quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Referentes de religião entre os ateísmos de«O Estrangeiro»


«O Estrangeiro », de Alberto Camus, romance publicado em plena II Guerra Mundial ( Julho de 1942), é um livro tentador, lê-lo uma vez, implica um regresso à releitura. «Ler Camus » - dizia alguém- «é ficarmos com vontade de lhe apertarmos a mão.»
É um livro sobre a condição humana. O manuscrito do romance pretendia aparecer com um subtítulo: «O Estrangeiro, ou Um Homem Feliz ». A justiça, a indiferença, cada homem ser uma ilha na sociedade, as circunstâncias que fazem as tragédias, a desgraça do drama humano, a alegação de que a vida não vale a pena, a rejeição da transcendência, o assumir que Deus está ausente, seria contudo a sua trama. Há mesmo uma narração na primeira pessoa, lá para o final do livro, que impressiona «Eu estava agora completamente encostado à parede »- diz o protagonista.
O escritor Camus, resumira em 1955 o seu romance L,Étranger sob a constatação da angústia da personagem, que está perdida perante a vida, os concidadãos que não entende, o querer ser marginal a todos os rígidos sistemas, usando uma metáfora : «Na nossa sociedade, todo o homem que não chorar no enterro da mãe corre o risco de ser condenado à morte.»
Deste ponto de vista, é um livro que abre linhas de análise sobre a hipocrisia vigente desde sempre na sociedade humana. Das máscaras que um tem que usar para ser aceite na sociedade, contrariamente à singeleza da Verdade e das relações que Cristo ensinou baseadas no Sim,sim! Não, não!
É um livro que inquieta. Sobretudo porque somos levados a pensar nas formas que pode assumir a inumanidade do homem.
Ora, do ponto de vista cristão, designadamente do cristão evangélico, quanto mais livre o homem que ser de Deus menos humano é. Observando a inumanidade no homem, veremos que tem causas que residem no ateísmo, na rejeição de Deus e do domínio do Pecado. E incoerência das incoerências, considerar que existe o Pecado (a existência do mal, o sofrimento das crianças, etc.), sem a existência de Deus, é sem dúvida o absurdo.
É um livro, finalmente, que propõe a sólida realidade da indiferença diante do próprio destino humano, mesmo que se apresente O Estrangeiro como o romance que mostra a imagem da revolta individual de um homem.

MEURSAULT O INDIFERENTE
Uma indiferença perante a existência, a dos outros e a própria : « Hoje a mãe morreu.Ou talvez ontem, não sei bem »; «Disse que sim, mas que no fundo me era indiferente », uma vida que reage apenas ao momento hedónico, um vazio na alma, são, entre outras características, o que faz a personagem principal, Meursault, do romance camusiano. Neste a religião é tratada do mesmo modo, indiferentemente, tomando a justiça dos homens o seu lugar. Existem, no entanto, alguns referentes da religião entre o universo de O Estrangeiro no qual não há lugar para Deus, na armação psicológica do protagonista. Mesmo na narrativa minimalista com que o autor estruturou toda a narrativa, isso se percebe. De facto se Meursault fosse religioso, invocasse a existência de Deus, estivesse submetido ao Seu veredicto e disposto a aceitar Sua misericórdia, o livro não seria honesto, embora o romance seja também sobre a alma da personagem. Essa alma sobre a qual nos debruçamos e nada encontramos - como perorava no tribunal o procurador, dirigindo-se aos jurados, acerca do acusado Meursault, que «por causa do sol » tinha assassinado um árabe na praia.
«Dizia que, em boa verdade, eu não tinha alma e que nada de humano, nem um único dos princípios morais que existem no coração dos homens, me era acessível.»
Compreende-se assim que, durante todo o elemento tempo do romance, depois da prisão e de esperar pela execução da pena de morte que lhe foi aplicada, pelo tribunal de Argel, a personagem rejeite várias vezes a presença do capelão. «Não tenho nada a dizer-lhe ».
A negação de um confronto com o religioso, com a consciência de não ter a necessidade de respostas, mas a marcar a precisão de ficar em silêncio, de não ter palavras perante aquilo em que não acredita.
Antes do crime e prisão, os dias de Meursault corriam ao acaso e sob o sol até à ligação da noite, em que as luzes não deixavam de prolongar o «sabor» do verão, do sal e do vidro luminoso do céu sobre o mar. O hedonismo da personagem é em tudo isso mais do que evidente. Diante de tal, Deus é rejeitado porquanto protagonista e autor o querem ausente. O pensamento profundo de Camus e « a sua incurável dilaceração (de alma) », embora reconheça a ideia de Deus respeitável, afirma, noutro lugar: «Ele sente que Deus é necessário e que é preciso que exista. Mas ele sabe que Deus não existe nem pode existir.»
Para o protagonista do romance, a existência do divino era-lhe indiferente, para o romancista argelino, de expressão francesa, a existência ou não de Deus não era indiferente, fazia parte dos absurdos do mundo.

