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quinta-feira, 18 de maio de 2017

À ENTRADA DA TERRA DO LEITE E MEL




(Livro de Números, XIII )

Como os olhos dos doze às portas do leite e do mel
o desânimo vai ter olhos e as alegrias diante das videiras
de enormes cachos serão menores que o medo
o desânimo fará aumentar nas retinas
a estatura dos homens, gigantes como colossos
ocupam  as portas, o medo bate nos olhos
o desânimo aconselha cuidados,  regressar
às areias do deserto, à cabeça escondida na areia
e às sombras dos pequenos arbustos, não temos
ainda braços para abraçar a Terra Prometida.

16-05-2017

©  J.T.Parreira

sexta-feira, 22 de abril de 2016

O QUE DISSE UM DOS MALFEITORES



A caminho da morte não falou,  a sua boca
reservava-se ao silêncio divino,  dentro da alma
chorava talvez. Assim vi o melhor espírito de Israel
consumido pela dor
numa cruz, vestido do seu próprio sangue
atravessando  o coração do Pai.
Ao meu lado a arrastar a voz ferida
a deixar no ar palavras de perdão.
Digo
aquela cruz não era para um Deus, eu que sou
um malfeitor a quem  Ele deu uma rua de ouro
no Paraíso.

08-10-2015


© João Tomaz Parreira

segunda-feira, 13 de julho de 2015

MAGNIFICAT



Eu quero este filho que o céu plantou
No meu ventre, que desceu ao mesmo tempo
Que as palavras do anjo, com a agitação
Da luz nas cortinas no meu quarto
Ele terá o andar de Deus quando pisou o Éden
Terá o andar de Deus sobre a terra, terá nas mãos
E nos pés todo o poder
Pela força clara do sangue que virá
Da sua grande ferida
Eu quero este filho, que o meu ventre
Virgem já enlaça, humilde ventre entre as mulheres
Ele encherá de alegria as multidões
Entre o silêncio e a agonia.


13-07-2015
© João Tomaz Parreira


quarta-feira, 15 de abril de 2015

É TERRÍVEL SER O SENHOR



“Καὶ ὁ λόγος σὰρξ ἐγένετο καὶ ἐσκήνωσεν ἐν ἡµῖ “
(E o Verbo se fez carne e habitou entre nós)
J. 1,14

É terrível ser o Senhor e estar sentado à mesa
entre os homens, subir a crosta da terra
até ao cume onde já foram contados outros
malfeitores, andar entre os leprosos com a carne
diáfana e pura de ser Deus, partilhar
de todas as manhãs como artesão do sol
É terrível ser o Senhor entre cegos
e andar eterno no limite temporal.

14-04-2015
© João Tomaz Parreira 


segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

PASTORAL (Inédito)




O bom pastor discerne as minhas pegadas de outras pegadas
Perante o modo como me julga, pouca importa
O tamanho do Oceano Atlântico ou dos Mares do sul
Com  suavidade e a dureza
Dos seus ombros, vem ter comigo
Quando alguma coisa me empurra para baixo
Ou quando o medo cresce nas sombras, são suficientes
Os seus olhos sobre mim, são a arquitrave
Que suporta o peso do céu de um dia pleno de sol
Ou de tempestade.


26-01-2015

© João Tomaz Parreira 


terça-feira, 6 de janeiro de 2015

A ODE DO PROFETA HABACUQUE




Ainda que a figueira não perca o equilíbrio
Porque não tem figos, nem as vides mostrem o fruto
Da alegria, ainda que falhe
O azeite nas oliveiras, que a vida morra
No rebanho e o silêncio ocupe o espaço dos currais
Espantar-se-á  o mundo com o meu prazer
Em Deus que fez a minha salvação
E na dádiva incrível de asas de corça nos meus pés.                                  

06-01-2015

© João Tomaz Parreira   

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

O CALVÁRIO





Morreu esta tarde, por três dias,
às três num monte à beira da cidade.
Inclinou o seu espírito às últimas palavras
que seus lábios entregaram aos ouvidos
dos homens e de Deus, da mãe
não chegariam as mãos para o tirar da cruz.
Do lençol de linho de José de Arimateia
-só é certo que lhe deu o sepulcro- não se sabe,
qualquer teologia que diga que ao morrer
às três da tarde, por três dias, tinha nos lábios
um sorriso, sabemos pelas feridas da morte
que não é verdade, ninguém
morre pelo ódio do seu povo e sorri.
Morreu com o tempo marcado, o relógio
do sol marcaria na porta do sepulcro
a manhã de sábado,  depois outra manhã viria
limpar da noite as sombras, para que o branco
Corpo intocável mais brilhasse.


14-12-2014
© J.T.Parreira

(Arte: Tela de Salvador Dali)

quarta-feira, 2 de julho de 2014

BLUES PARA UM FUNERAL



(Jan Wildens, 1640, Caminho de Emaús)


                                          
Poema de Wystan Hugh Auden ( W.H.Auden, Inglaterra, 1907-1973)


Parem os relógios, cortem o telefone,
atirem ao cão um osso sumarento,
um lençol de silêncio sobre o piano e os tambores
precedam o caixão, com carpideiras.


Que os aviões, gemendo por cima do cortejo
rabisquem no céu a mensagem Ele Está Morto.
Ponham laços negros no pescoço das pombas
e os polícias respeitem o dia com luvas brancas


Ele era o meu norte e o sul, meu leste e o oeste,
minha semana de trabalho e meu domingo,
era o meu dia e a noite, a minha voz e o meu cântico;
eu pensei que o amor era eterno: E enganei-me.


não procurem mais as estrelas, apaguem-nas,
empacotar a lua e desmantelar o sol é o que resta,
despejem os oceanos e derrubem as florestas;
pois nada mais será bom como foi antes.

