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quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Henri Nouwen e Philip Yancey: "Por sede de amor".


Minha única conversa longa com Henri Nouwen ocorreu logo depois de ele ter voltado de São Francisco, onde havia trabalhado por uma semana numa clínica para doentes de Aids. Naquela época, eu não sabia nada sobre as questões sexuais de Nouwen. Ele me contou o que vira no distrito de Castro. A palavra gay parecia totalmente fora de lugar naquele local, bem no apogeu da crise da Aids. Rapazes morriam todos os dias, e milhares andavam apavorados, sem saber se eram portadores do vírus. Mesmo nas lojas em que eram vendidas camisetas espalhafatosas e objetos que beiravam o obsceno, o medo pairava como um denso nevoeiro sobre as ruas. Não apenas o medo, disse ele, mas também o senti-mento de culpa, o ódio e a rejeição.
Na clínica, Nouwen ouvia histórias pessoais. "Sou um padre, este é meu trabalho. Ouço as histórias das pessoas. Elas se confessam a mim." Ele me contou de jovens banidos de suas próprias famílias, forçados a se prostituir nas ruas. Alguns deles tinham centenas de parceiros com quem haviam se encontrado em casas de banho, cujos nomes nunca souberam, sendo que, de um desses parceiros, eles haviam contraído o vírus que agora os estava matando. Nouwen olhou para mim com seus olhos penetrantes, brilhando de compaixão e dor. "Philip, aqueles rapazes estavam morrendo - literalmente - por causa de sua sede de amor." Ele prosseguiu, contando-me histórias individuais que ouvira ali. Todos os relatos tinham em comum a busca por um lugar seguro, por um relacionamento estável, por um lar, por aceitação, por amor incondicional, por perdão - a própria busca de Nouwen, percebi depois. 

Philip Yancey, no livro Alma Sobrevivente (Ed. Mundo Cristão).

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Mãos que ajudam ou lábios que oram?

 

por George Gonsalves

 
      Nesta manhã visualizei um adesivo em um carro que trazia uma frase atribuída a Madre Tereza de Calcutá:

 
       "As mãos que ajudam são mais sagradas que os lábios que rezam (oram)".
       A citação, embora bela, traz uma falsa dicotomia na perspectiva cristã. Coloca-nos diante de dois tipos: aquele que ora muito, inclusive realizando vigílias, mas que não se compadece dos desvalidos e necessitados; ou aquele que se dedica às causas sociais, privilegiando os pobres e discriminados, mas que são considerados espiritualmente apáticos.
      Na verdade, o evangelho traz ao coração do homem uma espiritualidade ampla, unindo amor fervoroso a Deus e ao próximo. O próprio Cristo reafirmou as palavras do Antigo Testamento: "Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento. Este é o grande e primeiro mandamento. O segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo" (Mt. 22:37-39).
      O homem espiritual não é aquele que se isola do mundo para "se perder em Deus", e nem aquele que, distante de Deus, se aproxima do próximo para fazer obras de caridade. John Wesley, pregador metodista do século XVIII, dividiu boas obras em: obras de piedade (culto, oração, jejum) e da misericórdia (alimentar os famintos, visitar os enfermos ou vestir os nus).
      Deste modo, podemos dizer que tanto as mãos que ajudam como os lábios que oram podem ser santificados pelo Senhor.