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quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

La Bruyère e a necessidade de Deus


Chamo mundanos, terrestres ou grosseiros aqueles cujo espírito e coração estão apegados a uma pequena porção do mundo que habitam, que é a terra; que nada estimam, que nada amam do além: homens de tão estreitos limites como aquilo que julgam seus domínios e possessões, cujo tamanho pode ser medido e cujas fronteiras podem ser mostradas. Não me surpreende que homens que se apoiam assim num átomo cambaleiem em seus mínimos esforços para sondar a verdade e que sua visão tão curta não lhes deixe atingir a Deus, através do céu e dos astros. Não percebendo a excelência do que é espírito nem a dignidade da alma, sentem menos ainda como esta é difícil de satisfazer, como a terra inteira é inferior a ela, como lhe é necessária a existência de um ser soberanamente perfeito, que é Deus, e quanto é indispensável uma religião que o revele e o garanta. Compreendo facilmente, pelo contrário, que é natural a esses espíritos caírem na incredulidade ou na indiferença e fazer com que Deus e a religião sirvam a política, isto é, a ordem e o ornamento deste mundo, única coisa, segundo eles, que merece atenção.

La Bruyère in Caracteres

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Ruysbroeck e a (im)possibilidade moderna de iluminação


"Se pudéssemos renunciar a nós mesmos e a todo o egoísmo em nosso trabalho, deveríamos, com nosso espírito nu de imagens, transcender todas as coisas, e sem intermediários ser conduzidos pelo Espírito de Deus até a Nudez... Quando transcendermos a nós mesmos, e nos tornarmos, em nossa ascensão para Deus, tão simples que o amor nu das alturas possa nos tomar, onde o amor abraça o amor, acima do exercício de qualquer virtude - isto é, em nossa Origem, de Onde nascemos espiritualmente - então cessamos, e nós e toda nossa individualidade morre em Deus".


Os afeitos aos estudos dos textos/discursos religiosos universais notarão a semelhança com um texto budista, hindu ou até mesmo sufi. Mas é do místico cristão do século XIV, (Jan Van) Ruysbroeck (Bélgica 1293-1381). 

Há algo de perturbador em todos os místicos cristãos, seja na 'ortodoxia' de um Ruysbroeck até o quase panteísmo (se não herético, fronteiriço) de um Eckhart. Algo incaptável, obscurecido no e pelo tempo, que nossa razão moderna logo se apressa a oferecer um primeiro combate. Interessante também, para os afeitos às religiões comparadas, a semelhança de percepções em relação à iluminação, à ascese e processos de epifania entre os místicos das variadas correntes, sem desejar entrar aqui no mérito da Verdade religiosa (pois sabemos que Jesus é a Verdade). 
Gosto de refletir se um dia terei alma, tempo e paz para me dedicar à contemplação mística de Deus. E se, possuindo eventualmente tais atributos, lograrei ir além de pálidos rudimentos, sombras de outras sombras, obliterado que terá sido meu entendimento pela velocidade e hipersolicitações (hiperinformação, hiperengajamentos) que a vida moderna terá me obrigado até então.
Há espaço para a verdadeira e efetiva (realizável) contemplação mística em nosso século?  Já que o pensamento místico cristão é de maneira geral a seara de alguns teólogos e doutores da igreja católica, um dos maiores teólogos católicos do século XX, Karl Rahner, dizia que "o cristão do futuro ou será místico ou nao será cristão." Espero que esteja certo neste prognóstico, espero que possamos lançarmo-nos na nudez de Deus.

Sammis Reachers

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Sobre a literatura, a fraternidade e a liberalidade


Meu fascínio por frases e citações vem de longe, de alguns livros da pequenina biblioteca de meu pai, mas principalmente de um certo livro, e sua história em especial. O livro é o Coquetel Literário (uma antologia de citações), calhamaço fascinante de quase 500 páginas, de autoria de Dário Derenzi, eminente e falecido dentista afeito às lides literárias. 
Certa feita, eu ainda moleque de meus quatorze anos, li em certo periódico sobre o lançamento de tal livro, uma edição do autor, não comercializada. Dava endereço para solicitação de informações. Eu, humildemente, enviei minha cartinha, solicitando informações sobre como adquirir o livro. 
Um belo dia eu estava com meu pai do lado de fora de nossa casa, cortando alguns galhos de uma árvore. De repente para um carro de luxo, presença estranha no bairro naquela época. Um homem saiu do carro, em trajes sociais, viu o número da casa pintado no muro, conferiu em um papel, e em seguida indagou ao meu pai: "O senhor é o senhor... hum... Sammis... Reachers?" "Não, o 'senhor' Sammis Reachers é ele", disse meu pai, espantado, me apontando. O homem me observou, também algo espantado, e em seguida me estendeu um pacote. "Este livro é para você. O Dr. Dário me pediu para entregar". 
O cidadão se deslocara da Tijuca até São Gonçalo (!!!!) para dar um livro a um desconhecido. 
Aprendi muitas coisas naquele dia. Aprendi sobre liberalidade. Sobre o apreço pela literatura, seu alto valor, não redutível a cifrões, e a fraternidade que ela promove entre os homens. E ampliei meu apreço pelas máximas. 
Com o tempo publiquei minha própria seleta de máximas, "SABEDORIA: Breve Manual do Usuário", creio que em 2006 ou 2007, por sinal uma de minhas antologias mais baixadas e compartilhadas em diferentes frentes. E agora, trabalhando em novos projetos envolvendo frases, me lembro com carinho da generosidade do velho Dário, de quem nunca tive o prazer de apertar a mão, senão em pensamento. 
Parafraseando Isaac Newton, se aprendi a fazer livros e a disponibilizá-los de graça, foi amparado nos ombros de gigantes!

Sammis Reachers

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Terceira Idade – Virtudes, Conflitos e Saídas


No decorrer dos anos o conceito sobre o envelhecimento tem sofrido modificações devido aos estudos cada vez mais profundos sobre o ser humano. Dados estatísticos revelam que, na década de 50, a média superior de vida era de 60 anos. Atualmente, o Brasil tem mais de 8% de sua população com pessoas acima dos 65 anos. A expectativa é de que no ano 2000 tenhamos 15% na faixa etária da terceira idade.
A vida é uma seqüência que só é construída com o passar dos anos. A Terceira Idade é classificada como a última seqüência da vida humana.
De acordo com a biologia e a psicologia, o corpo e a mente humana obedecem a uma cronologia que vai até um nível determinado de maturidade. A partir daí, começa o desgaste físico e mental.
Esse é um processo natural, que, mais cedo ou mais tarde, ocorre com tudo que existe no universo; até as pedras sofrem um desgaste.
Da mesma forma acontece com o ser humano, alguns envelhecem mais cedo do que outros, isso depende de fatores hereditários, ambiente em que se vive, condições de trabalho, situação econômica, etc. No entanto, há um fator determinante nesse processo, que é o psicológico. Há uma grande diferença entre o ser velho e o sentir-se velho. Existem pessoas que vivem como se tivessem 100 anos, quando na verdade têm 30 ou 40; assim como aqueles que tem 70 ou 90, mas vivem com muita disposição e vigor.
Não podemos negar ou fingir que não percebemos quando o corpo envia os sinais de seu amadurecimento. Com o passar dos anos, pode ser na casa dos 50 ou 60, o espelho, os amigos, a vida, começam a mostrar a realidade que para muitos é dificílima de aceitar: o envelhecimento do corpo. Sábiamente, Goethe escreveu: “A idade apodera-se de nós de surpresa.” E essa evidência pode desencadear grandes conflitos pessoais.

