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quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

SALMO DE NATAL


Alexey Kondakov  "Le Chant des Anges", de Bouguereau


Meu Deus, Meu Deus, por que nos abandonaram
Nestes lugares vazios?
Em trânsito de Belém da Judeia  para o mundo
Circunscrito dos homens, viajando
Em todos os comboios, com o sono
Do Menino em sobressalto, com anjos
Sem sapatos, que adormecem os ouvidos
Do Menino e de Maria
A tocarem nos intervalos do silêncio
Um glória a Deus na terra da alegria.


07-12-2016


© João Tomaz Parreira  

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

PARA ENCONTRAR A CRIANÇA ENVOLTA EM PANOS





Deus pôs no céu a mão a guiar uma estrela
No meio de lugar nenhum
Que é o espaço indecifrável da noite
A luz era o único lugar visível, não se via
A mão que a guiava, foi com surpresa
Que a viram estacionar os anos-luz
Sobre um discreto estábulo de Belém.


18-12-2015

© João Tomaz Parreira

domingo, 11 de outubro de 2015

SALMO 137 DO SÉCULO PASSADO






Sentávamo-nos junto aos muros do gueto de Varsóvia
e chorávamos com uma estrela no peito,  nas sombras
dos casacos rotos, pensando
que éramos o povo escolhido.  Deus
estava em Jerusalém e lá pendurámos  nossas preces.
Os que nos tinham feito prisioneiros pediam-nos
que cantássemos com a nossa boca
cheia de pão negro, aqueles que nos haviam de destruir
queriam a nossa alegria. Mas como era possível
que entoássemos outro cântico senão um kaddish
pelos mortos? O canto do Senhor em terra estranha.
Se tu, Senhor, te esqueceres de nós, seremos harpas
partidas e as nossas cinzas voarão pelos ares
como um silêncio.

10-10-2015


©  João Tomaz Parreira  

terça-feira, 4 de agosto de 2015

VIAGEM



Não nos ajoelhamos nas margens
do Mar, mas nossos joelhos tremiam
com o chão pela cavalgada dos egípcios
O que seria de nós diante
das vagas fechadas do Mar Vemelho
se a vara de Moisés não esculpisse
nas águas moles dois muros de vidro.
Até hoje 
nunca nos ajoelhamos
nem no Muro das Lamentações
nem à entrada das câmaras da morte
onde uma água falsa nos removeria
a vida.  


04-08-2015
©  João Tomaz Parreira


segunda-feira, 22 de junho de 2015

a Mulher

    (Nicolas Poussin, Louvre, 1653)

              
onde estão, Mulher, aqueles teus acusadores?
que vieram escondidos atrás das sombras
como falsificadores de Moisés, onde estão
aqueles que escutaram  através das paredes,
que não vêem
senão a carne dos dramas alheios, os que trazem
o incenso do sexo na cabeça
e  denunciam o que pode ser um amor
errado, mas ainda assim amor.
onde estão, Mulher, aqueles acusadores
que se vestiram com vestes empertigadas
para o solene cortejo, para te levarem ao cúmulo
das pedras, onde estão agora
aqueles que usaram na voz a volúpia rasteira,
todos aqueles que medem tudo com o ranger
dos dentes da sua santidade?

22-06-2015

© João Tomaz Parreira

quinta-feira, 11 de junho de 2015

O SALMO 8 POR UM POETA SECULAR




Não se pode averiguar o peso quântico da eternidade
Na oficina celeste, todos os anjos reunidos
Não sabem a mais leve partícula do nome Deus
Não há espaço no Céu para conter Deus
Todo o Céu fica aquém, só as Suas mãos
Que fazem e desfazem astros estão para lá de tudo
O que nos adormece em segurança quando olhamos
O Espaço, quem somos nós para limitar Deus ao quarto
Onde dobramos os joelhos e citamos várias vezes a nossa vontade
E contudo
Não sendo o Seu corpo que habita nos templos
Feitos pelas mãos dos homens
Só o Seu olhar  agrega-nos a todos como um alvo
Do Seu Amor no fio do horizonte.