01-07-2014
                                                                                
Versão livre minha ©  João Tomaz Parreira 

Nota do tradutor: O que diria um dos discípulos de Emaús

quinta-feira, 8 de maio de 2014

O rio cujo nome ignoramos



Por vezes, como o tigre de Jorge Luís Borges
passamos pela margem do rio
cujo nome ignoramos


pode ser a Morte
ou a Manhã futura, forma clara
que se move desde o Arché
em que Deus está, é aqui


que os nossos olhos se repartem
olhar o abismo sob a água
ou deixarmos que corra
à superfície da frescura, o rasto
do odor que se segue até ao mar.


2/5/2014
João Tomaz Parreira

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

LES MAINS SALES









Mãos sujas pelas lamas da vida
sujas como raízes da terra
mãos sujas, mas não obscuras
mãos do momento inicial
da argila, que copiam o trabalho do dia sexto
da criação divina.

Sujas
mas de amassar as águas com o barro
mãos que não se apertam
com os cotovelos junto ao corpo
mãos sem medo
da água fria, não têm tempo a perder
porque a noite elide cores e desafios
de toda a bondade sobre a terra

Mãos que não se escondem
porque não é a vergonha a sujidade
há outras mãos sujas, essas são
apesar do cristal opaco que as calça.

O que estas mãos sujas manifestam
fechadas em concha
sobre um rosto, a claridade !  


11-02-2014

© João Tomaz Parreira  

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Andar sobre as águas




Sob os seus pés, os átomos da água
rendiam-se, o mar não tinha fundo
voava
como as aves que não pesam sobre as árvores
o mar dormia sob o peso divino
com o mesmo silêncio do veludo.
 
30-12-2013
© João Tomaz Parreira

Publicado inédito aqui: http://ovelhaperdida.wordpress.com/2013/12/31/andar-sobre-as-aguas-inedito-de-j-t-parreira-a-fechar-2013/

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Chegou o Menino



Veio de longe, chegou o Menino que veio de longe
do ventre da mulher. Chegou um homem
que pelo frio do estábulo gemeu
as sílabas profundas de um vagido.

Chegou um menino
que deslocou o centro do céu para o mundo

Chegou de longe Deus, a carne nua
com um coração humano, igual ao meu
igual nas artérias e nas veias a qualquer judeu
e com deltas
onde o sangue desagua.



18/12/2013
© João Tomaz Parreira

(Imagem do Facebook - Desert-rose)

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

DEUS NA CRUZ


Os Teus olhos poderiam ter feito
mudar o curso dos rios, o sol derreter
as areias do deserto
poderia ter sido um sinal
do abandono entristecido
a Tua voz poderia desfolhar as árvores
na Primavera, porque na cruz
tinhas o Filho
que estava sem abrigo.

 © J.T.Parreira




domingo, 20 de outubro de 2013

Ingenuidade



Quando chegamos à nossa nova casa
sem paredes de tijolo e estuque
rodeada de arame onde suspendemos as estrelas
apertando ao peito o frio
ainda acreditamos
que nos dessem o maná
como Jeová no deserto aos nossos pais.



14/10/2013
 © J.T.Parreira

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

TE DEUM






“Not because of victories
I sing”
Charles Reznikoff


Não canto por causa de victórias,
tenho tido poucas,
mas pelo brilho do sol que nasce
para todos os olhos, que pode cegar
de beleza todos por igual,
louvo por causa do que a brisa dá,
movimentos graciosos
às flores, na primavera frágil.
O meu hino não é pelas minhas vitórias
mas pelo meu dia de trabalho feito
ó Deus, até entre as ruínas.

5/10/2013
© J.T.Parreira

("Ruinas de Eldena", 1825, Caspar Friedrich)
 

segunda-feira, 22 de julho de 2013

MODO DE VER NO MUNDO



A máquina de escrever é sagrada/ o poema é sagrado”
Allen Gisnsberg


O naipe de instrumentos do Salmo 150 é sagrado
A distância que vai da minha alma
ao céu é sagrada, O pó da terra
que David levantou diante da Arca a dançar
é sagrado, A dança é sagrada
Os cordeiros que deram os seus últimos
balidos no Egipto são sagrados
As águas do Jordão são sagradas, O mar
da Galileia que suportou o peso do Eterno
é sagrado, tudo o que foi criado
todas as formas da criação são sagradas
até as portas da morte
do Salmo nove são sagradas.

© João Tomaz Parreira 

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

GAZA


No caminho para Gaza
tudo será diferente, encontrarás
explicação, das metáforas de Isaías
a visão será real nos teus olhos
já nascido o Menino
foi belo, até a beleza se perder
do rosto no Calvário.

16/1/2013
©  J.T.Parreira

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

O ÚLTIMO SALMO (CL)



 
Não iria demorar-se muito
o silêncio
nos cantos dos lábios

as palavras como o som
de uma fonte alegre

o fôlego nas trombetas
e os dedos
límpidos nas liras, será hoje
uma respiração diferente.

10/12/2012

© João Tomaz Parreira

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Os Discípulos de Emaús

Estavamos sentados. Os olhos

convertidos às suas mãos

quando partia o pão

no escuro

abrindo-nos a luz.


25/7/2012

© J.T.Parreira

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Novo livro de poemas ( a sair)





SALMO 4

A alegria de Deus
não é a alegria dos trigos abundantes
nem das uvas cheias de vinho
é muito mais
alimenta o sangue que entra e sai
no nosso coração
Todos os que buscam o que é falso
desconhecem esta verdade
e por isso a insónia
não lhes desce as pálpebras. 

© João Tomaz Parreira