CRISES DA TERCEIRA IDADE

O fator cultural – Infelizmente, em nossa sociedade, os preconceitos em torno da pessoa de mais idade são muitos. A sociedade não tem respeito para com o idoso; considera-o improdutivo e senil, um peso a ser carregado.
O fator biológico - Uma das causas constantes de crise, é o conflito entre o desejo da alma e a limitação do corpo. A força muscular e a rapidez de resposta motora vão diminuindo gradualmente e as dores ou enfermidades mais freqüentes muitas vezes impedem a pessoa de fazer o que gostaria.
O fator emocional – Um possível sentimento de inutilidade também pode tornar-se um ponto conflitante. A possibilidade de não ser útil para ninguém pode fazer com que o idoso fique apático e deprimido.
Muitas vezes os familiares, preocupados com a fragilidade dos mais idosos, os proíbem de fazerem uma porção de coisas que, na verdade, ainda seriam capazes de realizar. No entanto, isso acaba causando uma grande frustração, tornando a vida na terceira idade triste e vazia.

BUSCANDO UM NOVO EQUILÍBRIO

Todas as fases da vida humana passam por transformações: a infância, a adolescência, a juventude, a vida adulta, o casamento, a gravidez, etc.   Em cada fase acontece em nós uma nova organização; a fim de mantermos o equilíbrio pessoal, mudamos comportamentos, atitudes, pensamentos. Na terceira idade acontece a mesma coisa.
Quando chega o inverno da vida, em que os cabelos vão ficando com a cor da neve, o ser humano necessita se proteger dos inconvenientes próprios da estação. É necessário reconhecer que é possível caminhar, quando não dá mais para correr e que há possibilidade de fazer um pouco, quando não puder mais fazer tudo. Cada um deve buscar dentro de si mesmo suas próprias possibilidades; mesmo que só lhe reste uma rica e intensa vida de oração.
Uma das coisas que mais podem ser positivas na terceira idade é poder olhar tudo o que foi possível realizar um dia e sentir que sua missão foi cumprida. A sensação do dever cumprido produz grande satisfação.
É hora de colher o que se plantou; de aproveitar os momentos preciosos da vida que ainda estão por vir.
Outro ponto interessante é a possibilidade de viver sem preocupação com o futuro. Simone de Bouvoir, em seu livro “A Velhice” (pág.375), cita o grande escritor Fontenelle, que morreu com quase 100 anos, como alguém que dizia que “Nessa idade, já estamos com uma posição definida. Não temos mais ambição; não desejamos mais nada, e usufruímos do que já semeamos. É a idade da colheita já realizada.”
O tempo disponível pode e deve ser usado em função de muitas coisas boas, como por exemplo, passear; visitar os amigos e os enfermos; desfrutar da companhia dos filhos, netos e, quem sabe, dos bisnetos; ler; estudar a Palavra; compartilhar experiências, entre outras coisas mais.

CONCLUSÃO

Todo ser humano tem grande valor, afinal, foi criado a imagem e semelhança de Deus.
Quando a sociedade em que vivemos, ou até mesmo familiares não sabem respeitar e apreciar a pessoa de mais idade, não quer dizer que ela tenha de viver desrespeitada e depreciada.
A conscientização dos inconvenientes que surgem com a chegada dos “anos dourados” não deve trazer consigo o sentimento de incapacidade. Uma atitude de auto valorização pode ajudar muito para que o idoso tenha uma qualidade de vida satisfatória, com todo o direito de ser feliz! Quando alguém tem a alegria natural de viver, ninguém pode tirá-la!
Conhecedor das profundezas do vivido coração do ser mais belo que criou, Deus inspirou um de seus servos a escrever: “Os justos florescerão como a palmeira (…) Na velhice ainda darão frutos, serão viçosos e florescentes.” (Salmo 92:12,14)

quinta-feira, 19 de maio de 2016

Ronaldo Lidório - O Evangelho remodelado


Em dias atuais o evangelho tem sido insistentemente remodelado para se encaixar na expectativa da sociedade. Perante uma sociedade hedônica que valoriza o prazer, evita-se o evangelho bíblico que confronta e chama o pecado de pecado. Perante uma sociedade insaciável que busca sempre novidades, reveste-se o evangelho de interpretações humanistas de prosperidade. Perante uma sociedade narcisista que busca destaque individual o evangelho é usado para exaltar a homens e não a Cristo. A tentativa de deformar o evangelho é antiga e Paulo alertou as igrejas na Galácia contra os que pregavam um “outro evangelho”.
A Palavra esclarece que o autor do evangelho é Deus – e não homens; que a identidade do evangelho é Cristo – e não os apóstolos; e que a natureza do evangelho é de profunda e crescente transformação. Transforma perseguidores em perseguidos; agnósticos em crentes; orgulhosos em servos; perdidos em salvos. Quanto à crença, o evangelho nos levar a depositar nossa fé e esperança na graça de Deus e não na capacidade dos homens. Quanto ao relacionamento, o evangelho nos ensina a amar a Deus acima de tudo e ao próximo (amigos ou inimigos) como a nós mesmos. Quanto à missão, o evangelho nos lança ao desejo (e ordem) de Cristo, de fazermos discípulos (dEle) em todas as nações.
O evangelho bíblico diz “bem aventurados” e também “raça de víboras”. Manifesta a graça e também a justiça de Deus. Mostra os atos de bondade e também de punição. Apresenta o céu e também o inferno. Somos pelo evangelho convidados a conhecer a Cristo (nas Escrituras), viver Cristo (dia a dia) e proclamar Cristo (perto e longe). Jesus Cristo é o evangelho.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

CHEGA DE FICAR SOBRE O TELHADO!