09-06-2015

©  João Tomaz Parreira 

domingo, 10 de maio de 2015

SHOAH




os faraós não o fizeram
os babilónios também não
queriam apenas que cantássemos canções
dos nossos pais, os judeus

teríamos um papel único na morte ocidental
os judeus iriam deixar de existir, gritavam
nas praças do ódio as multidões
no dorso dos cavalos das Valquírias

ficariam apenas os vestígios
dos nossos óculos cegos, dos cabelos
emaranhados de Medusa

e dos  sapatos como um monte de Sião
o nosso coração já não teria mais espaço
onde repousar  todos os mortos

10-05-2015
© João Tomaz Parreira 

segunda-feira, 30 de março de 2015

O QUE DISSE DAVID NA CORTE DE SAUL


(Rembrandt, "David tocando harpa para o rei Saul", c.1630/31)



“David tocava harpa, e a dedilhava; então Saul sentia alívio”
I Livro de Samuel, 16,23



Dai-me o coração de Saul e farei dele uma harpa
E aliviarei com ela os pensamentos de sangue,
Uma harpa apaziguadora,
E tirarei as sombras dos seus olhos. Depois
Dai-me uma funda e com ela partirei o ar,
Cinco pedras vivas
E conquistarei um gigante e farei um reino.


30-03-2015
© João Tomaz Parreira

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

SOZINHO NO JARDIM




A morte preparava os raios da próxima manhã
Ele está acordado, a única maneira de ascender
Ao Pai, no escuro
É  a oração, em forma de um cálice de agonia
Se fosse possível passar, pediu com os olhos
Afastando as sombras do jardim
Pôs-se triste, ao tocar no silêncio
Dos discípulos que dormiam. 

19-02-2015
© João Tomaz Parreira 

  

sábado, 7 de fevereiro de 2015

POEMA


Apocalipse, 22, 1-5

Há um rio que se chama cristal, o brilho
Das folhas aladas da árvore cobre,
De margem a margem, o rio como um céu
Esse rio chamado cristal repousa
No fundo do Apocalipse, não há mar
Esse rio sabe-o e espera que a cidade se habite
De santos e de anjos e dos maravilhosos olhos
Do Cristo
Nela se multiplicam mil anos.
Por cada dia que não passa.

© João Tomaz Parreira





quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

A ESTRELA

(Foto da NASA)



“No cerne da solidão / os olhos de Deus”
Joanyr de Oliveira



Se vier, virá do cerne da solidão, do deserto
Das areias cósmicas, do pó esplendente
Dos cometas, se vier
Ancorará cansada o seu vórtice misterioso
No topo do mundo, no sono
Das crianças, nos ramos dos pinheiros, alçará
Os fonemas da alegria, se vier
Será matéria para contar aos netos dos futuros netos

Matéria disparada do etéreo, povoa
O silêncio da noite, estrela que se revela do rebanho
De outras estrelas, o seu canto
Só os anjos acordados à sua própria voz
Conhecem.  Mas canta realmente
Depois de milénios a fio muda?  O frio
Por onde passa é cada vez mais
O caminho, mas cante ou não
Vem da direcção da luz.


17-12-2014
© João Tomaz Parreira  



domingo, 30 de novembro de 2014

O CUTELO E A MÃO



(Rembrandt,  "O sacrifício de Isaque", 1635, óleo s/ tela)


A mão do Patriarca sobre Isaque
conduz o brilho do cutelo
a mão silenciada do amor                        
estendida sobre o peito, o gesto
da fé no desespero
de quem ama um filho à Vida dado
sobre o sereno fogo do altar
sob outro fogo
que  vestia a nudez da madrugada.      

30-11-2014

© João Tomaz Parreira  

domingo, 23 de novembro de 2014

ANTES DO SALMO 51 DAVID E NATÃ





Com uma das mãos lavo o rosto
Com a água corrente dos meus olhos
A outra apoia-se no vazio, abraça
A solidão, a sombra do silêncio
Da harpa suaviza o meu coração de pedra
Agora de carne e fogo
Um hissope começa a escrever o cântico
Do perdão a sangue e água, no espelho
Do meu rosto.


23-11-2014
© João Tomaz Parreira



terça-feira, 14 de outubro de 2014

ALGUMAS COISAS QUE FIZESTE




Já dançaste em círculos à volta do bezerro, ébrio
do ouro a escorrer pelos teus olhos,  alguns
dos teus haveres empenhados  no caminho
rumo a Canaã; sentiste as tábuas da lei partidas
contra o teu coração, mesmo assim  colheste
dos arbustos sem nome o mais belo pão divino;
bateste numa rocha
e bebeste a água represada desde o dilúvio; viste gigantes
à porta da terra do leite e do mel, já longe
do Egipto começaste a ter a noção da saudade, a falta das cebolas
e da carne e olhavas para trás, com os pés no chão
andaste quarenta anos no deserto.

