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terça-feira, 1 de novembro de 2016

OUVE-SE UM CHORO EM ALEPO




Um choro se ouve em Alepo
É Raquel chorando os seus filhos
Que não regressarão da escola

O grande pranto triste do fundo dos úteros
Que ficaram órfãos

Ouve-se um choro em Alepo
É Raquel a despedir-se 
De si mesma.

01-11-2016  
João Tomaz Parreira



domingo, 28 de agosto de 2016

ONDE DAVID PÕE OS OLHOS

Micro conto 

                  

Do alto do terraço, que recebe toda a luminosidade com que a tarde se espraia e demora nas varandas, David perguntava com o olhar quem era aquela mulher.
Formosa, num despudor que talvez não fosse inocente mas sem exibicionismos, apesar da sua beleza jovial.  Deixava passar sobre o corpo, na sua leviandade,  o frescor da água do  banho.
David, pastor de povos, tinha um enormíssimo rebanho, mas foi logo apaixonar-se por essa pequena cordeira, e roubá-la ao marido.
A jovem mulher também passava os olhos, despreocupadamente,  pelo próprio corpo, as suas mãos tocavam-no inocentes,  sem ter um rasgo de lucidez  que a levasse a pensar que poderia estar a ser observada. Mas os olhares reais estão acima de qualquer leve suspeita. Um olhar de soberano pode ser uma ordem, como foi o caso.
O vento não soprava com força, era um leve ventar, mas os cabelos compridos de Bate-Seba, molhados, não acompanhavam as voltas e revoltas do vento, eram ornatos negros que se moviam apenas aos movimentos do corpo.
Fazia-se sentir, no entanto, nos ramos das plantas ornamentais,  nas talhas douradas que adornavam o terraço.  E foi esse vento que agitou os véus e fez descobrir como, quase nua, se lavava Bate-Seba.
Ela lavava-se não tão inocentemente quanto possa parecer, como muitos séculos depois Pilatos, pegando numa bacia, lavou as suas mãos diante da multidão.

28-08-2016

© João Tomaz Parreira  

sexta-feira, 22 de julho de 2016

A ÁRVORE






Era uma árvore, no meio do jardim
sabia a verdade das coisas: Adão e Eva
a esconderem os olhos do seu próprio sexo;
ou os querubins com uma espada
torneada a fogo,  que  guardaria
a melancolia de um jardim vazio.


21-07-2016

© João Tomaz Parreira

sábado, 23 de agosto de 2014

A CANÇÃO DE MARIA



"Magnificat anima mea Dominum"


A dor do meu corpo a crescer
será útil para o Senhor

como o dia que se derrama
no fio do horizonte
na púrpura
de um dia novo

a dor de um filho dentro
a crescer pelo meu corpo.


© João Tomaz Parreira

sábado, 21 de junho de 2014

A COROA

Annibale Carracci, óleo s/tela, 1585


Repouso a minha cabeça para a coroa
de espinhos, ostentarei
o silêncio da flor envergonhada
com flechas no lugar das pétalas

Poderia no fim da vida
ter uma coroa que me amaciasse
a cabeça, mesmo que o reino fosse pesado
uma coroa limpa

Mas não, eu não poderia suportar uma coroa
que esmagasse em mim o meu amor
escarlate pelo mundo
para ter um reino na terra, se assim fosse
teríeis outras razões para a minha morte. 


20-06-2014
© J.T.Parreira 

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

A TRANSFIGURAÇÃO






Mas ninguém se atrevia a olhá-lo na cara,
porque era semelhante à dos anjos”
Oscar Wilde


Subiu ao monte
com um rosto no qual depois o sol nasceu,

a luz velando o rosto e sobre a luz
e o branco dos vestidos
os discípulos se alegraram,

o vento cantava no cume da montanha,
desceu a glória de uma nuvem
e as vozes, que traziam a certeza
da morte redentora, falou-se de cicatrizes
e ouviu-se a voz de Deus, que talvez trouxesse
a neve dos cabelos envolvida em lume.