Dizer que o país vai mal é chover no molhado. Em cada esquina isso está na boca do povo. A questão já está bem mais adiante. A crise que sentimos como uma tempestade não é específica; é genérica. Também ela não desaguou de uma vez. 
Parece, à maioria de nós, que os anos de 2014 e de 2015 vêm figurar como os anos terríveis cujas maldades desabaram sobre esta terra. Mentira. 
A tempestade que ora se enfrenta começou há tempos, como uma garoa que, aos poucos, foi-se intensificando. Mas, como garoa não provoca enchente, pouco nos importou o que acontecia. Agora, a água já cobre os telhados, para onde nos socorremos, sem ver possibilidade de ajuda. 
A crise que parece ser apenas político-partidária tem ramificações terríveis e ela é apenas consequência da metástese da imoralidade que se desenvolveu por aqui. A crise não é apenas Lula, não é apenas Dilma, não são os deputados ou os senadores. A crise somos nós! Todos nós brasileiros insensatos, desapercebidos. 
Fala-se, hoje, em crise na educação escolar. Ela começou em 2014? Claro que não! Há anos, formam-se professores desqualificados (e como profissional do magistério, sei o que digo). De tempos a esta data, as salas de aula, no ensino superior, passaram do domínio do mestre (?) para o interminável falatório de pretensiosos estudantes "com uma ideia na cabeça e um punhado de parceiros para falar bobagens". Até as festas de formatura viraram orgias indescritíveis. O lixo começa no trote aos calouros e termina no baile de formatura! Que esperar de grande parte desses profissionais, outrora estudantes mergulhados no caldo da irresponsabilidade moral e intelectual? 
Pouquíssimos se salvam! 
Da crise na Educação nascem as demais crises, incluindo-se nisso uma camada de políticos desajustados, indecentes, imorais desde os bancos acadêmicos. 
Passou-se o desagradável e inadequado tempo de políticos defensores de ideologias esquerdistas, incompatíveis com o espírito brasileiro, uma vez que os esquerdistas de agora ajustaram-se à bagunça gramcista, de onde brotaram os imbecis políticos anarquistas, os quais têm dominado com suas porcas ideias uma população ignara. Para constatar o que exponho, basta ver que maldosas ideologias ressaltam no malfadado Ministério da Educação. E tiveram o desplante de alcunhar o Brasil de Pátria Educadora! 
Um governo que libera verba para tudo quanto é sujeira; veja-se a última revoltante notícia de uma peça (?) de teatro (?) em que se prega deslavadamente a imoralidade sexual pervertida, não merece, senão o mais intenso e imediato protesto de todos os brasileiros que se prezam. 
A crise que começou como uma garoa, foi crescendo. A maioria de nós está sobre os telhados, sem saída. Mas ainda há os que construíram suas casas no alto, sobre a rocha e não estão atingidos pela avalanche de cocô desta geração. A estes cabe o protesto imediato, a oposição ferrenha, sem medo, em defesa de um Brasil que não se formou para a pouca vergonha. Que se lixem os anticristãos! É hora de manifestação sadia de um povo que honra uma nação com princípios cristãos. É hora de se sair da caverna, ou todos seremos tragados. 

 Izaldil Tavares de Castro

sábado, 3 de outubro de 2015

Procura-se pastor de verdade


  • Procura-se pastor que realmente tenha alma de pastor. 
  • Procura-se pastor que sabe conviver com os demais pastores e não tem receio do sucesso do outro. 
  • Procura-se pastor com caráter íntegro, que revela em público o que é na intimidade de sua casa. 
  • Procura-se pastor que não provoca escândalos, nem envergonha a igreja diante da cidade. 
  • Procura-se pastor que prega somente o que Cristo pregou e nada mais além. 
  • Procura-se pastor que não deixa de socorrer a ovelha, mesmo quando por ela não é procurado. 
  • Procura-se pastor que não busca os interesses próprios, mas os do Reino de Deus. 
  • Procura-se pastor que ama intensamente sua esposa e filhos, ensinando assim o que é viver em família. 
  • Procura-se pastor que prega o Evangelho todos os dias da semana, tendo ou não um púlpito à sua frente. 
  • Procura-se pastor que gasta tempo com Deus e se reavalia, dia a dia, para saber se de fato está desenvolvendo o ministério certo. 
  • Procura-se pastor que sabe o que é sofrer por Cristo e perder a vida pelo Reino de Deus. 
 "Dar-vos-ei pastores segundo o meu coração, que vos apascentem com conhecimento e com inteligência."  (Jeremias 3.15) 

 Por: Samuel Costa

domingo, 7 de junho de 2015

COMO ANDA O NOSSO AMOR AO PRÓXIMO?


Tendo purificado as vossas almas, pela vossa obediência à verdade, tendo em vista o amor fraternal não fingido, amai-vos de coração uns aos outros ardentemente” (1Pe 1.22).


O destaque no texto bíblico citado é meu: chama-me à atenção. Porventura, o amor que eu demonstro aos irmãos confere com a recomendação petrina? O apóstolo Pedro registra um estado necessário para a prática do amor fraternal não fingido: ter purificado a alma pela obediência à verdade. Compreenda-se, pois, que não é pela sua própria natureza que o homem pratica esse amor isento do fingimento: a prática recomendada se efetiva por obediência à verdade.


Para o ser humano é fácil a prática do amor fingido; essa espécie de amor que nos libera de maior compromisso com o próximo; esse amor do desobrigado “Como vai?”.


Muitas vezes, Deus permite que sintamos fortemente, na pele, o problema que nosso irmão enfrenta. Só assim, acordamos para uma realidade. Deus permite que nos faltem os recursos financeiros, a fim de que avaliemos os problemas do nosso irmão; Deus permite que sejamos perseguidos, para entendermos a crise de nosso irmão; Deus permite que nos sintamos sós, desamparados, sem apoio, para que avaliemos a solidão de quem está tão perto de nós.


É inegável que todos os cristãos estamos acostumados àquele rotineiro encontro dominical, na igreja que frequentamos; estamos conformados com o cumprimento trivial, desatento, insosso que não passa de uma perguntinha retórica: “Como vai?” A resposta também é retórica: “Tudo bem.” Isso dificilmente reflete a verdade, já que um não se interessa; e outro não abre o coração.


Quanto problema se localiza entre esse simples cumprimento? Quanto coração ferido? Quanta mágoa irritando a alma? Quanta necessidade de apoio material e espiritual? Quanta falha cometemos?!


Que sentimento nos une tanto, que - na maioria das vezes - nem damos conta de que algo, realmente não vai bem? A questão está em que perdemos a convivência e o interesse pelo outro.