13-10-2014

© João Tomaz Parreira 

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

O QUE CANTOU A SULAMITA A PROPÓSITO DO SEU AMADO




Era uma vez o meu amado como uma macieira
o meu amado era distinto
entre as árvores do bosque,  jovem
a sua sombra ali estava contra os invisíveis
raios solares. Era uma vez o meu amado
como um fruto doce que derramava
frescura no meu paladar.

Ali estava o meu amado, era uma vez com passas na mão
e maçãs como um rubro engaste
Era uma vez o meu amado a acenar ao longe
com o vento nos seus braços, era uma vez
com um perfume que chegava nas mãos, o seu amor
ao redor dos meus cabelos como um laço.


 21-09-2014

© J.T.Parreira

sábado, 20 de setembro de 2014

MARTA & MARIA

Alessandro Allori, 1535-1607, óleo s/madeira, 


Una cosa, amor mío, me será imprescindible 
para estar reclinada a tu vera en el suelo
María Victoria Atencia


Uma coisa, Senhor, me é necessária, o chão
limpo da sala para estar sentada,  detida         
pelas coisas que me repartes pelo coração
pelos  ouvidos silenciosos que retêm
a água intensa das palavras
A casa e seus afazeres, Marta com amor
compõe para a tua presença.

19-09-2014

© João Tomaz Parreira

domingo, 14 de setembro de 2014

[Os meus jovens cabelos, nas tuas mãos]



para a minha Mãe (1922-2014)

Os meus jovens cabelos, nas tuas mãos
Amor jovem, terreno amor que me guardava
Nenhum mal chegaria aos meus ossos frágeis
Mãe não me deste estrelas, nem o céu
Pobre das riquezas terrenas, mas os teus olhos
Doentes que mesmo assim tocavam
A minha alma jovem, ó Mãe infantil
Na tua voz de mel que me afastava as sombras.

14-09-2014

© João Tomaz Parreira

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

ELOGIO DA AMADA NO CÂNTICO DOS CÂNTICOS


                          
“Quem é esta que sobe do deserto, como colunas de fumo,
perfumada de mirra”
 Cântico dos Cânticos


Ela vem como ilusão de óptica no deserto
as faces rodeadas de uma água solar, a luz
do seu rosto se derrama, a cor dos seus lábios
sufoca os meus olhos

Ela vem como algodão de nuvens
as minhas mãos são rudes indignas da seda
dos lírios que florescem nos seus dedos

A minha amada vem ágil como o vento
a dançar nos véus do seu cabelo

Vem esplêndida, a minha amada vem como um alvo
de beleza para todos os olhares.


01-08-2014

©  J.T.Parreira

sábado, 12 de julho de 2014

O CÂNTICO DE MARIA




Alimentei o meu Cordeiro, todos
os outros estão mortos, levaram séculos
a morrer, o meu Cordeiro não
as minhas mãos assumiram formas de amor
nos seus cabelos, cuidei-O com desvelo
a sua beleza era a minha
correu pelos campos de Nazareth, as suas mãos
pela madeira, preparavam-na para o bom nome
do carpinteiro, o meu Cordeiro como todos
os meninos, tinha os anjos acampados
ao redor do seu sono, até ao dia
em que veio o deserto
e as multidões, as meretrizes e os publicanos
todos os pobres sem violência
e vieram outros do seu povo injuriá-lo, lavrar
nas suas costas a chicote a ignorância
coroá-lo com o peso viperino dos espinhos
e os meus olhos não suportaram
a verdade do meu Cordeiro numa cruz.

12-07-2014

© João Tomaz Parreira  

sexta-feira, 30 de maio de 2014

[SEI POR QUE CANTA O PÁSSARO ENJAULADO]



Sei por que canta o pássaro enjaulado
Ignora as grades
As grades são só um risco entre o azul
E o azul, a luz que parece limitada e depois
a sua explosão, o intervalo entre o ar
e o ar, o cântico
do pássaro ignora as grades, como o cântico
do homem ignora o espartilho da garganta.

28-05-2014

©  João Tomaz Parreira