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segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

PASTORAL (Inédito)




O bom pastor discerne as minhas pegadas de outras pegadas
Perante o modo como me julga, pouca importa
O tamanho do Oceano Atlântico ou dos Mares do sul
Com  suavidade e a dureza
Dos seus ombros, vem ter comigo
Quando alguma coisa me empurra para baixo
Ou quando o medo cresce nas sombras, são suficientes
Os seus olhos sobre mim, são a arquitrave
Que suporta o peso do céu de um dia pleno de sol
Ou de tempestade.


26-01-2015

© João Tomaz Parreira 


terça-feira, 6 de janeiro de 2015

A ODE DO PROFETA HABACUQUE




Ainda que a figueira não perca o equilíbrio
Porque não tem figos, nem as vides mostrem o fruto
Da alegria, ainda que falhe
O azeite nas oliveiras, que a vida morra
No rebanho e o silêncio ocupe o espaço dos currais
Espantar-se-á  o mundo com o meu prazer
Em Deus que fez a minha salvação
E na dádiva incrível de asas de corça nos meus pés.                                  

06-01-2015

© João Tomaz Parreira   

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

A ESTRELA

(Foto da NASA)



“No cerne da solidão / os olhos de Deus”
Joanyr de Oliveira



Se vier, virá do cerne da solidão, do deserto
Das areias cósmicas, do pó esplendente
Dos cometas, se vier
Ancorará cansada o seu vórtice misterioso
No topo do mundo, no sono
Das crianças, nos ramos dos pinheiros, alçará
Os fonemas da alegria, se vier
Será matéria para contar aos netos dos futuros netos

Matéria disparada do etéreo, povoa
O silêncio da noite, estrela que se revela do rebanho
De outras estrelas, o seu canto
Só os anjos acordados à sua própria voz
Conhecem.  Mas canta realmente
Depois de milénios a fio muda?  O frio
Por onde passa é cada vez mais
O caminho, mas cante ou não
Vem da direcção da luz.


17-12-2014
© João Tomaz Parreira  



segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

O CALVÁRIO





Morreu esta tarde, por três dias,
às três num monte à beira da cidade.
Inclinou o seu espírito às últimas palavras
que seus lábios entregaram aos ouvidos
dos homens e de Deus, da mãe
não chegariam as mãos para o tirar da cruz.
Do lençol de linho de José de Arimateia
-só é certo que lhe deu o sepulcro- não se sabe,
qualquer teologia que diga que ao morrer
às três da tarde, por três dias, tinha nos lábios
um sorriso, sabemos pelas feridas da morte
que não é verdade, ninguém
morre pelo ódio do seu povo e sorri.
Morreu com o tempo marcado, o relógio
do sol marcaria na porta do sepulcro
a manhã de sábado,  depois outra manhã viria
limpar da noite as sombras, para que o branco
Corpo intocável mais brilhasse.


14-12-2014
© J.T.Parreira

(Arte: Tela de Salvador Dali)

domingo, 30 de novembro de 2014

O CUTELO E A MÃO



(Rembrandt,  "O sacrifício de Isaque", 1635, óleo s/ tela)


A mão do Patriarca sobre Isaque
conduz o brilho do cutelo
a mão silenciada do amor                        
estendida sobre o peito, o gesto
da fé no desespero
de quem ama um filho à Vida dado
sobre o sereno fogo do altar
sob outro fogo
que  vestia a nudez da madrugada.      

30-11-2014

© João Tomaz Parreira  

domingo, 23 de novembro de 2014

ANTES DO SALMO 51 DAVID E NATÃ





Com uma das mãos lavo o rosto
Com a água corrente dos meus olhos
A outra apoia-se no vazio, abraça
A solidão, a sombra do silêncio
Da harpa suaviza o meu coração de pedra
Agora de carne e fogo
Um hissope começa a escrever o cântico
Do perdão a sangue e água, no espelho
Do meu rosto.


23-11-2014
© João Tomaz Parreira



quarta-feira, 19 de novembro de 2014

6.000.000




Seis milhões de nomes sob cinzas
toda a gente como de facto diziam
as estrelas
por cima dos vestidos
casacos sobretudos moribundos
Nenhum deles viu o fogo que nascia
dos fornos das galáxias da morte
seis milhões de nomes como cinza

Famílias inteiras com pequenos nomes
nos braços não chegariam
mais à idade de brincar nos pátios
ou os velhos
que jamais iriam acender a Menorá
iluminando o pôr-do sol de sexta à noite  

foram cinzas de seis milhões de nomes
que subiram à tristeza divina pelo ar.