A frequência semanal com que nos vemos encobre problemas mil do coração alheio. Geralmente, somos alertados pela ausência constante de quem não tinha esse hábito; por isso, estranhamos. Estranhamos a ausência, não nos fere o possível problema, causador da ausência. Quanto aos “desaparecidos” de entre nós, o tempo tem-se encarregado de apagá-los de nossos pensamentos. Quantos já “desapareceram”, e não damos conta disso? Quantos desistiram da convivência, e com eles não nos importamos? Como podemos dizer que somos “corpo”? Acaso, pode o corpo perder uma parte, sem se dar conta disso? Então, mentimos! Mentimos muito!


A vida secular, em nosso tempo, afasta-nos dos irmãos; temos “nossos” (pessoais) problemas.  Não há espaço para nos lembrar de quem é o nosso próximo. Enfim, esquecemo-nos do amor ao próximo. Não é só do amor não fingido que nos esquecemos: esquecemo-nos da obediência à verdade. De que verdade nos esquecemos?


A verdade esquecida é a recomendação do Senhor: “Novo mandamento vos dou: que vos ameis uns aos outros; assim como eu vos amei, que também vos ameis uns aos outros. Nisto conhecerão que sois meus discípulos: se tiverdes amor uns aos outros” (João, 13. 34-35).


A recomendação do Senhor Jesus não se resume a que amemos o próximo; mas, que o amemos como ele nos amou! Como o Senhor nos amou? “Ora, antes da Festa da Páscoa, sabendo Jesus que era chegada a sua hora de passar deste mundo para o Pai, tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (Jo 13. 1 - destaque meu).


Concluo que estamos em grande falta perante o Senhor, também nesse quesito da vida cristã. É necessário atentarmos para a obediência à verdade e, por ela, dedicarmos o amor não fingido, para que haja bênçãos sobre as nossas vidas.


Grande parte dos “evangélicos” da atualidade praticamos um evangelho vazio, personalista, voltado para o nosso próprio interesse. Reunimo-nos no templo para pedir “Eu quero de volta o que é meu”; “eu vim buscar a minha bênção!” Se Jesus estivesse fisicamente entre nós, o que Ele nos diria? O que Ele nos diz, hoje, pelo Espírito Santo? “Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas” (Ap 2. 29).


Essa desatenção ao amor não fingido não está restrita a igrejas e comunidades teologicamente reprováveis. Os “crentes verdadeiros”, ligados aos ministérios “aprovados” pela doutrina bíblica também estamos em grande falta para com a obediência à verdade. Qual será a situação dos nossos relacionamentos fraternos, dos nossos cultos, dos nossos louvores, das nossas pregações, diante do Senhor que nos remiu por amor incondicional e imerecido?


Ev. Izaldil Tavares de Castro.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

A Herança de Abraão

A partida de abraão, por József Molnár

Jorge Pinheiro
Ao longo da história, vários foram os homens e mulheres que, em diversas épocas, influenciaram negativa ou positivamente as sociedades em particular e a humanidade em geral. Enumerá-los tornar-se-ia fastidioso porque a lista seria extensa. Emparceirando-os, verificaríamos, contudo, que deles apenas meia dúzia se sobressairia de quem se pudesse dizer que a sua influência se tornou extensiva a todo o mundo, deixando uma marca que atravessou séculos e continentes e que perdura ainda hoje. Se pedíssemos a alguém que enumerasse o nome de cinco personalidades que em seu entender mais influenciaram o curso da humanidade não deixaria de indicar o dos fundadores das principais religiões (Sidarta Gautama, Moisés, Zoroastro, Jesus Cristo, Lao Tzé, Muhamad), o de grandes guerreiros ou descobridores (Gengis Cão, Alexandre Magno, Júlio César, Marco Pólo, Vasco da Gama, Cristóvão Colombo), o de grandes pensadores, cientistas ou artistas (Sócrates, Platão, Einstein, Karl Marx, Mahatma Gandhi, Leonardo da Vinci, Beethoven) ou qualquer um dos muitos políticos que deixaram a sua marca indelével na história da humanidade. Não estaremos, contudo, talvez longe da verdade se arriscarmos afirmar que poucos citariam o nome de Abraão entre esses cinco.

E, no entanto, passados quase cerca de 40 séculos desde que ele empreendeu a sua caminhada histórica, saindo de Ur da Caldeia rumo a um destino que apenas pela fé conseguia vislumbrar e, talvez, deficientemente compreender, ainda hoje continuamos a ser influenciados de forma perene e constante por essa sua decisão, a ponto de podermos afirmar, sem forçar a realidade, que ele condicionou o devir de toda a humanidade. A sua decisão de obedecer à voz divina alterou para sempre o curso da humanidade e ainda hoje continuamos a sentir a sua influência. É verdade que genericamente Abraão é encarado apenas no quadro do universo religioso para isso contribuindo o facto de os seguidores dos três grande monoteísmos actuais o considerarem como pai fundador e alicerce das respectivas fés. É verdade que Abraão, considerado patriarca por todos quantos se lhe sentem devedores, foi movido por uma fé que podemos considerar de base e consistência religiosa. Mas não menos verdade será afirmar que, afinal, todos neste mundo, crentes e não crentes, são de uma forma ou outra seus filhos ou descendentes.

A história de Abraão vamos encontrá-la, com riqueza de pormenor no maior best-seller de toda a humanidade e jóia preciosa do universo sapiencial – a Bíblia Sagrada, mais concretamente no Génesis, entre os capítulos 12 e 25. Esses 14 capítulos retratam quadros de magnífica beleza e profundos ensinamentos cuja densidade está longe de esgotada.

Sabemos que Abraão vivia na opulenta cidade de Ur da Caldeia, cidade que rivalizava em grandeza e importância com a grande Babilónia, sendo considerada na altura (1940 a.C.) a mais importante urbe da região. Aos 75 anos, passa por uma experiência que irá modificar para sempre a sua vida e o curso da humanidade. Pouco sabemos de Abraão até então. Mas sabemos que vivia numa cidade opulenta, numa sociedade politeísta, num mundo em que, para apaziguar os caprichos das divindades, muitas vezes era necessário sacrificar a vida humana. Muito provavelmente viveria sem problemas de subsistência. Talvez uma das poucas tristezas que o afligisse fosse o facto de sua mulher Sarai ser estéril e, por essa razão, o seu nome não seria propagado após a sua morte entrando por isso no oblívio da memória colectiva.

