sexta-feira, 9 de maio de 2008

Sobre o Medo – Henri Nouwen

Se existe algo que me deixou admirado ao viajar pelos Estados Unidos para falar e ensinar é que somos um povo assustado (Nouwen estava em seu ‘período americano’). Tememos necessidades físicas ou o desconforto. Tememos por nossa segurança e por nossos empregos. No plano das relações internacionais, os países ricos constroem muralhas de proteção ao redor de suas riquezas para que nenhum estrangeiro as roube. Numa grande ironia, porém, tornamo-nos prisioneiros de nossos próprios medos. Quem é capaz de nos amedrontar exerce poder sobre nós.

Quando vivi, há alguns anos, entre os pobres da América Latina, encontrei um povo vivendo de modo diferente. Eles tinham aprendido que o medo não precisava ser dominante. Diante da tortura, da opressão e da pobreza, havia gente vivendo com gratidão e em paz. Encontrei menos medo ali do que nos países ricos, onde muitos possuem tanto. E foi aí que, de repente, percebi outro aspecto da opressão — não aquela que impera sobre pobres e humilhados, mas a opressão paradoxal que impera sobre os que detêm o poder.

No lado oposto da pobreza das nações do Sul estão o medo, a culpa e a solidão do Hemisfério Norte. O sofrimento de países opulentos como os Estados Unidos vem como conseqüência oculta da negligência para com os menos afortunados. É o sofrimento que acompanha a nossa injusta extravagância.


Henri Nouwen, em ‘Transforma meu pranto em dança’, lançado no Brasil pela editora Textus e mais recente pela Thomas Nelson Brasil.

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Grandes Pensadores!

"O diabo pode nos tentar, a carne pode nos tentar, o mundo pode nos tentar, mas somos nós mesmos que pecamos."
(Geikie & Cowper )

"Somos capazes de cometer todos os pecados que observamos em nosso vizinho, a menos que a graça divina nos contenha."

(Agostinho )


"Deus pôs a igreja no mundo, e Satanás não tem feito outra coisa, senão colocar o mundo na igreja."

(Gulier)


"Sede homens e mulheres do mundo, mas não sejais homens ou mulheres mundanos."
(J. Escriva de Balaguer)

Um relato literário- o sacrifício de Isaque

36.Um relato literário no sacrifício de Isaque

O poeta e jornalista português João Tomaz Parreira escreve sobre as narrativas bíblicas. Vale conferir.

in Literatura e Arte-Cronópios

O Dono do Céu

O dono do céu
Aqui, pelo poeta Brissos Lino

segunda-feira, 5 de maio de 2008

A grandeza do homem


A grandeza do homem é tão visível que se tira mesmo de sua miséria. Pois ao que é natureza nos animais nós chamamos miséria no homem; por onde reconhecemos que, como a natureza é hoje semelhante à dos animais, ele caiu de uma natureza melhor, que lhe era própria outrora.

Pois quem se acha infeliz por não ser rei senão um rei destronado? Haveria quem achasse Paulo Emílio infeliz por não ser mais cônsul? Não, ao contrário, todos julgavam-no mais infeliz por tê-lo sido, pois sua condição não era a de sê-lo sempre. Mas havia quem achasse Perseu tão infeliz por não ser rei, dado que sua condição era a de o ser sempre, que julgavam estranho o fato de ele suportar a vida. Quem se julga infeliz por ter apenas uma boca? E quem não se achará infeliz por só ter um olho? Talvez nunca alguém se haja lembrado de afligir-se por não ter três olhos; mas ninguém se consola com não ter nenhum.

Pascal, in Pensamentos

Aparição

Aparição ler a notícia aqui

Depois de 147 anos, uma mulher no L'Osservatore Romano.

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Estudo revela: maior renda aumenta chances de aborto

O relatório Aborto e Saúde Pública aponta que quanto maior a renda e a escolaridade, maiores as chances de a primeira gravidez resultar em aborto entre mulheres de 18 a 24 anos. O estudo reuniu resultados de mais de duas mil pesquisas sobre o tema realizadas no Brasil nos últimos 20 anos.

