sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Crer com Facilidades


Não há ministros do Evangelho e teólogos cristãos evangélicos que se aventurem no universo romanesco e filosófico do escritor francês Alberto Camus, nascido na Argélia. Menos ainda aqueles que escrevam um livro evangélico cujo assunto seja o pensamento desse malogrado escritor, Nobel da Literatura em 1957, autor de vários romances-chave do pensamento europeu durante e após a Segunda Guerra Mundial, relacionando-o com a teologia.

Salvo melhor memória, conheço apenas duas publicações de um dos grandes pensadores cristãos evangélicos do século XX, Francis Schaeffer. Também no idioma de Camões, lemos dois autores, Alan Pallister e Ricardo Gondim , que se referem brevemente ao autor de O Mito de Sísifo (1). Até o autor destas linhas ousou aventurar-se com uma Conferência sobre Camus, tocando em Sartre, em 2006, no auditório da Aliança Evangélica Portuguesa, em Lisboa.(http://www.portalevangelico.pt/noticia.asp?id=2946)


ALBERTO CAMUS E O TEÓLOGO

Por isso, foi seriamente que tomei conhecimento da obra Alberto Camus e o Teólogo, lançada salvo erro em 2005 por uma editora do meio evangélico brasileiro.

O autor desse estudo é teólogo cristão e pastoreou a Igreja Americana de Paris na década de 50. O livro trata, sobretudo, do encontro de um autor cristão com Camus, o qual não foi um existencialista ateu. Ele criou, todavia, personagens e situações próprias do existencialismo, sendo escritor da solidariedade individual e colectiva entre os homens, mas de uma singularidade resignada a viver sem Deus.

Por este e outros motivos, o objectivo editorial nos meios evangélicos é abrir uma janela de oportunidade para a esperança, conforme Howard Mumma, autor do livro citado, afirma: “Sabemos que o mal existe. Estabelecemos esse facto além de qualquer dúvida. A pergunta importante é Existe alguma esperança?” Outro objectivo da editora é dar a “conhecer as inquietações e angústias existenciais da alma do homem contemporâneo, que se interroga sobre a possibilidade de crer.”


CRENÇAS COM FACILIDADES

Actualmente essa possibilidade de crer está de novo em causa, pela facilidade dos caminhos largos propostos. Sem dúvida que há crenças com facilidades.

A verdade é que a alma humana neste terceiro milénio avança por areias movediças do sincretismo religioso e espiritualista. Crer ou ser crente hoje tanto pode ter o sentido de aceitar a existência de Deus, religiosa e naturalmente, ou acreditar, irracionalmente, nas cartas de tarot, nos búzios, nos cristais, nas ditas “oportunidades” da astrologia, ou nas manipulações verbais acerca do futuro feitas cada dia em programas televisivos de entretenimento.

O retrato que o escritor Albert Camus faz do ser humano contemporâneo já ia neste sentido: tratava-se do homem face ao absurdo, do homem que, sem negar a eternidade, “nada fazia pelo eterno”  consoante asseverou num dos seus escritos.

Na realidade era o homem do existencialismo, segundo o qual a presunção da não existência de Deus obrigaria esse homem a criar os seus próprios valores. Tais valores seriam criados por uma moral sem esperança, por um homem incapaz de vontade própria, sem domínio dos acontecimentos: a peste poderia regressar um dia “para desgraça e ensinamento dos homens e acordaria os seus ratos e os mandaria morrer numa cidade feliz.”


ABSURDO E REVOLTA

Sem dúvida que por este e outros aspectos, a obra do escritor francês abre caminho a uma apreciação teológica, pelo menos estruturada sobre os dois pilares do pensamento do autor, os conceitos de absurdo e de revolta.

O absurdo é a irracionalidade do mundo, sobretudo quando retira Deus dos seus planos, colocando em causa a guarda dos valores com que o Senhor dotou o espírito do homem. Isto é o absurdo, o qual, como Camus escreveu, “não é um fantasma”, estando hoje bem patente aos nossos olhos, porque o absurdo continua a ser o confronto entre o apelo humano e o silêncio despropositado desse mundo que rejeita Deus.

A revolta, o dizer “não” ─ segundo o conceito do escrito ─ , para os cristãos sinceros está bem na linha da exortação do apóstolo Paulo aos romanos: “Não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis (...) a vontade de Deus” (Rm 12:2).


O ERRO DE CAMUS

A experiência de Camus quanto ao cristianismo, todavia, assentava sobre um erro histórico e evangélico, embora demonstrasse através do padre jesuíta Paneloux, personagem moral do romance A Peste, a defesa “ de um cristianismo exigente, igualmente distanciado da libertinagem moderna e do obscurantismo dos séculos passados.”

No seu desejo de justiça e de moral, o escritor escreve noutro lugar que a salvação do homem assenta num acto de injustiça, porque foi sacrificado um inocente. A salvação, para o A. Camus, estava na honra, no facto de o ser humano ter ou não honra perante as injustiças, o absurdo da vida e a morte.

“O cristianismo na sua essência e na sua paradoxal grandeza é uma doutrina da injustiça; ele está fundado sobre o sacrifício do inocente e da aceitação do seu sacrifício.” Nada mais evangélico o conteúdo desta afirmação, apesar da aspereza do seu tom que nos quer falar segundo os conceitos da justiça dos homens.

A verdade é que o nosso Salvador, o Senhor Jesus Cristo, “ morreu, uma única vez, pelos pecados, o justo pelos injustos, para conduzir-nos a Deus” (1Pe 3:18) ─ sendo esta uma das chaves preciosas para abrir a amplidão do conhecimento da inocência absoluta do filho de Deus.


CAMUS E A CRUZ

Alberto Camus esteve entre os Judeus e os Gregos, no que dizia respeito à cruz como instrumento da nossa redenção mediante a morte expiatória de Jesus Cristo. À vergonha e humilhação que a cruz traduzia no cristianismo, Camus preferia considerar a crucificação como uma situação ambiguamente trágica, que deveria ter conduzido Jesus à revolta e não à aceitação.

As origens da dificuldade religiosa ou da irreligiosidade de Camus advêm-lhe, em última análise, da sua religiosidade, desde as origens da religião. Com efeito, o escritor defendia o seu afastamento de Deus baseado no facto de não aceitar que o assassinato de Abel não houvesse sido impedido por Deus. Ora, sabemos pela Bíblia Sagrada não ser verdade que o Senhor se quedou quanto a este crime, e tão-pouco o deixou impune.

Este tipo de dificuldades não produz ateus, mas, sim, pessoas zangadas (sem razão) com Deus. Neste sentido, o afastamento da religião é visto no romance O Estrangeiro com uma certa ironia pelo autor, a propósito do funeral religioso da mãe do protagonista: “Embora sem ser ateia, enquanto viva a mãe nunca pensara na religião.”

Finalmente, não sendo A. Camus pessimista quanto ao homem, é-o no entanto no que concerne a Deus. Em 1945, quando estava a terminar a II Guerra Mundial, Camus escrevia no jornal Le Combat, fruto do seu pessimismo e da sua incredulidade: “Se consentimos passar sem Deus e sem esperança, não prescindimos do homem.”

Alberto Camus um homem com fé apenas no homem? Certamente, todavia a fé no homem só poderá produzir pessimismo. “Maldito o homem que confia no homem” ─ diz o Senhor no livro de Jeremias. Só a fé em Deus é optimista por natureza.

Por João Tomaz Parreira
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(1) Sabor a Sal e Artesãos de uma Nova História, respectivamente.

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