E é nesse ambiente que Deus o chama e lhe faz uma promessa que a partir de então será a sua razão de existir: “Sai-te da tua terra e da tua parentela e da casa de teu pai, para a terra que eu te mostrarei. E far-te-ei uma grande nação e abençoar-te-ei e engrandecerei o teu nome e tu serás uma bênção. E abençoarei os que te abençoarem e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem; e em ti serão benditas todas as famílias da terra”. Obediente, Abraão deixa o conforto, o sossego e a reputação e parte. Deixa a segurança do adquirido e parte rumo ao desconhecido, fundamentado apenas numa promessa cujo único garante é o Deus eterno a quem fica ligado pelos laços da fé que vai crescendo e fortalecendo-se à medida que se entrega à obediência de quem o chamou. Conhecemos o resto da sua autêntica odisseia que resumimos de seguida: após renovar-lhe a chamada e a promessa de um filho, apesar da esterilidade de Sarai e da idade avançada de Abrão, Deus concede-lhe um filho, Isaque, depois de mudar o nome ao casal e de instituir a circuncisão e não sem que antes Abraão tivesse gerado Ismael da sua escrava Agar. Após a morte de Sara, Abraão volta a conceber seis outros filhos da concubina Quetura. Pelo meio, a destruição de Sodoma e Gomorra, o sacrifício não consumado do filho Isaque e o episódio em que, perante Abimeleque, Abraão nega que Sara fosse sua esposa.

Centremo-nos no conteúdo da promessa feita por Deus a Abraão e que ele transmite como herança a todos os seus descendentes. Nela há 3 elementos centrais: terra (Sai-te da tua terra e da tua parentela e da casa de teu pai, para a terra que eu te mostrarei), semente (E far-te-ei uma grande nação e abençoar-te-ei e engrandecerei o teu nome e tu serás uma bênção) e bênção (E abençoarei os que te abençoarem e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem; e em ti serão benditas todas as famílias da terra). Esta promessa, que se cumprirá na descendência de Abraão, dá origem a uma nova relação com a divindade, ou com a transcendência, se assim o quisermos, desconhecida da sociedade de então. Para além de ser um Deus único, transcendente e pessoal, o Deus de Abraão é um Deus que se relaciona com a sua criação através de pactos, que Ele honra e aprofunda, na medida da obediência do homem.

A Abraão, por seu lado, é exigido que se entregue à revelação de um Deus que se auto-revela e siga, passo a passo, em obediência comprometida, o caminho que se lhe vai abrindo no cumprimento do respeito mútuo pelo pacto estabelecido entre Deus e o Homem e que influenciará não só o momento presente, mas todas as gerações posteriores que receberem como sua herança a promessa abraâmica.

A terra passa a estar indissoluvelmente ligada à descendência de Abraão. Compulsando os pactos subsequentes que Deus vai estabelecendo com o Seu povo, verificamos que a relação do homem com a terra é a de um mordomo que, em nome do seu senhor, a torna produtiva, zelando e velando por ela, respeitando a sua integridade. A terra continua a ser de Deus, mas o Eterno coloca-a à disposição do Homem para nela este se frutificar e frutificá-la. E de facto, nos pactos posteriores, encontramos toda uma série de disposições que realçam esta tripla inter-relação – terra produtiva e respeitada, mansão do homem e reflexo e reflector da glória de Deus.

A semente ou descendência conhecerá a grandeza e erguer-se-á não como pedinte ou uma massa amorfa sem rumo, mas como sociedade organizada, disciplinada, com um programa bem definido de acção, em que a dignidade humana conhece um novo paradigma e em que a relação com o transcendente faz parte integrante do viver humano. Disso é reflexo o episódio do sacrifício não consumado de Isaque no monte Moriá. Filho prometido, filho da impossibilidade, a vida de Isaque é requerida pelo próprio Deus que permitiu a sua existência. Para além das várias lições que o episódio nos ensina, podemos destacar duas: Deus não se compraz com sacrifícios humanos e Deus exige confiança e obediência sem restrições a quem O aceita como presente na sua vida. Numa sociedade que utilizava o sacrifício humano para satisfazer a divindade, este episódio constitui uma ruptura definitiva do paradigma que encara o homem como descartável em nome do ter em preferência sobre o ser, em nome até de uma divindade supostamente clemente e misericordiosa. Nessa semente (ou descendência) contemplada na promessa abraâmica, o transcendente está também presente de forma visível e palpável e disso são reflexo dois episódios da vida de Abraão – a instituição da circuncisão e a mudança de nome do patriarca e sua esposa. A circuncisão, acto realizado no próprio corpo do crente no ponto fulcral da procriação masculina realça o facto não só de que o nosso corpo deve reflectir ele também a relação com a divindade, como ele próprio Lhe pertence. A mudança do nome é também significativa. Numa cultura em que o nome reflecte a própria pessoa e em que, em última instância, acaba por ser a própria pessoa, este episódio indica que a relação com Deus exige um abandono das nossas referências exclusivamente imanentes, exige uma renovação, uma transformação apenas possível pela acção divina interveniente no nosso viver. Abraão deixa de ser Abrão (pai da altura) para ser Abraão (pai de uma multidão, sendo sintomática esta intercalação de um som aspirado indiciador do sopro do espírito divino na natureza humana) e Sara deixa de ser Sarai e passa a ser Sara (princesa). E de novo, numa sociedade em que a mulher era considerada propriedade do homem e como ser sem alma, esta elevação da sua dignidade é sintomática.

No terceiro elemento da promessa/herança abraâmica, a bênção, temos toda uma teologia e programa de acção. A lei da causa e do efeito presente em todas as relações do homem que se movimenta numa tripla dimensão – consigo próprio, com o seu semelhante e com a divindade. Um apelo não apenas à obediência, mas à responsabilidade individual e colectiva, com uma origem inequívoca e insubstituível. Nos pactos subsequentes que complementam esta promessa divina, sem negar a ligação íntima e intrínseca entre causa e consequência, entre obediência e transgressão, a tónica é colocada indiscutivelmente na bênção resultante da actuação em obediência alicerçada e avalizada pela fidelidade divina. A bênção, o favor, a graça, a misericórdia de Deus tornam-se extensíveis a todos quantos entrarem em contacto com o recipiente da promessa divina. A tónica é colocada na bênção e não na maldição, porque Deus não tem prazer na destruição da sua criação, conforme ecoa o profeta Ezequiel (33:11, “A Bíblia para Todos”) – "Diz-lhes que, tão certo como eu ser o Deus da vida, lhes garanto que não tenho prazer em ver um transgressor morrer. O que eu gostaria era de o ver deixar de pecar e viver."

Este, num registo extremamente sucinto, o conteúdo da promessa de Deus a Abraão a qual, a partir do momento da sua recepção e aceitação se transforma na herança que o patriarca lega a todos os seus descendentes.