Segundo a antropóloga Débora Diniz, uma das coordenadoras do relatório, dados obtidos a partir da pesquisa Gravidez na Adolescência, feita em Porto Alegre, Salvador e Rio de Janeiro com financiamento da Fundação Ford, em 2003, mostram que a opção pelo aborto não tem relação direta com a pobreza.

"Não há correlação imediata de que a pobreza é o que leva à decisão pelo aborto. São decisões sobre planejamento reprodutivo, concepções de família, concepções de vida, de inserção no mundo do trabalho, que levam as mulheres a essa tomada de decisão", avaliou.

Para Diniz, a pesquisa que abordou fatores associados ao aborto como desfecho da primeira gestação é uma das mais importantes do cenário brasileiro sobre o tema, tanto pelos resultados apresentados quanto pela metodologia utilizada que contemplou consultas domiciliares.

Segundo ela, embora o foco geral do estudo tenha sido a adolescência, os resultados se aplicam às mulheres de uma maneira geral, já que incluem a faixa etária até 24 anos.

Fonte: Blog Holofote
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N. E. - Assim, cai por terra o discurso (defendido por muitos 'entendidos') de que a opção pelo aborto tem relação direta com a pobreza.

quinta-feira, 1 de maio de 2008

quarta-feira, 30 de abril de 2008

Qual é a paz do pentecostalismo assembleiano brasileiro?

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Imagem: Landejur / Templo da Assembléia de Deus - em João Monlevade Minas Gerais.

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Sou da seguinte opinião sobre os livros: é importante que eles existam, porém, muito mais importante é que seus leitores possuam discernimento espiritual ao lê-los.
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Para haver discernimento é necessário conhecer a Palavra de Deus. O grande problema é que a maior parte dos consumidores de livros jamais leram a Bíblia Sagrada por inteira. E assim, ficam reféns das interpretações desses autores sobre ela.
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Por exemplo, na Bíblia Sagrada o termo paz, no grego usado no Novo Testamento é “eirene”; e no hebraico, Antigo Testamento, é “shalom”.
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Os assembleianos são conhecidos pela saudação: “a paz do Senhor, irmão”!
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Desculpe-me se assustar você nos próximos parágrafos...
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Quero dizer que são poucos os cristãos assembleianos que sabem que, biblicamente, a paz que desejam ao próximo em suas saudações significa PROSPERIDADE FINANCEIRA e espiritual, SAÚDE FÍSICA e espiritual. Portanto, ter shalom / eirene / paz com o Senhor significa ter o completo bem-estar, significa ter tranquilidade em todos os sentidos porque a paz do Senhor é paz completa, ela envolve o espírito, a alma e inclusive o corpo em que vivemos agora!
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O que quero dizer com isso? Quero dizer que, infelizmente, a grande parte dos assembleianos que combatem alguns pontos doutrinários do neopentecostalismo (Igreja Universal do Reino de Deus e Igreja Internacional da Graça de Deus, etc) estão reféns das doutrinas de dois ou três autores de livros do movimento pentecostal clássico e de alguns articulistas das revistas das escolas bíblicas dominicais assembleianas. A grande maioria dos pentecostais não estão tão aprofundados nas Escrituras Sagradas como pensam e deveriam estar.
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Terminando, esclareço que apesar de haver nascido em berço pentecostal sinto liberdade para criticar. Não estou defendendo o movimento neopentecostal, porém, sou imparcial, e não entendo como errado apontar as falhas do pentecostalismo assembleiano brasileiro.
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A grande falha da doutrina neopentecostal (IURD e IIGD) é enfatisar muito o materialismo; a falha pentecostal (Assembléia de Deus) é exagerar no espiritualismo. O correto é ser moderado: Deus fez o homem como espírito, alma e corpo, e devemos servir a Ele nesta triplicidade que somos.
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Tenho minha biblioteca, com diversos livros evangélicos que reputo como importantes, mas priorizo a leitura bíblica devocional, e a considero imprescindível para determinar o que eu penso e o que devo ser.
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Abraço fraternal, na paz do Senhor!
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E.A.G.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Vôo das águias

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Procurando águias

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Águias produzem resultados e aproveitam as oportunidades;
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Águias influenciam as opiniões e ações à sua volta;
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Águias agregam valor a você e à organização;
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Águias atraem outras águias;
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Águias preparam outras águias para liderar;
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Águias cumprem suas metas e compromissos.

