um fuzil bullpup FAMAS, arma regulamentar do Exército Francês. Tiro disparado por um recruta argelino.
      Morreu Aritana, o melhor soldado que vi, e de toda a galera do quartel, ou melhor, de todos os homens que conheci na vida, o melhor num combate corporal, sim, o melhor na porrada. Um gladiador nato, clássico. Um pedaço de aço, ou como eu disse, um espartano. Mas seus únicos combates na vida foram as lutas ferrenhas em busca de uma Luta, de um Sonho que sempre lhe fugiu; e nossas saudosas mas geopoliticamente irrelevantes brigas de bar.
      Mas por que relato sobre Aritana, por que sua história tem tirado meu sono nesses dias?
      Desde que me dediquei à obra de Deus, isso lá pelos idos de 1999, pouco antes de minha baixa, eu nutro o sonho de tornar-me também um diferente, um precioso e especializado tipo de soldado: um missionário. Percebi em algum momento que há uma e uma única causa por que combater, e qual é a verdadeira milícia e finalmente qual é a ponta de lança desta milícia. E tenho investido em cursos e livros, na consagração de minha vida, tarefas na igreja, do microfone à vassoura, da pá ao púlpito. E serviços comunitários em meus dias de folga, na intenção de adestrar meu espírito e meu corpo na arte de servir.
      E tenho encontrado a mesma resposta, as mesmas variações floreadas em que um ‘não’ alcança metamorfosear-se: “Nossa igreja não tem condições de enviar missionários”; “Você é louco? Vai morrer lá!”; “Mas e seu emprego, vai deixar um emprego tão bom para aventurar-se? Que desperdício, menino!”; “Ainda não é o tempo de Deus”; “Você não está capacitado”; “Ano que vem vamos entrar num propósito de oração, para Deus nos dar a direção sobre isso, irmão Sammis.”
      Tenho pensado sem parar em Aritana. Como ele, tenho há anos perseguido um sonho, tenho há anos visto ele ser-me negado, postergado, indeferido. O Universo não conspira contra mim, o Universo não conspira: tudo corre pela conta de Satanás, aliado à idiotice humana, esse outro obscuro deus, que por tanto e tantos responde.
      Não, eu não vou morrer sem ver o campo que o Senhor me direcionou. Não vou morrer aqui no solo cristão de um país cristão servindo principalmente a cristãos ou a uma maioria de renitentes já enfadados de ouvir a mensagem. Ainda que ela deva continuar a ser despejada a tempo e fora de tempo, como o bombardeio da luz do sol que não se esgota e jamais murmura, prefiro e vou bombardear solo virgem, extensões de trevas que nunca viram luz ou arado. Devo e vou morrer num lugar onde precisam de quem morra, onde desesperadamente anseiam por uma migalha da mesa do que aqui sobeja.
      Vendi minha casa. Moro sozinho e ainda não falei com minha família, mas isso é o de menos. O valor levantado permitirá que eu viva no campo por quase dois anos; com essa quantia em mãos a Agência Missionária resolveu aceitar-me. É uma Agência interdenominacional, sem condições de sustentar missionários. Apenas assessora, ajuda, pastoreia os pastores que envia. A quantia é muito mais do que muitos dos que partem dispõem, muito mais do que aquilo, entre realidades e as sempre muitas promessas, com que podem contar. E para além disso, não existe a fé? É hora de dar um salto kierkegaardiano, é tempo de experimentar essa arma, para além dos pacatos ensaios no simulador que a vida cristã aqui tem sido.
      Não, eu não vou morrer boicotado pelos generais, eu não vou morrer ferido num quartel, eu não vou morrer quando prestes a lançar-me; não vou morrer sem experimentar o verdadeiro combate. Parto ainda esta semana.
      Nosso velho sonho de guerra, Aritana. De alguma maneira vou realizá-lo.

Sammis Reachers



quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

AS OBRAS DE ARMÍNIO EM PORTUGUÊS



       Acabo de receber o esperado lançamento da CPAD, As obras de Armínio. Dividido em três volumes, a obra alcança mais de 1.500 páginas e é uma excelente oportunidade de conhecermos de primeira mão o pensamento do teólogo holandês Jacó Armínio (1560-1609), que ousou contestar o calvinismo, doutrina dominante na Europa, na época em que viveu.