Abraão teve vários filhos de diversas mulheres. Podemos classificá-los em quatro categorias, indicado pela ordem do seu aparecimento:

Os filhos da servidão, representados por Ismael, filho da escrava Agar;

Os filhos da promissão, simbolizados em Isaque, filho da amada esposa de Abraão, Sara;

Os filhos da solidão, consubstanciados nos filhos da concubina Quetura, após a morte de Sara que, sem dúvida, deixou no coração de Abraão um vazio difícil de preencher;

Os filhos da adopção, reflectidos em todos quantos, em todo o lugar, aceitam colocar-se em obediência ao Deus de Abraão, mesmo sabendo não terem qualquer direito de primogenitura, adopção essa que se obtém, segundo as Escrituras, apenas e só através do acto de amor de Cristo Jesus por todos nós quando se entregou no altar do Calvário a uma morte vicária, pela qual, pela pena do apóstolo Paulo, podemos agora aproximar-nos de Deus e chamar-Lhe Pai.

Cada um destes tipos de filhos representa um sector da humanidade com características próprias e todos em conjunto constituem a humanidade na sua totalidade. Todos eles são herdeiros da herança deixada por Abraão à sua posteridade. A herança é a mesma, mas a forma como ela é vivida, transmitida e em alguns casos imposta, depende da condição em que cada filho se insere, condicionando toda a sua cosmovisão, o seu estar-no-mundo, o seu estar-com-o-outro.

Os filhos da promissão assumem o seu estatuto de filhos legítimos e é-lhes tentador considerarem-se os únicos com direitos absolutos à herança, numa atitude e visão legalista da sua condição que os faz considerarem-se os eleitos entre os eleitos, a nata da nata da sapiência e da resistência. Um filho da promessa sabe que é filho e comporta-se como filho com uma atitude de temor reverencial para com o pai.

Os filhos da escravidão não conseguem eximir-se a uma mentalidade de fatalismo que a curto ou longo prazo os reduz a uma posição de subserviência, de inferioridade, de perseguidos pelos que se consideram senhores. Um filho de escrava nunca pode encarar o senhor como pai, mas sempre como senhor, como dominador, cuja vontade final é desconhecida do filho.

Os filhos da solidão não conseguem escapar à angústia do niilismo, ao desespero de quem encara e considera a vida sem sentido. Um filho da solidão considera-se sempre resultado de uma segunda opção em que a razão de viver não é o amor mas a necessidade. Um filho da solidão encara o pai como ausente ou não existente.

Os filhos da adopção sabem que são filhos não por direito de primogenitura, mas em resultado de um acto de amor, de entrega e de dedicação. O filho da adopção sabe que não merece o estatuto de que goza e que lhe foi outorgado por um acto voluntário de entrega a ele estranho. O filho da adopção conhece o sabor da gratidão e encara o pai como aquele que tudo fará para o salvaguardar.

Para além da herança comum, cada um destes grupos de filhos depende da palavra, reduzida a livro, que se torna repositório de toda a sua práxis e ethos. E essa palavra, que reflecte a condição do filho, perpetua não apenas a herança, mas a forma como cada um a encara, a vive e a transmite.


A herança, repetimos, é a mesma, mas a forma como a vivemos, a transmitimos e por ela nos inter-relacionamos depende da interiorização da nossa condição face ao pai de quem somos herdeiros. Essa condição condiciona a nossa cosmovisão, condiciona a forma como vemos o outro, condiciona o nosso modelo de sociedade, condiciona a nossa relação com o transcendente. Cabe a cada um de nós decidir qual o nosso estatuto de filho.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

A Queda humana e o nascimento da Esperança


“A poesia, a mais intima, é serva da esperança e esperança é transcendência. 
É a grandeza das pequenas coisas, o que não se corrompe”.
Adélia Prado

De nossa rebelião contra Deus originou-se a Queda; de nossa imediata rebelião contra a Queda originou-se imediatamente a Esperança.
Metaforicamente, a Queda deu-nos esses filhos: Caim e Abel, Morte e Esperança.
Se a Esperança é essa menininha tão forte, tão experimentada nos combates, ‘a última a morrer’, como assevera o ditado, é simplesmente porque ela nasceu em nosso dia mais negro, nossa noite mais densa, e como já falei em outro lugar, ela é plantação de Deus: a Queda a regou e fez germinar.
Sim, você pode fugir da especificidade da metáfora e tornar para a literalidade, você pode dizer: “Mas Caim matou Abel”. E eu lhe direi: Sim, e Caim não venceu; apenas deu o start, deu início à partida. Partida que foi vencida por um nazareno. 
Mas a guerra, vencida, continua: há bolsões de resistência e enclaves onde apenas o inimigo faz-se presente. A guerra precisa ser levada até eles; levada a todos os rincões. Para cada povo, língua e nação. E então, sim, virá o fim. Com o retorno do Filho do Homem, ou seja, o Filho da Esperança. Filho do Homem, Filho da Esperança: agora você pode entender melhor esse nome?

Sammis Reachers

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Sobre a eficácia da solidão

Vanderlei Assis

A solidão é como uma dimensão paralela, conquanto a todos manifesta, cujas paisagens duplamente mudas e dolorosa ou pacificamente estáticas podem ser apreciadas apenas por muito poucos espíritos. Ela é o primaz e fundamental campo de reflexão; seu divã, sua moldura, sua própria câmara de maturação. E câmara de maturação do Homem. Daqui decorre o instintivo medo de tantos em relação à solidão: seu medo é o medo da criança em relação à idade adulta. Medo da expansão (como ocorre no câncer, crescer pode não ser também perder o controle?), pois na contrição da solidão na verdade expandimo-nos para ocupar espaços. Espaços nossos que precisam de nós.

E como se pode plenamente valorizar a comunhão se não experimentamos profundamente sua negação, sua antítese? Quão ‘doce’ a água se afigura para aqueles que suportaram prolongada sede!

E aqui está o fruto da sabedoria: o quanto se aprendeu sobre o tempo em que é possível a um homem viver com ela – conhecimento antes desconhecido ou subavaliado! O quanto o homem suporta de solidão: tal conhecimento inaugura com chave áurea as reflexões socráticas do “conhece-te a ti mesmo”.

Sua Bíblia pode lhe ajudar aqui com um versículo, amigo leitor: "Bom é para o homem suportar o jugo na sua mocidade; assentar-se solitário, e ficar em silêncio; porquanto Deus o pôs sobre ele." (Lm 3.27,28).

No mais, dizia Shakespeare, mestre do trágico (mas que sábia ou temerosamente evitava em sua obra os temas teológicos): “Estar maduro é tudo.”