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[Autor desconhecido / Texto extraído da revista Igreja]

sábado, 26 de abril de 2008

o Salmo

O Senhor é o meu pastor: poucas coisas
me são necessárias

Ele tem a cartografia dos bons pastos
conhece até das águas tranquilas
o seu cantar nocturno
mesmo o cântico de inverno
impetuoso dos ribeiros

Conforta o centro da minha alma
onde não há carne
nem a palavra vem

O vale das sombras estremece
a cada passo dos meus ossos
e ali a morte é inútil
como uma nuvem.

Poema de J.T.Parreira

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Uma Igreja com dúvidas, esperou o Papa nos E.U.

In U.S., an Uncertain Church Awaits the Pope

BlockquoteWhen the pope arrives in the United States, he will find that many Catholics are looking for his acknowledgment that their church is going through a time of pain.


Quando o papa chegou aos Estados Unidos, iria encontrar muitos católicos com dúvidas, uma Igreja que esperava do papa um reconhecimento: que a ICAR americana atravessa momentos de dor e de incerteza. E por que não com suspeitas de Identidade?

in Papéis na Gaveta

Entrevista com C. S. Lewis


Respostas dadas por Lewis a questões formuladas por empregados da Electric and Musical Industries Ltd., Heyes, Middlesex, Inglaterra, em 18 de abril de 1944

Pergunta: Qual das religiões do mundo confere a seus seguidores maior felicidade?

Lewis: Qual das religiões do mundo confere a seus seguidores maior felicidade? Enquanto dura, a religião da auto-adoração é a melhor. Tenho um velho conhecido já com seus 80 anos de idade, que vive uma vida de inquebrantável egoísmo e auto-adoração e é, mais ou menos, lamento dizer, um dos homens mais felizes que conheço. Do ponto de vista moral, é muito difícil. Eu não estou abordando o assunto segundo esse ponto de vista. Como vocês talvez saibam, não fui sempre cristão. Não me tornei religioso em busca da felicidade. Eu sempre soube que uma garrafa de vinho do Porto me daria isso. Se você quiser uma religião que te faça feliz, eu não recomendo o cristianismo. Tenho certeza que deve haver algum produto americano no mercado que lhe será de maior utilidade, mas não tenho como lhe ajudar nisso.

Pergunta: Os materialistas e alguns astrônomos sugerem que o sistema solar e a vida como a conhecemos foram criados por uma colisão estelar acidental. Qual é a visão cristã dessa teoria?

Lewis: Se o sistema solar foi criado por uma colisão estelar acidental, então o aparecimento da vida orgânica neste planeta foi também um acidente, e toda a evolução do Homem foi um acidente também. Se é assim, então todos nossos pensamentos atuais são meros acidentes – o subproduto acidental de um movimento de átomos. E isso é verdade para os pensamentos dos materialistas e astrônomos, como para todos nós. Mas se os pensamentos deles – isto é, do Materialismo e da Astronomia – são meros subprodutos acidentais, por que devemos considerá-los verdadeiros? Não vejo razão para acreditarmos que um acidente deva ser capaz de me proporcionar o entendimento sobre todos os outros acidentes. É como esperar que a forma acidental tomada pelo leite esparramado pelo chão, quando você deixa cair a jarra, pudesse explicar como a jarra foi feita e porque ela caiu.

Pergunta: A aplicação dos princípios cristãos daria um fim ou reduziria enormemente o progresso material e científico? Em outras palavras, é errado para um cristão ser ambicioso e lutar por progresso material?

Lewis: É mais fácil pensar num exemplo mais simples. Como a aplicação dos princípios cristãos afetaria alguém numa ilha deserta? Seria menos provável que esse cristão isolado construísse uma cabana? A resposta é “Não”. Pode chegar um momento em que o Cristianismo o diga para se preocupar menos com a cabana, isto é, se ele estiver a ponto de considerar a cabana a coisa mais importante do universo. Mas, não há nenhuma evidência de que o Cristianismo o impediria de construir um abrigo. Ambição! Devemos ter cuidado sobre o que queremos dizer com essa palavra. Se for desejo de passar à frente de outras pessoas – que é o que eu penso que quer dizer – então, ela é uma coisa má. Se significar apenas desejo de fazer bem uma coisa, então é boa. Não é errado para um ator querer atuar tão bem quanto possível, mas desejar ter seu nome escrito com uma letra maior do que a de outros atores, isso sim é errado.