9/8/2013
 
© João Tomaz Parreira  


















quinta-feira, 27 de junho de 2013

A Noiva das Bodas de Caná






“There is none like thee among the dancers;
None with swift feet.”
Ezra Pound ( no poema For the Marriage in Cana of Galilee)



Os seus olhos são cântaros nas margens
do mar da Galileia, a ondulação
do seu vestido estremece o vento

E os seus braços são dois ébanos
que sustêm o Amor, quando nascer
um filho terá nos olhos o verde
das vinhas de En-Gedi

Ò jovem mulher que desenhas nos lábios
sorrisos de marfim, são lírios
as suas mãos quando dança, seus cabelos
são uma brisa ágil no ar, quando canta é um rio
de alaúdes a sua voz e o nosso coração
deixa o sangue repousar nos seus perfumes.

26/6/2013

© João Tomaz Parreira



(Weeding at Cana, Adelaide Ironside, Austrália, 1831-1867)
 

sábado, 13 de outubro de 2012

SALMO CXXII



Os meus olhos rasgaram-se
num longo sorriso, disseram-me: vamos
os pés, envoltos em asas
param a porta da casa do Senhor
Ó Jerusalém, que estás acima do nivel
dos nossos olhos
O meu coração é um órgão
que se atropela a si mesmo para chegar
e ficar depois tranquilo
e o Senhor lança em redor os seus ouvidos
para escutar.

10/10/2012
 
© João Tomaz Parreira
 
 
 

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Discussões Divinizadas




Adão discute com Deus sobre os erros alheios, os da sua mulher.

Caim discute com Deus convencido de que Deus não é Omnipresente.

Abraão discute com Deus sobre as probabilidades da demografia dos justos em Sodoma.

Jacob discute com o Anjo do Senhor, esgrimindo argumentos terrenos, à força de braços.

© João Tomaz Parreira


sábado, 17 de dezembro de 2011

O “NÃO” PRIMORDIAL

Artigo de João Tomaz Parreira

(a sair na revista Novas de Alegria, Janeiro 2012)


Não foi um salmista que inscreveu nas Escrituras Sagradas vários primeiros “nãos”, quando compôs o Salmo 1 como “porteiro” para confrontar aqueles que querem estar na Congregação dos Justos.

Muitíssimo antes foi o próprio Deus que ao promulgar um vastíssimo conjunto de “sins”, determinou apenas um “não”. O Não primordial. “Mas da árvore da ciência do bem e do mal, dela não comerás” (Gn 2,17)

Até este momento, a relação de Deus com a Sua Criatura, o Homem-Adão, estruturava-se, digamos assim, numa palavra: o Belo ou Bom (“E viu Deus que era bom”). Expandia-se esse relacionamento primevo apenas em Direitos, não chegara o momento do Dever arquetípico e explicíto.

Alguém escreveu, para o contexto do Éden, que “a provisão feita por Deus é modelo do cuidado paternal” (1)

Adão teve um abrigo, não uma prisão sufocante. Adão não era ainda mortal, embora feito de matéria precária (o pó, o barro, a terra ), mas o sopro divino, vivificante, o distinguiria das outras criaturas.

O Criador não era um deus determinista, que lançava o homem na fatalidade. A primeira residência do homem na Terra não foi um deserto, havia Beleza inocente mas também havia sedução, e o mais importante do relacionamento Criador-Criatura era o livre-arbítrio, a liberdade no Jardim.

O Éden, pela localização que posteriormente se passou a conhecer na Geografia, não era um símbolo, nem tão-pouco um mito ou um ícone ideológico para falar do verde, do belo, era um lugar (“plantou o Senhor Deus um jardim no Éden”, 2, 8). A forma hebraica para dizer “deleite” acabou no grego da Septuaginta a dizer “paradeisos”, (“parque, paraíso”).

Esse Paraíso promovia direitos, antes de qualquer constituição política, o usufruto universal dos bens divinos, os consequentes “sins” da liberdade de Deus para o ser humano, personificado no primeiro homem. E a liberdade de Deus é como Deus, ilimitada, irrestricta, porque – como escreve o teólogo Bernard Ramm (2) - “Ele é o Criador livre, o Reconciliador livre, o Redentor livre”. E a liberdade que concede ao homem é para que seja criatura diante d'Ele, em primeiro lugar, depois, criatura perante o mundo, que Ele criou também.

Foi nesta liberdade que Adão ficou diante de toda a criação, no Paraíso. Não podemos identificar as árvores, todas as árvores do Jardim do Éden, todas pertenciam ao homem no seu gozo pleno dos frutos das mesmas. A misericórdia divina, via-se e vê-se na multiplicidade, na multiplicação. O único desejo e escopo divinos de extinção de alguma categoria, é, sem dúvida, do Pecado.