Um abraço do Sammis

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

KIERKEGAARD e a pedagogia do Desespero no eu humano


por Júnior Fernandes[1]


[...] se a tua vida foi ou não de desespero e, se, desesperado, tu ignoravas sê-lo, ou soterravas em ti esse desespero, como um segredo angustioso, [...] que pode então importar o resto! Vitórias ou derrotas, para ti tudo está perdido, a eternidade não te dá como seu, ela não te conheceu ou, pior ainda, identificando-te, amarra-te ao teu eu, o teu eu de desespero!
Kierkegaard, O Desespero Humano



            “Algum dia, não somente os meus escritos, mas até a minha vida e todo complicado segredo do seu mecanismo serão minuciosamente estudados”. Isso foi o que Kierkegaard previu para posteridade. Em vida foi um pensador esquecido, a filosofia hegeliana ofuscava qualquer brilho que cintilasse de um filosofar existencial. Hegel era moda à época. Não havia espaço para preocupações existenciais; assim, Sören Aabye Kierkegaard foi um filósofo solitário e esquecido de todos. Para fazer valer sua previsão, financiou seu próprio pensamento com a herança que o pai lhe deixara. Sua Obra compreende uma diversidade de escritos que permeiam o labirinto da alma humana: angústia, desespero, fé, pecado, singularidade são alguns dos temas da verve kierkegaardiana. Como nos diz France Farago, “sua obra é uma obra de iniciação à vida, aos caminhos que se deve percorrer no tempo para encontrar o que ela esconde de eternidade.”[2] Dado esse multifário temático, tentaremos abordar aqui o ser no mundo, marcado pelo desespero – a doença mortal, no dizer de Kierkegaard.

            Para o filósofo dinamarquês, a existência é como que uma escada, onde no primeiro degrau temos a fase estética; no segundo, a fase ética; no último, a religiosa. São os estágios existenciais, onde o existente pode ou não galgar o degrau superior. Segundo Kierkegaard, o desespero acompanha o homem em toda sua vida, isto é, em qualquer estágio em que ele se encontre; basta-lhe ser consciente de que é um indivíduo, um ser existente no mundo. No entanto, no estágio religioso, há uma possibilidade de cura para essa doença mortal. “O homem em estado de desespero, verifica que se desespera não de fatos contingentes, mas de si mesmo. O desespero kierkegaardiano constituiria, portanto, o fato de o indivíduo ver-se confrontado com a vacuidade, o vazio, que não pode ser preenchido pelos prazeres estéticos, nem pelas obrigações éticas.”[3]

            No estágio estético, o indivíduo vive apenas o instante, ou seja, aquilo que traga prazeres imediatos. Aqui, ele busca incessantemente fugir do tédio, do nada e, consequentemente, do vazio da vida.  Entretanto, quando tais prazeres se acabam – ei-lo em desespero. Este, na verdade, já estava presente em seu ser, só aguardava o momento de ressurgir e agravar os seus sintomas. Entretanto, quando a crise passa e o desespero mitiga em estado letárgico, volta o indivíduo, noutro instante, a viver – para usar uma tipificação kierkegaardiana – como um Don Juan; mal sabe ele que “em cada instante que desesperamos apanhamos o desespero”[4]. É uma “bola de neve”.

            Naturalmente um desesperado desse naipe vive especulando as situações mais prazenteiras; seu mundo de conveniências, apenas contribui para o não conhecimento de si; assim, vive em um constante escapismo dos sofrimentos que a vida lhe apresenta.
           
            “À medida que o homem – diz Leda Hume – vai se desencantando de suas ilusões, próprias ao mundo dos sentidos, ele vai adquirindo mais consciência da existência nas suas profundas contradições. Mas nem sempre isso significa libertação.”[5] Ao adquirir consciência, esta lhe faz notar a sua situação no mundo e a resultante disso será o possível aumento do desespero; assim, “a intensidade de desespero aumenta com a consciência”[6], ou seja, a consciência é o termômetro dessa febre mortal.

            O estágio estético precede o ético, sendo este um degrau superior em relação àquele. Para Kierkegaard, um dos sinais do estágio ético é o matrimônio. O casamento qualifica o indivíduo como ser responsável, aparentemente dotado de certa responsabilidade. Apesar disso, Kierkegaard não se casou. Viveu, como dissemos antes, solitariamente. O matrimônio é a noção do viver ético. Assim, o homem ético “tem, por exemplo, uma profissão sólida [...] e mantém um casamento; ele se realiza, portanto, na responsabilidade dos compromissos escolhidos [...]”[7]. Esse momento é evidenciado com mais intensidade na obra Temor e Tremor, que analisa a questão ética sob o prisma paradoxal da obediência-morte versus desobediência-vida; neste livro, Kierkegaard põe em apreço a fidelidade do patriarca Abraão, quando este recebe de Deus a ordem para executar, em Morija, seu filho Isaac. Claro que Abraão foi tomado pelo desespero, ao decidir pelo sacrifico: “quando se voltou para puxar a faca, viu Isaac que a mão esquerda do pai se crispava de desespero [...]”[8]. No entanto, Abraão vale-se da fé para transpor as divisas da ética e galgar o degrau do estágio religioso.

            Assim, em Temor e Tremor, Kierkegaard analisa através da esfera religiosa o problema da fé, onde o patriarca bíblico é confirmado como homem-modelo; visto que, mesmo diante da possibilidade aparente de destruir a semente de sua prole, prefere obedecer a Deus. Abraão a princípio não sabia o intuito de Deus: pô-lo à prova. No entanto, preocupou-se em obedecê-Lo, pois cria que, em meio ao paradoxo, Deus cumpriria a promessa que o faria pai de uma grande nação.
           
            Abraão, como vimos, escolhe o paradoxo, ou seja, supera o estágio ético da vida quando opta por obedecer a Deus sacrificando Isaac, seu filho. Aqui o desespero serviu para fazê-lo sentir que existia no mundo; a fé, porém, o remete para o face a face com Deus – a existência sublime.

            No plano teológico o patriarca não pecou, pois preferiu a obediência. No ético, porém, se houvesse a consumação do sacrifício, sobre Abraão descansaria o estigma de um criminoso. Certamente, isso seria para os céticos, passagem predileta das Escrituras para condenar o ato abrâmico. Todavia, a hipótese ética, nesse sentido, está fora de cogitação. Desse modo, ao obedecer, Abraão supera o plano ético da vida para, através da fé, “cair nos braços de Deus”.
           
O estágio religioso, evidenciado pela fé e o absurdo, denota o lado autêntico da existência; e esse existir verdadeiro é acentuado intimamente pela noção do pecado. Assim, a existência autêntica para Kierkegaard é a do cristão. Existir é viver para Deus; por isso, quanto mais consciente da ideia de Deus, mais o eu concretiza-se e torna-se infinito. Nesse estágio, o que leva o indivíduo ao desespero é a sua percepção do pecado. Esta noção de pecado é a consciência do próprio temor que este eu-teológico tem de pecar. É por isso que Kierkegaard diz que “o desespero é o primeiro elemento da fé”[9], e esta aponta para Deus como alívio dessa perturbação do espírito; no entanto o homem agora desespera por estar consciente de um eu perpassado pelo pecado.