Pergunta: Tudo bem em ser General, mas se alguém tiver a ambição de ser um General, então não o deve ser?

Lewis: O mero evento de se tornar um General não é nem certo, nem errado em si mesmo. O que importa moralmente é sua atitude em relação a isso. O homem pode estar pensando em vencer a guerra; ele pode estar desejando em ser General porque honestamente pensa que tem um bom plano, e ficará feliz em colocá-lo em prática. Isso está ok. Mas, se ele pensa: “O que posso ganhar com esse emprego?” ou “O que devo fazer para aparecer na primeira página do Illustrated News?” então, isso é errado. O que chamamos de ambição, usualmente, significa o desejo de ser mais notável ou mais bem sucedido que outra pessoa. É o elemento competitivo que é nocivo. É perfeitamente razoável querer dançar melhor ou ter uma aparência melhor do que outros – quando você começar a perder o prazer se outros dançarem melhor que você ou tiverem uma melhor aparência, então você está indo na direção errada.

Fonte: Glaucia Santana

sexta-feira, 18 de abril de 2008

CRIANÇAS PARA SEREM QUEIMADAS

Carlos Heitor Cony (Folha de S. Paulo, de 11.4.2008) resenha o livro "Babies for Burning" (Londres: Serpentine Press), em que Michel Litchfield e Susan Kentish entrevistam um médico de uma clínica de abortos na Inglaterra.
Em um dos trechos, o médico diz:

"Fazemos muitos abortos tardios, somos especialistas nisso. Faço abortos que outros médicos não fazem. Fetos de sete meses. A lei [inglesa] estipula que o aborto pode ser feito quando o feto tem até 28 semanas. É o limite legal. Se a mãe está pronta para correr o risco, eu estou pronto para fazer a curetagem. Muitos dos bebês que tiro já estão totalmente formados e vivem um pouco antes de serem mortos.
Houve uma manhã em que havia quatro deles, um ao lado do outro, chorando como desesperados. Era uma pena jogá-los no incinerador porque tinham muita gordura que poderia ser comercializada. Se tivessem sido colocadas numa incubadeira poderiam sobreviver, mas isso aqui não é berçário.
Não sou uma pessoa cruel, mas realista. Sou pago para livrar uma mulher de um bebê indesejado e não estaria desempenhando meu oficio se deixasse um bebê viver. E eles vivem, apesar disso, meia hora depois da curetagem. Tenho tido problemas com as enfermeiras, algumas desmaiam nos primeiros dias."

www.prazerdapalavra.com.br

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Livros

Desarrumados da estante
esticam suas folhas
como pernas, os volumes
folheados tomam ar
respiram
entre sílabas as palavras
e os autores sacodem
a penumbra, tossem
os poetas novelos de poeira.
Desarrumado o verbo, vem à luz
e diz o quê? o inesperado.

Poema de J.T.Parreira

sexta-feira, 11 de abril de 2008

Sobre os primeiros cristãos



“Eles caminham com toda a humildade, e bondade e a falsidade não é encontrada entre eles, e amam-se mutuamente. Não desprezam a viúva e não entristecem o órfão. Aquele que tem distribui liberalmente com o que não tem. Se vêem um estranho, trazem-no sob o seu tecto, e regozijam-se com relação a ele como se fosse seu próprio irmão: pois chamam a si mesmos de irmãos, não pelo sangue, mas pelo Espírito de Deus; mas quando um dos seus pobres passa deste para outro mundo, e qualquer deles o vê, provê para o seu sepultamento segundo a sua capacidade; e se ouve de algum dos seus que está preso ou oprimido pelo nome do seu Messias, todos provêem para as suas necessidades, e se for possível ele ser livrado, eles o livram. E se há entre eles alguém pobre e necessitado, e eles não têm em abundância as coisas necessárias, jejuam dois ou três dias para poderem suprir o necessitado com o alimento necessário.” –

Aristides - filósofo que descreveu os cristãos em 125 d.C.



v.carlos

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Conto: Uma sombra do que foi


Partia do princípio que estava triste por ter uma única ideia, naquele dia, e que a mesma era sobre a morte.