MEURSAULT PERANTE A RELIGIÃO
No próprio início de todo esse processo judicial até à invisível mas implícita guilhotina, a religião é invocada à personagem do romance, mas como derradeiro recurso ou confronto perante um culpado. As formas da religião, com que Meursault é confrontado pelo juiz de instrução, exibem um juiz e uma punição, mais do que um Salvador.
«Bruscamente levantou-se, dirigiu-se com grandes passadas para a extremidade da secretária e abriu uma gaveta. Tirou um crucifixo de prata e, agitando-o no ar, (...) com uma voz completamente diferente, quase trémula, gritou: «Conhece-O, conhece-O?. Respondi: «Sim, é claro que o conheço.» »
Em todo o caso, estava aberto o caminho para se poder falar de Deus e da capacidade divina de perdoar e de Jesus Cristo.
Esse método de «evangelizar» pertencia, contudo, à ordem das coisas, dentro do universo do juízo criminal e do presídio. Apresentava os julgadores como pessoas ética e moralmente capazes de exercer o papel divino na administração da justiça terrena.
«Disse-me então muito depressa e de um modo apaixonado que acreditava em Deus, que nenhum homem era suficientemente culpado para que Deus não lhe perdoasse, mas que para isso, era necessário que o homem, pelo seu arrependimento, se transformasse como que numa criança.»
Mas enquanto o juiz brandia o crucifixo diante dos olhos de Meursault, este ia dizer-lhe, se tivesse podido, «que não valia a pena obstinar-se ». Foi, porém, interrompido com a pergunta « se acreditava em Deus ». Respondeu que não.
Aqui desmorona-se a ponte que ligaria a referência sobre a necessidade de Deus à vida do homem, e deste homem na condição especial de criminoso, de pecador.
Embora o argumentário narrativo a partir deste ponto vá no sentido da rejeição do ateísmo. O juiz asseverou-lhe que «era impossível, que todos os homens acreditavam em Deus, mesmo os que não o queriam ver. A convicção dele era essa e, se um dia duvidasse, a vida deixaria de ter sentido.» O sentido da vida acaba por estar explícito na confissão do Cristianismo. É o instrutor do processo que o garante, ao voltar a exibir «a imagem de Cristo », no crucifixo, exclamando:
«Eu, sou cristão. Peço perdão pelos meus pecados a Este. Como podes não acreditar que Ele sofreu por ti? »
A atitude vital de Camus, as nuances entre o incrédulo e os cristãos que temperam as sombras do seu ateísmo começam neste ponto do seu romance. O que de resto não é novo, nem por acaso no autor. É célebre a Conferência do escritor no Convento dos Dominicanos, em 1948, com o revelador título O Não-Crente e os Cristãos .
No plano de quem não partilha das convicções dos cristãos, mas destes espera algo, é a tónica inicial dessa Exposição de Camus aos frades Dominicanos. Para o autor de O Estrangeiro, o Cristianismo não era «coisa fácil». Afirmou, entre outras
posições de honestidade, que «o cristão tem muitas obrigações, mas que não cabe precisamente a quem as enjeita lembrar a existência delas a quem já as reconheceu. Se alguém pode exigir alguma coisa do cristão é o próprio cristão.»
Contudo, o seu pensamento acerca dos cristãos e dos seus deveres é universalista.
«Não poderão deixar de se tratar de deveres que é necessário exigir de todos os homens hoje, sejam cristãos ou não sejam.» Não tendo podido, como disse nessa conferência, aceder à verdade cristã, não pode honestamente afirmar que a mesma é ilusória.
Por isso em O Estrangeiro sente-se a compreensão dos valores cristãos e simpatia para com os dogmas. O Sagrado na sua obra não admite sincretismos, mesmo para um autor-filósofo como Camus, o secularismo não o afasta do Eterno. Disse-o, de uma forma não romanesca, mas ensaística no seu O Mito de Sísifo : «Eu sei que uma pessoa pode viver neste século e crêr no eterno.»
Passados mais de sessenta anos da publicação de O Estrangeiro e dos restantes trabalhos literário-filosóficos, ainda hoje se promovem colóquios sobre o Sagrado na sua obra. Já se anuncia para 2007, o 7º Colóquio Internacional sobre o escritor, em Poitiers, sob o tema geral de Camus et le Sacré (Camus e o Sagrado).
De facto, na obra de Camus há uma base inteiramente racional e materialista, que no fundo aporta a esta assertiva: «Eu creio que dois e dois são quatro(...), e que quatro e quatro são oito.»
Todavia existe o outro lado. Existe indubitavelmente um ponto em que Camus concordou, exprimindo-o em O Homem Revoltado de um modo claro: «Ninguém pode desencorajar o apetite da divindade no coração do homem.»
Deus é necessário e faz falta que exista, é sem dúvida a síntese do «ateísmo» contraditório de Albert Camus. Mas o escritor afirma «saber» que Deus não existe nem pode existir, sendo esta a síntese do seu pessimismo racionalista, face ao absurdo do mundo.
Contudo, os aspectos fora da norma da religião, continuam a existir diante da personagem de O Estrangeiro. Quando este -o Meursault- parece dar sinais de ter baixado a sua guarda de ateu ou agnóstico, perante o juíz («Vês, vês!
Não é verdade que crês e que te vais confiar a Ele? »), é claro que, uma vez mais, disse que não. As tentativas de uma conversão mais exterior que na alma, pela persuassão prosélita, para que o peso da justiça humana tenha razão, não faz parte da teologia da Salvação. «C’est fini pour aujourd’hui, monsieur l’Antéchrist.»- acaba por concluir, cordial mas desanimado, o instructor do processo ( «Por hoje acabou, sr. Anti-Cristo »).
A personagem de Camus, em O Estrangeiro, é o anti-cristo, numa recorrência que faz jus às preferências do escritor pelo filósofo Nietzsche e às suas reflexões sobre este. Ainda assim não procurou ser o mentor ou o porta-voz de uma geração que vivia já no vazio deixado pela alegada « morte de Deus ». No que concerne ao Cristianismo, Albert Camus jamais lhe fechou as portas. Embora na sua estruturação do mesmo, o escritor tenha usado os materiais mais da história que da teologia. As próprias janelas que abriu, dirigem-se sobretudo para o sacrifício expiatório e cruento de Jesus Cristo.
Acerca do Salvador considera o «grande gesto heróico do seu sacrifício», e escreve em O Homem Revoltado que «Cristo veio resolver dois problemas principais, o mal e a morte, os quais são precisamente os problemas dos revoltados. A solução consistiu em os tomar a seu cargo.» E nesta afirmação mais do domínio da opinião (doxa), que do conhecimento (epistéme), Camus é reductor. Jesus Cristo resolveu, de facto, os problemas da morte e do mal, vencendo ambos na Cruz, mas sobretudo veio resolver a relação da criatura humana com o Pai Celestial. Veio para tornar os crentes filhos de Deus.
Camus teve sempre, na sua obra lírica ou raciocinante, um diferendo aberto com o mal na perspectiva de questionar se este era necessário à criação divina - se era assim, escreveu ele, «então a criação é inaceitável.» O que a Bíblia Sagrada e a teologia Cristã nos mostram é que Deus não criou o mal, obviamente.
Visto de outro ângulo, Camus vê o sacrifício de Jesus pela humanidade baseado num princípio de injustiça. «O cristianismo na sua essência e sua paradoxal grandeza é uma doutrina da injustiça, está fundado sobre o sacrifício do inocente e a aceitação desse sacrifício.»- escreve nos seus Cadernos. O sacrifício do Filho de Deus, como o próprio Deus, não podem ser submetidos ao julgamento moral do homem.
Ao contrário da sua personagem principal ( Meursault, no romance O Estrangeiro) Camus questiona Deus, coloca-O em julgamento, mas igualmente como ela escolhe viver sem a ajuda sobrenatural de Deus. Por isso, foi um escritor malogrado, sem futuro. Morreu aos 47 anos e a sua obra substituiu-o.