            Devemos enfatizar e alertar que Kierkegaard é um pensador religioso. Acima de tudo defensor de um cristianismo puro e autêntico. Ele é considerado por alguns um Santo Agostinho contemporâneo. Entretanto, esse cristianismo que nosso filósofo defende não é aquele apresentado pela Igreja dinamarquesa de seu tempo, com quem rompeu e polemizou. Nem tampouco, esse que é pintado hoje, na forma de exploração mercantilista da fé. Com efeito, quantas seitas, movimentos secretos de tendência proselitista, religiões “cristãs” ou não, ao perceberem as pessoas sem esperanças, tomadas pelo desespero, apresentam e negociam seus “pacotes” de salvação? O cristianismo do filósofo do desespero é outro.

            Numa concepção kierkegaardiana, “‘tornar-se cristão’ outra coisa não é senão assumir a tarefa de apropriação existencial, vivida, daquilo que Cristo queria dizer já durante sua vida, quando se queixava de não ser compreendido [...]”[10]. Ou como cita Hohlenberg  uma passagem em que o próprio Kierkegaard refere-se a uma entrega total a Cristo: “Está lançada a sorte – atravessei o Rubicão. Certamente este caminho me levará à luta, mas não renunciarei. [...] Quero correr pelo caminho que encontrei e gritar a todos aqueles que encontrar: Não olhe para trás, como a mulher de Lot, mas lembrar-se de que estamos subindo uma ladeira”[11]. É assim o cristianismo kierkegaardiano: um salto de fé, uma paixão pelo paradoxo absurdo.
           
            Assim, o cristianismo autêntico requer um salto, como aquele que Abraão deu e fez com que o seu eu tornar-se “elevado a uma altitude, a uma potência superior.”[12] Eis o irracionalismo kierkegaardiano: o salto de fé.

            Com efeito, parecer-nos-á irracional, por exemplo, pularmos do último andar de um edifício em chamas, quando a razão nos aponta uma possibilidade de escape por meio de uma engenhosidade humana, mesmo que lá embaixo estejam nossos pais a clamar: “salte meu filho!” No entanto, se é uma criança que está no andar em chamas, basta somente que a mãe diga: “salte meu filho, nos meus braços, e estarás a salvo!” Logo a criança salta. Viver autenticamente em Cristo, portanto, é uma entrega total, um salto de fé para estar Nele.
           
            Em Kierkegaard, a fé, portanto, é o elemento que nos remete a Deus. Por meio dela a consciência do eu fervoroso eleva-se ao conhecimento de Cristo. Desse modo, o salto de fé transpõe o abismo da razão e do pecado, e conduz a Deus.

            Deduz-se que a existência autêntica é aquela que nos eleva a Deus pela fé em seu filho. Esta certeza não permite ser demonstrada em uma fórmula, ou no raio de uma lente microscópica, pois a fé prescinde toda probabilidade factual. Ela, pois, derrete o gelo da razão.

            Talvez tenha sido isso que levou Wittgenstein a dizer que “um pensador religioso honesto é como um equilibrista em corda bamba. Quase parece que ele está andando sobre o nada, apenas ar. Seu apoio é o mais escasso imaginável. E mesmo assim é possível andar sobre ele.”[13]

            Em suma, poderíamos, para melhor esclarecer, sistematizar da seguinte maneira: No homem de viver espontâneo, imediatista, para quem o pecado é apenas um troféu de suas proezas, o efeito do desespero é letal. No homem cristão, o desespero é um trampolim que o impulsiona em seu salto de fé. Desse modo, duas idiossincrasias, portanto, devem ser ponderadas a respeito do desespero: fé e pecado.

            Kierkegaard não fez apologia ao desespero, mas o identificou nos indivíduos como um sinal da existência do homem à deriva no mundo. Como possibilidade viável para cura desse mal, apresentou como “cavaleiro da fé” a mensagem de um cristianismo autêntico, livre das amarras mercantilistas e promessas de um falso paraíso. Por fim, registro aqui o desfecho de sua vida, quando aos 40 anos sofreu um colapso que o deixou com a metade inferior do corpo paralisada; pouco depois de um mês, sofreu outro ataque que o levou à morte. Não pediu, contudo, que em sua lápide fosse gravado o epitáfio “Aquele solitário”, conforme havia registrado em seu diário, mas a estrofe de um hino religioso:
           
            “Falta pouco,
            para eu vencer.
            Então todos os conflitos
            estarão terminados.
            Poderei descansar, então,
            no vale das rosas,
            entretendo-me sempre
            com Jesus.”[14]


BIBLIOGRAFIA


FARAGO, France. Compreender Kierkegaard. Trad. Ephraim F. Alves. Petrópolis-RJ: Vozes, 2006.
GARDINER, Patrick. Kierkegaard. Trad. Antonio Carlos Vilela. São Paulo: Edições Loyola, 2001.
HELFERICH, Christoph. História da filosofia. Trad. Luiz S. Repa; Maria E. H. Cavalheiro; Rodnei do Nascimento. São Paulo: Martins Fontes, 2006.
KIERKEGAARD, Sören. O Desespero humano. Trad. Alex Marins. Porto Alegre: Marin Claret, 2002.
___________________. Temor e Tremor. Trad. Maria José Marinho. São Paulo: Abril Cultural, 1979 (Col. Os Pensadores)
REZENDE, Antonio (org.) Curso de filosofia. 10. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2001.



[1] Graduado em filosofia. Advogado. Prof. de filosofia na rede pública de ensino do DF. Autor dos livros O Sofrimento dos Filósofos e Trevas Trovões Trovas: escritos de uma noite escura (este, não publicado). Para citar o autor, use a referência: PIRES JR. J. Fernandes. 
[2] Compreender Kierkegaard, p. 20
[3] CHAUÍ, Marilena de Souza. Kierkegaard, vida e obra, XII – (Col. Os pensadores)
[4] KIERKEGAARD, Sören. O Desespero humano, p. 23
[5] In: REZENDE, Antonio (org.). Curso de filosofia, p. 210
[6] KIERKGAARD, Sören. Op. cit, p. 49
[7] HELFERICH, Christoph. História da filosofia, p. 336
[8] KIERKEGAARD, Sören. Temor e tremor. p. 115 (grifo nosso)
[9]   Idem, O Desespero humano. P. 74
[10]  FARAGO, France. Op. cit, p. 185
[11] In: Idem, Ibidem, p. 42
[12] KIERKEGAARD, Sören. Op. cit., p. 105
[13] Apud GARDINER, Patrick. Kierkegaard, 128
[14] HELFERICH, Christoph. História da filosofia, p. 337