Foi na véspera da preparação do Sábado e também da grande festa da Páscoa que se encontrou perante o desfecho do caso. Desde a madrugada daquela sexta-feira que a conduta pessoal lhe causava, apesar de tudo, enorme surpresa.

Já não cultivava a mesma frieza da noite anterior, nem pensava que fora uma coisa comum o que acabara de fazer.

Limpou, com a manga da túnica, a saliva dos cantos da boca, que se acumulara ao gritar aos principais sacerdotes e anciãos, limpou o suor que seguia na direcção dos olhos.- «Eu condenei um homem inocente à morte! Traí um inocente!» – foi o que Iscariotes gritou, engolindo em seco um nó na garganta.

Até ali fizera tudo com discrição, para evitar tumultos, usara a astúcia, mas pensava com tristeza que o dinheiro não tinha necessariamente que o transformar dessa maneira, mas era tarde.

- Se a minha alma fosse material, estaria agora destroçada em farrapos – disse-me Iscariotes, quando se despediu, à pressa, nessa manhã.

Seria como um sentimento desagradável e simbólico que quase fizera em farrapos a sua capa, se não fosse apenas o acaso de a rasgar numa esquina afiada de uma das paredes do templo ao fugir apressadamente.

Quem o visse, naquele momento, com toda aquela agitação, diria que estava ali um sicário, desesperado para se vingar dos romanos, procurando nas sombras entre as esquinas sinuosas da rua que levava para fora da cidade, como uma criança que procura no ar o lado de onde vêm as vozes dos pais.

Quem o conhecesse de perto, como eu, diria que aquele homem estava agora com uma crise de fé, balbuciava um nome ininterrupto «Mestre», como um agnóstico de boa vontade. A ironia já não era o seu anteparo, a ironia que sublimara naquele sinal identificador, do beijo no mestre, com que completou o processo da rejeição que sempre demonstrou em relação a Jesus.

Vi-o afastar-se com o cabelo coberto por um talit, curvado, sem cabeça, como a querer cozer às sombras o seu rosto.

Ali na rua estava instalado aquele burburinho com que se iniciam as manhãs muito cedo, havia a um canto oito ou nove pessoas que conversavam sobre uma condenação invulgar, que o Sinédrio efectuara de noite.

- Foi uma rusga e uma acareação.

- Com certeza, porém foi tudo um pouco às escuras.

- Sim – disse um homem alto que estava à ponta do grupo, que percebeu outro sentido na alusão à obscuridade – sim, às escuras, à margem da própria legalidade religiosa.

- Mas não, o politicamente correcto vai prevalecer, Pilatos dará a palavra derradeira. – Sentenciou alguém, que se evidenciava da mediania do grupo.

Ao olhar Iscariotes deste ponto, parecia um homem que ia decidido a fazer uma viagem.

E na última casa da rua, onde se virava a esquina para o caminho dos arredores da cidade, como se virasse uma página, deitou para trás um olhar de medo, escorregou ou tropeçou numa relevância do terreno, não vi bem, e desapareceu repentinamente.

Soube que começara bem com o dinheiro que os sacerdotes lhe tinham dado na noite anterior. Mas durante a mesma, o toque naquelas trinta pratas não se diferenciara daquele com que costumava passar a mão nas moedas do saco das esmolas.

Tais remorsos, por assim dizer, sensoriais, revelaram-se através de uma náusea incontida. Há sempre um momento em que os pecadores têm vergonha, porque esta é, desde as origens do homem, uma forma de conhecimento.

Mas o seu voltar atrás foi apenas materialista: foi só para devolver aquilo de que mais gostava, levado sem esperança pela angústia da culpa.

