sexta-feira, 25 de julho de 2008

Abro o coração da minha alma

Nunca fui um homem de alegrias excessivas. Com algum sentido de humor, sim. Ironia quanto baste, como a do profeta Elias, na mesma linha que seguiu da ironia alimentada pelo conhecimento sobre as religiões e os rituais que caminham pelo absurdo.

Mas foi preciso chegar aos 60 anos para ser triste. Tristeza existencial, uma contradição nos seus termos na doutrina da soteriologia, parte da Teologia que trata a doutrina da salvação do homem por Jesus Cristo? Não necessariamente. A alegria que a salvação proporciona ao crente é interior, inunda os rios interiores na divisão da alma e do espírito. Os pensamentos e os propósitos do coração de um crente estruturam-se na alegria de ser salvo. Sem dúvida. Delícia, júbilo, prazer, palavras sinónimas para alegria na Bíblia.

Uma das ligações semânticas mais belas que encontro nas Escrituras Sagradas, é da autoria de Paulo, e liga o exercício da misericórdia com a alegria, isto é, o exercer compaixão, perdão, piedade e caridade. Está na Carta aos Romanos(12,8). Nada mais dramático do que «perdoar» com uma fácies de tristeza estampada, como uma desumana divindade grega.
Mas a aplicação abrangente e mais definitiva do vocábulo alegria como parte estruturante do Reino de Deus, é também o mesmo apóstolo, na mesma epístola (14,17), que discorre sobre ela.
Curioso é que na língua grega Hilarotés, também esteja a significação para a vontade súbita de rir. Assim como no termo chara se encontre o sentido de calmo deleite, ao mesmo tempo que alegria pela prática do bem, e desde os gregos que este estado tocava o espírito, a alma e o corpo.

Mas como rir perante o teatro do mundo? Como rir diante dos sincretismos, dos relativismos, de hoje? Como rir quando se perde um amigo, quando vamos às margens da morte despedir um amigo?

A minha tristeza radica no intelecto, nada de pretensioso, diga-se. É uma tristeza que parte da observação da existência, como parte da avaliação da realidade. Não é apenas por puro discurso teológico que a Bíblia assevera que a «alegria do Senhor é a vossa força».

Esta base estruturada para a alegria do povo de Deus, no tempo de Neemias (8,10), pelo seu reencontro com a Palavra de Deus e com o Senhor mesmo, indicava os mais comuns gestos como comer e beber e as mais nobres atitudes como repartir pelos que possuíam menos ou nada tinham. Não era dia para lamentações, prantos e choros, mas sim para o exercício da alegria, a alegria por Deus estar também alegre com seu povo arrependido.

Mas postado diante do mundo, hoje, sou triste.
Triste como Charles Dickens ante a realidade que estampou no seu livro Tempos Difíceis/Hard Times, em que as crianças e os trabalhadores explorados eram as vítimas; triste como Ezra Pound, o poeta dos Cantos, diante da Usura; triste como o Álvaro de Campos, heterónimo de Pessoa, ao ver o mundo com o pessimismo do grande poema A Tabacaria, como se tivesse razão e, infelizmente, teve-a. Tudo do domínio da Literatura, dirão. Mas quem poderá ter a veleidade de se afirmar triste, com aquela tristeza que só é divina, de Jesus perante a cidade de Jerusalém? - J.T.Parreira

Um comentário:

SOBERBA disse...
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