sexta-feira, 21 de agosto de 2009

0 Fim da História, o início dos Institutos Bíblicos

Por João Tomaz Parreira
Desde 1989, fala-se muito do fim da história. Desde que Francis Fukuyama pegou, política e sociologicamente, nos pedaços de cimento e ferros do Muro de Berlim. Já se disse também que a história não merece confiança absoluta, porque quem a escreve são apenas homens.
É nesta perspectiva que me coloco, entre a história dos princípios das Assembleias de Deus, sobretudo no Brasil, o fim dessa mesma história com o surgimento das ditas igrejas neo-pentecostais, e, passe a redundância, a instituição dos Institutos Bíblicos, nem sempre bem aceites pelo pensamento de alguns intervenientes dessa mesma história.

O fim da história
No plano bíblico, a história é uma relação de equilíbrio entre as acções dos homens e o senhorio de Deus sobre essa mesma história. Quando no prosseguimento das acções humanas a história trai os desejos de Bem de Deus no que respeita às Suas criaturas, dá-se a catástrofe. «Porque eu bem sei os pensamentos que penso de vós, diz o Senhor; pensamentos de paz e não de mal.» (Jer 29,11)
No que concerne ao Novo Testamento, o fim da história é descrito na fórmula vitoriosa da asserção paulina, aos coríntios, com a aniquilação da morte como o último inimigo, o fim da mortalidade. Alguém abriu um número da revista Últimato e escreveu que o fim da história terá chegado quando todos os impérios cairem e a arrogância humana ruir para dar lugar ao Reino dos Céus.
Sobre todos, na superioridade absoluta da sua Autoridade, Jesus Cristo afirmou «os céus e a terra passarão, mas as minhas palavras não hão-de passar».
Mas a preservação dessas palavras como Palavra revelacional, a Palavra de Deus, ainda tem que continuar a ser ensinada. E para isso existem os Institutos Bíblicos.

Institutos Bíblicos
O ensino das Escrituras não é uma orignalidade cristã. A formalidade do ensino persegue, no bom sentido, a Igreja desde a instituição da Sinagoga (do gre. synago, reunir-se), do período exílico dos judeus. Já se viu aqui a circunstância do início da instituição, em Ezequiel(14,1), o ensino pela via do confronto com as inquidades idolátricas e da exortação.
Mesmo no exílio, Deus garantiu que seria para Israel um santuário (Ez 11,16), por extensão teológica e linguística, uma sinagoga para o ensino na perda do Templo. Jesus Cristo ensinou em sinagogas (Mc 6,2), os apóstolos propagaram a Fé cristã a partir de sinagogas. Já foi referido, porventura através de lenda, que existiam mais de 400 sinagogas só em Jerusalém, quando esta foi destruída no ano 70 aD.
Na era moderna e contemporânea, a bela sinagoga da cidade velha de Praga (a Staronová) ainda exibe essa particularidade de o edifício ter sido lugar social e de ensino, para a preservação da Torah. Olhando-a, ainda hoje, vemos nela a porta e as janelas góticas do Céu contra o portão da morte em Auschwitz.
Mas transcorridos os séculos e para arredondar ideias, chegar-se-ia ao ano 1886, no que concerne ao espaço para ensinar as Escrituras Sagradas. O grande evangelista Moody lançaria os alicerces para as modernas escolas bíblicas. Era o Bible Work Institute of Chicago Evangelization Society, um nome comprido que viria a ficar célebre apenas como Moody Bible Institute. O tamanho telegráfico do nome era inversamente proporcional ao seu alcance universal. Moody achava que uma educação centrada na Bíblia produziria um exército de pessoas capazes para a obra da evangelização.
Em 1900 sabia-se e já se dizia que o pentecostalismo moderno tinha nascido dentro de uma escola bíblica, o Instituto Bíblico Betel, de Charles Fox Parham.
Essa escola pretendia aprofundar o estudo da Palavra de Deus sobre o Baptismo com o Espírito Santo.
Diante destes dados históricos, entendamo-nos acerca das reacções fundamentalistas da década de 20, que não eram favoráveis aos institutos bíblicos, aos seminários evangélicos.