Cabisbaixo, Iscariotes dissera-me qualquer coisa apressadamente sobre a repulsa que sentia por si, como aguentara a indiferença dos principais do templo, e como depois de se aproveitarem dos seus préstimos sem ética, o deixaram entregue ao seu destino solitário.

Iscariotes não podia absolver-se, porque não tinha nenhuma dúvida razoável sobre o seu acto. E nunca fora homem para possuir uma apreciação moral de um acto daquela natureza.

A menos de dez estádios de distância, já em pleno campo, levantou os olhos por entre os fiapos da manhã enevoada, uma névoa que parecia consistente, e lá estava a árvore raquítica, plantada como um rubor floral no meio do verde, carregada de flores purpúreas.

A chegada da morte, media-se agora em metros, não em tempo, porquanto Iscariotes estava a levar seus últimos passos a aproximarem-se do local.

E aí deteve-se bruscamente.

- Foi acossado pelo remorso – comentou um publicano que era apóstolo de Jesus, a quem chamavam Levi mas na realidade era Mateus, enquanto nos aproximávamos do campo do oleiro.

- Foi tocado de remorso – repeti eu com voz triste, enquanto procurava ver fragilidades na árvore que Iscariotes usara, já o sol fazia ângulos rectos entre os objectos e as sombras.


J.T.Parreira

quarta-feira, 9 de abril de 2008

Duas prosas poéticas de dois de nossos maiores poetas evangélicos


GESTO HERÓICO


Mário Barreto França


A sineta bateu convocando o colégio, a sala estava cheia, o Diretor egrégio e antigo mestre entrou, ninguém o reparara. Falavam de uma falta grave! Alguém roubara da bolsa de um aluno a clássica merenda e o castigo era grande, uma surra tremenda, vinte varadas. Qual seria o desgraçado que iria suportar o braço desalmado do velho Diretor aplicando o castigo? Talvez fosse um aluno ou um bedel antigo. Havia tanta gente ali, humilde e pobre e a aparência final muita miséria encobre. Enorme burburinho enchia toda classe:

- Silêncio – Brada o mestre – Aqui ninguém mais fala!

- Houve uma falta grave, um roubo, e é oportuno que eu lhes diga claramente que esse tão mau aluno, que cometeu tal erro, há de pagar bem caro, bem caro estão me ouvindo? E o que eu mais reparo é ver que foi debalde o esforço de ensinar-lhes caminho do bem, da retidão, mostrar-vos que se deve vencer por força de vontade e que acima de qualquer febril necessidade se coloca o dever. Mas eu vejo que essas virtudes, não orientam mais as vossas atitudes.

O murmúrio aumentou, todos se entreolharam e numa singular atitude calaram, como para mostrar a força que os fazia, solidários na dor, na culpa ou na rebeldia.

Mas num canto da sala, humilde, magro e pálido, levantou um menino. O seu aspecto esquálido bem claro demonstrava a miséria sem nome que lhe vibrava no olhar, as convulsões da fome e num gesto de quem se vota a um sacrifício, como um santo a sorrir no instante do suplicio confessa:

- Diretor, tinha uma fome cega e por isso roubei o lanche do colega, fiz mal, ninguém tem culpa é verdade o que digo, estou pronto, portanto, a sofrer o castigo.

E seguiu cabisbaixo em direção do estrado em que todo faltoso era sentenciado e o rude diretor lê o código interno:

- O aluno que roubar um lanche ou um caderno, nas costas levará vinte fortes varadas.

E isso dizendo, despe as costas maceradas do pequeno réu, vibra o primeiro açoite, um gemido se ouviu como um grito na noite, outra pancada estala, as pernas do garoto começam a tremer dentro do calção roto e o seu olhar voltado ao azul da imensidade parecia implorar um pouco de piedade e uma onda de horror, de revolta e protesto, brilhava em cada olhar, vibrava em cada gesto.

Nisto um jovem robusto e com porte de rico, levanta-se resoluto e diz:

- Eu vos suplico que permitais senhor que eu sofra o seu castigo, a merenda era minha e ele foi sempre amigo, mas se é lei, que se cumpra a lei.

E sobranceiro seguiu para o lugar do pobre companheiro, tirou o paletó, curvou-se resignado e deixou que o castigo em si fosse aplicado.