       No primeiro volume (592p), há uma breve biografia do autor e a exposição de seu entendimento sobre doutrinas bíblicas clássicas, tais como: predestinação, providência divina, livre-arbítrio do homem, graça de Deus, perseverança dos santos, certeza da salvação, dentre outras. Suas opiniões sobre estes temas causaram grande controvérsia entre os calvinistas. No segundo tomo (464p), há a explanação sobre outros tópicos importantes da fé cristã, como por exemplo: perfeição das Escrituras, natureza de Deus, criação e ceia do Senhor. Finalmente, no último volume (487p), encontramos o debate escrito entre Armínio e o calvinista Francis Junius, professor da Universidade de Leiden, além de um exame sobre o tratado do puritano William Perkins sobre a predestinação.  


     Geralmente, os discípulos não repetem completamente os ensinamentos dos seus mestres. Eles os modificam por divergências pessoais, ou por fatores externos (políticos, sociais ou econômicos). Deste modo, muitos dizem que Calvino não é calvinista, assim como John Wesley, evangelista do séc. XVIII, não é wesleyano. Com a obra do teólogo holandês, lançada pela primeira vez no Brasil pela CPAD, poderemos, enfim, responder à pergunta: Armínio é arminiano? 

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Como defino a Humanidade sem Deus

Não é de hoje que a deterioração dos bons costumes e valores acontece

Por Eliseu Antonio Gomes


Posso estar enganando a mim mesmo, mas quero dizer que o problema da humanidade está na cabeça de cada geração nova que aparece neste planeta. A cada nova “safra”, os pais têm menos virtudes para oferecer aos seus filhos como exemplo bom. E esses filhos se tornam pais, e têm menos a dar à sua petizada; o petiz cresce, casa e o ciclo segue rumo ladeira abaixo.

Não é de hoje que a deterioração dos bons costumes e valores acontece. Lá pelos idos de 1930, a cultura norte-americana apresentava aos adolescentes de então, a personagem de desenhos animados, sempre de pernas de fora, voz e trejeitos insinuantes para o sexo fácil e sem compromisso, Beth Boop. E vieram mais frutas podres como modelos comportamentais: Marilyn Monroe; Madonna; Lady Gaga... 

E.A.G.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Do Conhecimento e do Conhecimento de Deus


"Wir müssen wissen. Wir werden wissen." (Nós precisamos saber, e nós iremos saber). Essa frase lapidar (literalmente: está inscrita em sua lápide, na pacata Göttingen), do matemático alemão David Hilbert, encontra um sutil paralelo no (para mim revelador e perturbador) versículo bíblico: "A glória de Deus é ocultar certas coisas; tentar descobri-las é a glória dos reis." (Provérbios 25:2). 
A própria Bíblia reconhece a sanha humana em busca do conhecimento; ainda que em outras passagens menospreze a sabedoria 'puramente' (pois seria isso possível?) humana, não deseja com isso negar a validade da busca por conhecimento e sabedoria, e mesmo como que valida e legaliza sua existência, como naquele que é (e uma vez mais esta é uma questão subjetiva, amigo leitor) para mim o mais significativo versículo bíblico, em relação aos meus anseios mais primevos, mais profundos de criança devoradora de enciclopédias: "Agora conheço em parte; então, conhecerei plenamente, da mesma forma como sou plenamente conhecido." (1 Coríntios 13:12). 
Há quem anseie Paz eterna; outros, a eterna comunhão com Deus, ou simplesmente (e, incluindo os santos e os hipócritas, isto engloba a maioria de nós), safar-se do Inferno. Mas que significado teria tal comunhão com Deus se eu não pudesse ADENTRAR o mistério-Deus, se eu não pudesse USUFRUÍ-LO como convém? Como não cobiçar o objeto-mór da sede de conhecimento de que fomos (por Deus ou pela Queda, ainda não pude discernir) feitos plenos - o graal e o líquido no graal e a Mão que sustenta a mão que empunha o graal, o de tudo a fonte, o lugar-pra-onde-retornar (pois após o Big Bang não há de vir o Big Crunch?): Deus Absconditus, o Deus que se esconde ("Verdadeiramente tu és um Deus que se esconde, ó Deus e Salvador de Israel". - Isaías 45:15). Cuja glória imarcescível nos atiça a violentamente buscá-lo.

Sammis Reachers