O apóstolo Paulo afirmou como uma antítese que “ a loucura de Deus é mais sábia do
que os homens” (I Co 1:25).
Porventura
chocou contra o ensino dos pagãos cultos, designadamente em
retórica, e até contra os religiosos do judaismo do seu tempo.
Trata-se
da frase mais anti-religiosa que se possa dizer sobre Deus; no século
XX nem Jean-Paul Sartre se atreveria a dizê-la, não a disse de todo em obras como “A Náusea”
ou em “Huis Clos” ( de onde partiu a célebre frase “o inferno são os outros”).
Dir-se- ia hoje que tal afirmação seria contracultura, por conseguinte, marginal. Os homens não podiam alcançar Deus pela sabedoria deste mundo, mas pela loucura da pregação.
Pregação que é permanente na sua eficácia, nos seus efeitos eternos, tal como o seu
Objecto e Tema: a crucificação, “Cristo crucificado” é indestrutível, eficaz e de efeitos
perpétuos.
A Razão dos gregos
Mas os gregos tinham razão, ainda que indirectamente.
Platão andou perto, só que falava em Mito e Mimêsis, coisas fora de qualquer norma ou cânone, coisas da Poética; embora tenha escrito nas Apologias em nome de Sócrates que não faria discursos “enfeitados de locuções e de termos escolhidos”.
A pregação era loucura, porque os olhos dos cultores da sabedoria humana cuidavam ver nela um absurdo. Um deus crucificado não entrava nem na retórica grega nem nos seus estudos filosóficos, muito menos na idealização do que “deveria” ser um deus.
A palavra da sabedoria divina, na sintaxe da linguagem humana, ultrapassava a loucura. A palavra da sabedoria louca era o Evangelho.
O
apóstolo Paulo sabia que a “palavra da cruz é loucura”, se
aqueles que perecem
apenas
a quiserem ouvir como sabedoria dos homens. E esta reverte-se e
adjectiva-se, na acepção escrita do apóstolo, como louca (“Não tornou Deus louca a sabedoria deste
mundo?”- I Co 1, 20 )
me e tomo emprestado, que “a loucura de Deus junta o inconciliável, afirma o
contraditório e traz precisão matemática ao ilógico “.
A questão de Paulo com a linguagem
Paulo reflecte essa preocupação ao dirigir-se à sociedade judaica e grega (At 18,4), em
primeiro lugar, e depois aos crentes da igreja em Corinto.
Não
usaria a linguagem dos retóricos, que nesta se apresentavam a si
próprios, os
Cíceros e os Sénecas; a
linguagem de Paulo apresentava Cristo. No contexto do que escreveu, relembrando aos crentes coríntios a sua posição perante o Evangelho de Deus,
Paulo era um arauto de Outro. “Mas nós pregamos a Cristo crucificado” - escreveu ( I Co
1:23 )
Se
o que pensamos nos pode moldar, a linguagem que Paulo usava como
arauto de
Jesus Cristo estava plena
do Filho de Deus.
Mas
a sua pregação parecia contraditória aos olhos dos religiosos,
porque o seu conteúdo parecia ser de um drama, falava de um Cristo
crucificado e , assim aos olhos humanos, talhado para o
desaparecimento, para a tragédia sem retorno, a morte. E aqui estava
o que parecia
Loucura.
Uma
outra linguagem teve o Apóstolo dos Gentios que nos permite
identificar a diferença de Saulo para Paulo. A fala de Saulo então
não dissimularia ódio, a sua fala verbal não escondia a visão que
tinha do fariseísmo. O historiador sagrado Lucas narra que “Saulo
respirando ainda ameaças e morte contra os discípulos do Senhor,
dirigiu-se ao sumo-sacerdote e pediu cartas para as sinagogas de
Damasco”. Saulo
assolava a igreja, entrava pelas casas, arrestava teres e haveres,
prendia homens e mulheres suspeitos de pertencerem à seita do
Nazareno.
Deveria
deter poder suficiente e influência decisiva no movimento de
perseguição aos
crentes em Cristo,
porquanto lemos acerca do gesto de depositarem aos seus pés as vestes do proto-mártir cristão Estevão.
Não lemos nenhuma fala de Saulo neste período de actividade persecutória que Lucas
narra. O que nos é dado pelo evangelista é algo como uma “actividade contada”, de que
se desconhece a fala do personagem, o que na circunstâcia Saulo disse. “E também
Saulo consentiu na morte de Estevão” ( 8,1).
No
silêncio, porém, podemos imaginar ouvir uma voz de ódio , de
intolerância com
certeza juntando zelo
religioso e honestidade intelectual, mas ódio e intransigência
contra os seguidores do Caminho. Saulo respirava ainda ameaças e mortes contra os discípulos
do Senhor ( 9,1)- escreve Lucas.
As
falas do jovem fariseu Saulo estão nas entrelinhas da diegese dos
Actos os Apóstolos, ao referirem que Saulo pediu cartas para ir a
Damasco.
A linguagem de Saulo, para entendermos a mudança, a crise de que foi
protagonista, começa no cap. 9 e com a frase – que ouvimos bem, na
estrada de Damasco - “
Quem és Senhor?”
Esta
pergunta agónica dá início a um novo discurso daquele que seria
Apóstolo Paulo,
um discurso em que toda a
linguagem estruturante passará a ser a do Amor divino.
Paulo,
como um novo Jacob que não consegue lutar e cai por terra,
aparece-nos desde a rua chamada Direita e traz uma linguagem nova
para a expressão da fé. Cristo crucificado, a grande loucura serena
e sábia.
©
João
Tomaz Parreira
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