Quando a ultima vasgarda estalou como um ai nas costas ensangüentadas do inesperado herói, o pequeno poupado abraçou seu protetor amado, beijou-o humildemente e disse-lhe baixinho, num gesto fraternal e cheio de carinho:

- Foste meu salvador, meu nobre e bom amigo, pois sofreste por mim as dores do castigo, que mereci bem sei, mas não agüentaria, dada a minha profunda e crítica anemia. Fui culpado de tudo e nunca o desejará, suplico-te perdoa a minha ação ignara, eu saberei ser grato ao bem que me fizeste, implorando ao Senhor a proteção celeste, sobre ti e o teu lar, na certeza em que o mundo será em tua vida um roseiral fecundo e onde eu me encontrar exaltarei o estóico e sublime esplendor desse teu gesto heróico. Nós somos neste mundo uns míseros culpados, criminosos, infiéis e cheios de pecado, roubamos nosso irmão, o próximo enganamos, perseguimos o justo e a trânsfuga exaltamos e tudo que é de mau fazemos sem piedade para satisfazer a nossa perversidade. Por isso, o Mestre amigo, que sofreste por mim as dores do castigo, recebe o meu afeto humilde, mas sincero e a minha gratidão profunda, pois te quero exaltar em meu ser e em toda minha vida, nessa consagração de uma alma agradecida, que vê no teu amor e em teu suplício estóico, a glorificação de um sacrifício heróico.



O meu Cristo!

Jonathas Braga

Neste mundo há muitos Cristos, de muitas formas, de várias cores e de vários tamanhos, Cristos inventados, Cristos moldados, Cristos tristes, Cristos desfigurados.
Há Cristos para cada gosto, cada objetivo, cada projeto.
Há o Cristo das belas artes, um motivo como tantos outros para expressar uma forma ou exibir uma escola, pelo próprio homem criada. É o Cristo só para se ver, analisar ou criticar, para exaltar o autor, o seu talento, sua invencionice.
Há o Cristo da literatura, da prosa, do verso, da fama, do estilo famoso, do bestseller. É o Cristo de pretexto, que serve de texto dentro de um contexto, que ajuda o seu autor a faturar mais, ser mais lido e procurado.
Há o Cristo das cantigas, deturpado, maltratado e irreverentemente tratado. Aparece na crista das ondas, estoura nas paradas. É cantado nos salões e circula aos milhões como mercadoria para enriquecer a muitos. É o Cristo de algibeira, fabricado como produto de consumo.
Há até o Cristo do cinema e do teatro, sucesso absoluto de bilheteria. É a expressão da arte moderna fazendo a caricatura do maior personagem da história. É o Cristo musicado, martirizado, encenado. É o Cristo para o espetáculo, para os olhos, para os ouvidos, para o lazer, para a higiene mental.
Há o Cristo do crucifixo, de pedra, de mármore, de madeira, de metal, de ouro e até mesmo de cristal. É o Cristo para a aparência, para o colo da mocinha, para o peito piloso do rapaz excêntrico. É apenas ornamento ou simples decoração, embora, alguns lhe prestem culto, ele não vê, não ouve e não entende.
Há, também, infelizmente, o Cristo de certos cristãos que ainda o tem no túmulo, e ainda conservado na tumba dura e fria. É o Cristo que não vive porque os seus adoradores ainda estão mortos, sem despertar para a vida nova, a vida do próprio Cristo, da qual, ainda, lamentavelmente, não se apossaram.
O meu Cristo não é nenhum desses! O meu Cristo é o Filho de Deus que nasceu, cresceu e sofreu, foi condenado à morte e sepultado por causa dos meus pecados. O meu Cristo não ficou preso na sepultura escura! Ele ressuscitou, subiu ao céu e reina à direita do Pai!
O meu Cristo é cultuado, admirado e adorado porque está vivo e bem vivo! Meu Cristo vive nas parábolas que proferiu! O meu Cristo vive nos ensinos que deixou! O meu Cristo vive nos atos que realizou! O meu Cristo vive nas almas que salvou!

O meu Cristo vive, não tenho dúvidas, porque o meu Cristo vive em mim!