MEURSAULT E O ELEMENTO MATRIARCAL
Por fim, se a segunda parte do romance é a história de um processo em que tudo parecia ser verdade, do lado da acusação, e nada era verdade quanto ao retrato que se fazia da personagem acusada ( Voilà l’image de ce proces. Tout est vrai et rien n’est vrai. - exclamou o advogado de defesa: «Eis aqui a imagem deste processo. Tudo é verdade e nada é verdade.»), já a primeira parte sendo o desenrolar do quotidiano de um indiferente, é também o retrato de um homem no qual o elemento matriarcal acaba por se revelar do inconsciente religioso. Designadamente no que concerne ao respeito carinhoso pela sua progenitora.
Em outro romance, O Primeiro Homem, já publicado postumamente, o escritor traz ao nosso convívio cultural um aspecto tradicional das regiões do Norte de África, a tradição de que era intolerável um insulto à mãe.«O insulto à mãe e aos mortos constituíra desde sempre o mais grave nas costas do Mediterrâneo.»
Com efeito, eis um pormenor que pode parecer irrelevante, no início de O Estrangeiro, mas que confere ao leitor indícios de que, apesar de tudo, vai estar diante de alguma afectividade e alguma piedade demonstrativas de humanidade. Camus sublinha a sensibilidade filial, ao escolher cuidadosamente as expressões do seu protagonista, que se refere à sua mãe como maman : «Aujourd’hui, maman est morte ». É assim que começa o romance, originalmente. Meursault não é de todo a personagem fria e neutral, nem uma pedra nem um poço de insensibilidade. E só a centelha do divino que existe na criatura humana pode operar este milagre de perfuração da mais densa e poderosa pedra, de clarear a mais profunda e espessa sombra, mesmo que não se deseja ouvir falar de Deus, como era o seu caso, para poder ficar «tranquilo».
O elemento matriarcal, é sabido que em todas as sociedades é um referente religioso. Apesar de todas as aparências e critícas sociais, Meursault é o homem do Séc.XX, e sobretudo dos nossos dias neste novo século, o homem que ama a mãe, o pai, os progenitores, mas que afirma não ter tempo nem meios sociais no reduto do lar, leia-se família, para sustentar esse amor. Daí os lares para a terceira-idade, não poucas vezes meros depósitos como aquele em Marengo, onde estava a mãe de Meursault. - João Tomaz Parreira

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