Reacções do Fundamentalismo
O problema aparente parecia ser a erudição. Há autores evangélicos que referem o compromisso deste ramo do cristianismo histórico com o afastamento da cultura. Embora já tenha sido escrito que o «legado fundamentalista não seja totalmente culpado da f alta de comprometimento com a actividade intelectual » dos evangélicos.
Outras causas houve e que não estão longe da análise sociológica e de uma incompreensível manutenção das comunidades abaixo do nível das classe trabalhadora, pequeno-burguesa e média. Numa frase que tudo tipificava: cultura é pecado.
Muitos líderes com responsabilidades devem ter ignorado as palavras do apóstolo Paulo, num pedido ingente a Timóteo: « traze a capa...e os livros, principalmente os pergaminhos.» (II Tim,4,13)
A História da Assembleia de Deus no Brasil, da autoria de Emilio Conde, trata concisamente essa historiografia em pormenores que nos colocam quase cem anos atrás, na década de 20 do século passado. Compreendia o historiador, expressando o pensamento dos principais pastores e missionários pioneiros das AD que o «municiamento de obreiros» teria como base as Escolas Bíblicas. Lemos «por sua posição de primeira igreja, centro de atividades evangelísticas, a Assembleia de Deus em Belém tinha também a responsabilidade de preparar obreiros vocacionados». Considerada essa necessidade a igreja em Belém organizou e realizou a primeira Escola Bíblica Pentecostal. Os estudos que decorreram de 4 de Março a 4 de Abril de 1922 foram dirigidos pelo missionário Samuel Nystrom.
Uma Escola Bíblica não visa apenas o ensino, constitui-se sobretudo como uma linha de defesa. É uma fortaleza contra os erros, venham eles do ateísmo ou do cristianismo. Alguém já escreveu que «o cristianismo e a crença em Deus são intelectualmente defensáveis como já demonstraram muitos autores ao longo da história», e davam-se como exemplo alguns nomes, designadamente dos contemporâneos do século XX: C.S.Lewis, Francis Schaeffer ou o holandês Cornelius Van Til, também num âmbito teológico mais alargado à cultura secular, Richard Niebuhr.
Argumentos contrários vêm, às vezes, de onde menos os esperamos, se partirmos do legítimo pressuposto de que é tendêncial o Protestantismo ser também Cultura.

A surpresa
A surpresa veio pelas linhas da história. A saga dos evangélicos na construção de Brasília.
Como nasceu a vida religiosa em Brasília, a partir de 1956, cabendo uma boa parte à Assembleia de Deus, é o que o livro «Os Escolhidos» (*), do jornalista Jason Tércio, nos propõe ver.
A obra foi-me oferecida pelo velho amigo poeta Joanyr de Oliveira, um dos «construtores» dessa realidade brasiliense, no que concerne aos evangélicos assembleianos.
É uma história interessante, com uma dialética profunda entre a natureza agreste e as mulheres e homens de Deus que chegaram ao Planalto, construída sobre diálogos e descrições, recortes de jornal e intervenções públicas na praça, sentem-se os sorrisos e as afabilidades dos cristãos evangélicos em seus primordiais contactos. Sobretudo com a seriedade de colocar nomes sob fotografias, por assim dizer.
Mais adiante na leitura, a surpresa. A páginas 226, narra-se o debate sobre a utilidade ou não dos meios de ensino, como educação teológica formal, instituto bíblico, «fábricas de pastores», etc.
Nessa data, nos anos 50, o jornal Mensageiro da Paz estava proíbido de usar a expressão «instituto bíblico», quem promovia esta ordem era o próprio director, o renomado escritor Emílio Conde; os aliados do ensino teológico tinham à cabeça o prof. João Pereira de Andrade e Silva e o poeta Joanyr de Oliveira. Os argumentos da parte contrária, eram vários e discutíveis: «Jesus vem breve, não há tempo nem urgência de estudar», «muita cultura deixa o crente vaidoso», «o povo de Deus deve ser humilde, pobre e distante dos livros, como os apóstolos de Cristo».
Era um debate impensável, à luz do século XXI, felizmente para o Brasil e Portugal – em língua portuguesa- que as últimas quatro décadas do século passado, deram razão à necessidade dos Institutos Bíblicos.
De tal modo que em S.Paulo e no Rio surgiram dois: o das Assembleias de Deus(IBAD) e o Pentecostal, este dirigido pelo missionário Lawrence Olson.
Em Portugal, sem o debate do Brasil em torno de argumentos pobres, ou pretensamente espirituais, apareceu o primeiro Instituto Bíblico das Assembleias de Deus, na Av. Almirante Reis, em Lisboa, mantendo-se desde sempre o bom hábito das Escolas Bíblicas Anuais.

(*) – Coronário Editora Gráfica, 1997, com o apoio da Secretaria de Cultura do Distrito Federal

2 comentários:

Sergio H S Christino disse...

A Paz do Senhor, abençoado seu blog e estamos levando e seguindo o mesmo para glória de Jesus

Daladier Lima disse...

Infelizmente, hoje os seminários formam (sem querer generalizar) pessoas alheias ao trabalho duro das congregações. Os catedráticos ficam apenas a teorizar sobre o "peso do vento", enquanto a igreja e as almas seguem famintas. Estudar é ótimo, mas é preciso colocar o que aprendemos em prática.