13-06-2014

© João Tomaz Parreira 

terça-feira, 28 de outubro de 2014

SALMO 23 EM LINGUAGEM MODERNA



O Senhor é o meu gestor: nada me falta.
Os canais do meu coração são tranquilos, o sangue
mesmo com mais glóbulos brancos não tem rumores

de morte. A vida
não é um banquete contínuo, ainda assim
tem sido longa. A morada
da casa do Senhor não tem cânticos ruidosos
ainda é o silêncio
da minha alma.



26-10-2014
© João Tomaz Parreira

terça-feira, 14 de outubro de 2014

ALGUMAS COISAS QUE FIZESTE




Já dançaste em círculos à volta do bezerro, ébrio
do ouro a escorrer pelos teus olhos,  alguns
dos teus haveres empenhados  no caminho
rumo a Canaã; sentiste as tábuas da lei partidas
contra o teu coração, mesmo assim  colheste
dos arbustos sem nome o mais belo pão divino;
bateste numa rocha
e bebeste a água represada desde o dilúvio; viste gigantes
à porta da terra do leite e do mel, já longe
do Egipto começaste a ter a noção da saudade, a falta das cebolas
e da carne e olhavas para trás, com os pés no chão
andaste quarenta anos no deserto.

13-10-2014

© João Tomaz Parreira 

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

O QUE CANTOU A SULAMITA A PROPÓSITO DO SEU AMADO




Era uma vez o meu amado como uma macieira
o meu amado era distinto
entre as árvores do bosque,  jovem
a sua sombra ali estava contra os invisíveis
raios solares. Era uma vez o meu amado
como um fruto doce que derramava
frescura no meu paladar.

Ali estava o meu amado, era uma vez com passas na mão
e maçãs como um rubro engaste
Era uma vez o meu amado a acenar ao longe
com o vento nos seus braços, era uma vez
com um perfume que chegava nas mãos, o seu amor
ao redor dos meus cabelos como um laço.


 21-09-2014

© J.T.Parreira

sábado, 20 de setembro de 2014

MARTA & MARIA

Alessandro Allori, 1535-1607, óleo s/madeira, 


Una cosa, amor mío, me será imprescindible 
para estar reclinada a tu vera en el suelo
María Victoria Atencia


Uma coisa, Senhor, me é necessária, o chão
limpo da sala para estar sentada,  detida         
pelas coisas que me repartes pelo coração
pelos  ouvidos silenciosos que retêm
a água intensa das palavras
A casa e seus afazeres, Marta com amor
compõe para a tua presença.

19-09-2014

© João Tomaz Parreira

domingo, 14 de setembro de 2014

[Os meus jovens cabelos, nas tuas mãos]



para a minha Mãe (1922-2014)

Os meus jovens cabelos, nas tuas mãos
Amor jovem, terreno amor que me guardava
Nenhum mal chegaria aos meus ossos frágeis
Mãe não me deste estrelas, nem o céu
Pobre das riquezas terrenas, mas os teus olhos
Doentes que mesmo assim tocavam
A minha alma jovem, ó Mãe infantil
Na tua voz de mel que me afastava as sombras.

14-09-2014

© João Tomaz Parreira

sábado, 23 de agosto de 2014

A CANÇÃO DE MARIA



"Magnificat anima mea Dominum"


A dor do meu corpo a crescer
será útil para o Senhor

como o dia que se derrama
no fio do horizonte
na púrpura
de um dia novo

a dor de um filho dentro
a crescer pelo meu corpo.


© João Tomaz Parreira

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

ELOGIO DA AMADA NO CÂNTICO DOS CÂNTICOS


                          
“Quem é esta que sobe do deserto, como colunas de fumo,
perfumada de mirra”
 Cântico dos Cânticos


Ela vem como ilusão de óptica no deserto
as faces rodeadas de uma água solar, a luz
do seu rosto se derrama, a cor dos seus lábios
sufoca os meus olhos

Ela vem como algodão de nuvens
as minhas mãos são rudes indignas da seda
dos lírios que florescem nos seus dedos

A minha amada vem ágil como o vento
a dançar nos véus do seu cabelo

Vem esplêndida, a minha amada vem como um alvo
de beleza para todos os olhares.