Mas a liberdade inefável de Deus queria reter para si uma árvore, não por Sua causa, mas por causa dos “danos” que faria ao homem; e o Senhor, sendo cioso do seu “não”, ainda assim libertou o ser humano para a possibilidade de Escolher. E escolher implica Crise, isto é, tem todos os riscos da mudança.

Contudo, o Senhor no Jardim do Éden não confrontou o homem com uma escolha obrigatória, segundo o pensamento de Kierkegaard, nem com alternativas previamente
determinadas, na existência de Adão abriu-se a possibilidade existencial da opção.

O possível acto opcional de Adão, sabia-o omniscientemente Deus, iria cortar a relação, a liberdade iria estar acima da comunhão porque a liberdade é uma parte essencial da natureza do homem, o espírito é a fonte dessa liberdade. Adão ouviu o “não”, como não deixou de ouvir os “sins”.

Não havia, perante Deus, no Jardim do Éden, condições prévias para desobedecer – porque isso equivaleria ao controle do determinismo.

Mas no exacto momento da sedução, a quantidade desses “sins” disponíveis pelos cuidados divinos sucumbiu à qualidade do “não” primordial, a proibição, qualquer proibição depois disso, carrega em si o mistério. E tragédia.

Se se obedece, fica-se sem desvendar esse mistério; se não se obedece, fica-se a conhecê-lo e à tragédia. Mas valeu a pena? No caso edénico? Foi o que Adão e Eva escolheram. Desvendar o mistério do fruto e a tragédia. Diria que os chamados “nossos primeiros pais” sucubiram à paixão do “Não”.

Porque esta paixão é difícil de explicar, na sua interioridade, salvo melhor opinião, por isso é que a desobediência ao “não” divino é mais vezes usada em hermenêutica do que em homilética.

Raramente se ouve uma pregação centrada na preferência do “não” contra os “sins”. Às vezes até parece que se prima por proferir uma pregação determinista, da fatalidade, porque estava no Éden Satanaz a determinar tudo, o que não é verdade.

UM NÃO DIVINO E UMA ATITUDE DO HOMEM

Ao lermos atentamente a narrativa do Génesis (2, 16-17), não podemos, contudo, ignorar o termo “ordenou”, na oração gramatical “E ordenou o Senhor Deus ao homem”. O vocábulo oriundo de “ordem” ( há versões/traduções da Bíblia que usam a palavra “ordem”), deve ser pensada não em termos legalistas ou policiais, mas de uma Aliança tendente à responsabilização de Adão ( do ser humano) diante do Criador.

Tal Aliança não colocou em causa a soberania divina nem a liberdade de escolha humana. Assim, isso leva-nos, finalmente, à proposta de outro pensamento sobre a atitude de Adão: numa Aliança não pode haver desobediência, pode existir traição, e Adão e Eva trairam. “Nunca se é traído, senão pelos seus” - é um aforismo clássico, suponho que da psicologia. Apesar de traído (no Amor sublime que dedicava à Sua Criatura), mais do que desobedecido ( na sua soberania divina), Deus continuou a Amar Adão e Eva.

O Deus do Éden é o mesmo, não houve um Senhor para o Jardim e Outro fora do Jardim.

_______________________________________

(1)Génesis, Introdução e Comentário, Derek Kidner, pág. 57, Mundo Cristão, São Paulo

(2) Diccionario de Teologia Contemporanea, pág 24 e ss, Casa Bautista de Publicaciones,1975

João Tomaz Parreira

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Jacob dorme onde desce a noite


(O sonho de Jacob, Jose de Ribera (1591-1652)



Jacob dorme onde desce
a noite
na permanência da pedra
onde o sol se estendeu
se pudesse tirava os olhos
despia a língua
do seu enganoso véu


mas dorme
com a forma de um sonho
na cabeça
uma escada, uma coluna
onde resvalam plumas, descem
e sobem anjos
Jacob faz um tumulto no céu.


10-8-2011

inédito de João Tomaz Parreira








sexta-feira, 24 de junho de 2011

Poucas vezes a fome terá tido



Poema inédito de João Tomaz Parreira

Poucas vezes a fome terá tido
tanta altivez
como nos caixotes do lixo, com a cabeça
triste, levantada, a procurar
poucas vezes o homem terá sido
tão ignorado
pelo homem como quando lança as mãos
como uma rede
para apanhar o seu quinhão de ar
Estar escondido atrás da claridade
das cortinas da janela
e ver essa altiva pobreza, poucas vezes
terei tido nos meus olhos
a beleza dolorida de ser homem.

24/6/2011

sábado, 14 de maio de 2011

Sozinho no Getsémani


“A minha alma está profundamente triste até à morte”
Jesus Cristo



Fiz sozinho as minhas pegadas
até aqui
e o veludo da noite pousando
nas pedras limou as arestas
a minha angústia vertendo gotas
pela minha fronte
meus olhos sozinhos
palmilhando o céu deixaram pegadas
cada anjo alheou-se de mim
na noite a transbordar de estrelas
como um cálice
nesta noite como a água
de sombras de um poço imenso
fiz sozinho as pegadas
da agonia na minha alma até aqui.

14/5/2011

Poema inédito de J.T.Parreira

sábado, 7 de maio de 2011

O Salmo




Quem vem por cima do vento
tangendo uma harpa
quem vem tangendo nuvens
na harpa, como na sua casa
quem vem
tangendo a harpa como se derramasse
sobre a terra um vaso de água de cristal
quem vem a tanger a sua harpa
espalhando asas pelo ar
e a excitar o gineceu das rosas.


3/5/2011
João Tomaz Parreira

terça-feira, 26 de abril de 2011

No Dia da Sua Morte



Hoje os cordeiros sentiram calafrios
no leite materno, beberam
os trigos o orvalho do chão
inclinando as espigas
hoje o sol abrandou
o seu ímpeto de fogo
e cedeu
a angústia pesada das pedras
dos sepulcros
hoje neste dia desigual
todas as mães sentiram
estremecer o útero
porque na cruz
uns olhos bordados de doçura
sucumbiam.

25/4/2011
 
Poema Inédito de J.T.Parreira

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Almofada


De dia subimos os nossos montes
cada distância mais longe
depois de deitada a nossa cabeça
num novelo de nuvens
por dentro e por fora
um sonho bordado.


16/4/2011

J.T.Parreira

domingo, 10 de abril de 2011

Poema para Paixão, inédito de J.T.Parreira


Tu foste, apesar do cobre das lanças
e do cálice
de prata, Tu foste, envolto
na bela noite de Abril
e entraste na casa onde começaram
sacerdotes a jugular o cântico dos anjos
e o céu, que Te lançaram à face
Tu foste, mesmo assim
e abriste os braços como uma cruz
sem sinos a dobrar o som
E agora sem mais sofrimento
eu sei para onde foste, é bom.

10-4-2011

terça-feira, 15 de março de 2011

"Meu Pai, Meu Herói", Florbela Ribeiro


"Pai, recordo com tanta saudade os anos que já lá vão…Sabes, uma das minhas brincadeiras predilectas era ensaiar os teus gestos, poder imitar-te.Fazia os ensaios secretamente, por pura admiração.Como eu amava a robustez e o vigor que emanavam de ti, a tua força e coragem eram minhas…" Ler na íntegra Aqui.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

A Mãe

Inédito de João Tomaz Parreira

Era a morte envergonhada
escondida nestes rostos
tão próximos do chão
pequenos corpos, um dia saberemos
como a morte com sapatos precários
caminhou nestes corpos infantis
como a morte se vergou
nestas costas ao peso
do inverno
Era a morte já tão arruinada
nestas roupas, um dia saberemos
como foram lentos os seus passos
a querer retardar a pressa
dos relógios.

(c) J.T.Parreira

Escrito em 27/1/2011, a partir de uma imagem daqui:
http://wikitravel.org/pt/Imagem:Woman_and_children_walking_to_the_death_barracks.jpg

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Sei



Poema inédito de João Tomaz Parreira

Sei que Deus sentado
apascenta os nossos sonhos
e nos toca no ouvido
quando o abismo se aproxima
do nosso chão
o pesadelo
e acordamos
Sei que Deus toca
nos nossos cabelos
põe a sua mão por baixo
e tira as nuvens do caminho
dos pássaros.




13/1/2011