01-08-2014

©  J.T.Parreira

sábado, 12 de julho de 2014

O CÂNTICO DE MARIA




Alimentei o meu Cordeiro, todos
os outros estão mortos, levaram séculos
a morrer, o meu Cordeiro não
as minhas mãos assumiram formas de amor
nos seus cabelos, cuidei-O com desvelo
a sua beleza era a minha
correu pelos campos de Nazareth, as suas mãos
pela madeira, preparavam-na para o bom nome
do carpinteiro, o meu Cordeiro como todos
os meninos, tinha os anjos acampados
ao redor do seu sono, até ao dia
em que veio o deserto
e as multidões, as meretrizes e os publicanos
todos os pobres sem violência
e vieram outros do seu povo injuriá-lo, lavrar
nas suas costas a chicote a ignorância
coroá-lo com o peso viperino dos espinhos
e os meus olhos não suportaram
a verdade do meu Cordeiro numa cruz.

12-07-2014

© João Tomaz Parreira  

quarta-feira, 2 de julho de 2014

BLUES PARA UM FUNERAL



(Jan Wildens, 1640, Caminho de Emaús)


                                          
Poema de Wystan Hugh Auden ( W.H.Auden, Inglaterra, 1907-1973)


Parem os relógios, cortem o telefone,
atirem ao cão um osso sumarento,
um lençol de silêncio sobre o piano e os tambores
precedam o caixão, com carpideiras.


Que os aviões, gemendo por cima do cortejo
rabisquem no céu a mensagem Ele Está Morto.
Ponham laços negros no pescoço das pombas
e os polícias respeitem o dia com luvas brancas


Ele era o meu norte e o sul, meu leste e o oeste,
minha semana de trabalho e meu domingo,
era o meu dia e a noite, a minha voz e o meu cântico;
eu pensei que o amor era eterno: E enganei-me.


não procurem mais as estrelas, apaguem-nas,
empacotar a lua e desmantelar o sol é o que resta,
despejem os oceanos e derrubem as florestas;
pois nada mais será bom como foi antes.

01-07-2014
                                                                                
Versão livre minha ©  João Tomaz Parreira 

Nota do tradutor: O que diria um dos discípulos de Emaús

sexta-feira, 30 de maio de 2014

[SEI POR QUE CANTA O PÁSSARO ENJAULADO]



Sei por que canta o pássaro enjaulado
Ignora as grades
As grades são só um risco entre o azul
E o azul, a luz que parece limitada e depois
a sua explosão, o intervalo entre o ar
e o ar, o cântico
do pássaro ignora as grades, como o cântico
do homem ignora o espartilho da garganta.

28-05-2014

©  João Tomaz Parreira 

terça-feira, 20 de maio de 2014

PARA DESENHAR UMA FLOR


Primeiro faz-se subir da escuridão,
em que as raízes dormem,
um caule, depois
conhecemos
os passos que em silêncio dá, primeiro
um botão
que já revela o ponto ómega. A seguir,
como um lápis lazúli que esconde a mão invisível,
abre-se uma corola e com cuidado,
mesmo que as folhas anoiteçam,
vai-se desenhando a claridade da flor.

2/4/2014
© João Tomaz Parreira (J.T.Parreira)

segunda-feira, 12 de maio de 2014

O que disse a criança síria vítima da guerra



“Quando eu morrer, vou contar tudo a Deus”
pouco serviu Lizt compor
um Rêve d’amour, ou a beleza

das macieiras entre os bosques
do Cântico dos Cânticos
direi que fui um lírio entre os espinhos

Muito pouco valeu o perfume
da noite das rosas de Damasco
para pouca coisa serviu

ter ficado em delírio a sonhar a paz
multicolor dos vestidos
das meninas que jogaram comigo

Vou contar tudo, o que valeu às nossas mães
terem o mel
nos favos dos seus dedos?

Valeu pouco,  à luz que passa
 entre as sombras das palmeiras
ficar à roda do meu corpo.


11-05-2014
© João Tomaz Parreira




quinta-feira, 8 de maio de 2014

O rio cujo nome ignoramos



Por vezes, como o tigre de Jorge Luís Borges
passamos pela margem do rio
cujo nome ignoramos


pode ser a Morte
ou a Manhã futura, forma clara
que se move desde o Arché
em que Deus está, é aqui


que os nossos olhos se repartem
olhar o abismo sob a água
ou deixarmos que corra
à superfície da frescura, o rasto
do odor que se segue até ao mar.


2/5/2014
João Tomaz Parreira