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segunda-feira, 10 de março de 2014

TEOLOGIA PESSOAL




Escuto-Te a passar no silêncio
Ao longo dos canais da Ria
Não tens corpo, mas tens uma ave
Que dulcifica os meus olhos e o vento
Que se equilibra na minha barba, levanta-se
Um robalo num salto
Para alcançar o outro azul que a água espelha
Escuto-Te nada tenho a perder
A passar na frágil asa da libélula
Como é fácil ser-se silêncio
Passas no colo da mulher que apanha moliço
Para  a beleza
do que há-de nascer da terra
Escutei-Te, passavas na minha adolescência
E dos meus amigos que entravam com risos
De cristal nas águas impenetráveis dos canais.

Ria de Aveiro, 7-03-2014
© João Tomaz Parreira

quarta-feira, 5 de março de 2014

A MULHER DE SAMARIA


(Annibale Carraci, 1560-1609) 


 Não é qualquer uma. É uma mulher ao meio-dia
De olhos no chão, equilibrando o cântaro
Frágil
Cada lágrima que esconde

É uma mulher que teve abraços
Beijos na sua face morena, escondida
Em silêncios

Não é qualquer uma, é uma mulher
Que conhece bem o seu rosto
No espelho triste do fundo do poço

É uma mulher ao meio-dia
Que resiste, mesmo que isso a torne
Invisível, para que outros não tenham sede.

2-03-2014

© João Tomaz Parreira 

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Uma Ética Pré-Cristã em Píndaro


" Píndaro, o maior poeta lírico da Grécia no séc V a.C., representa o lirismo que impõe valores éticos na poesia a fim de serem seguidos em excelência pelos homens.
A sua lírica coral perorava poeticamente sobre o que o poeta considerava excelência dos vencedores dos jogos pan-helénicos, celebrava com odes triunfais não só quem vencia, mas os valores que se traduziam a partir das vitórias, que eram cantados e se espalhavam dos seus poemas para a música.
Na Grécia clássica celebrava-se a luta (àgonía / ἀγωνία ) individual, não havia jogos colectivos, nem vitórias em equipa, a honra ou desonra era individual,  mas os pensamentos do lirismo de Píndaro ajustavam-se, sobretudo, à humanidade, ao colectivo dos homens."



Para ler na íntegra Aqui:
http://www.apologetica.pt/?p=523

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

LES MAINS SALES









Mãos sujas pelas lamas da vida
sujas como raízes da terra
mãos sujas, mas não obscuras
mãos do momento inicial
da argila, que copiam o trabalho do dia sexto
da criação divina.

Sujas
mas de amassar as águas com o barro
mãos que não se apertam
com os cotovelos junto ao corpo
mãos sem medo
da água fria, não têm tempo a perder
porque a noite elide cores e desafios
de toda a bondade sobre a terra

Mãos que não se escondem
porque não é a vergonha a sujidade
há outras mãos sujas, essas são
apesar do cristal opaco que as calça.

O que estas mãos sujas manifestam
fechadas em concha
sobre um rosto, a claridade !  


11-02-2014

© João Tomaz Parreira  

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

DAVID



Nenhum homem esteve mais perto

de Deus do que David

por razão da música e seus salmos

Quando tocava

a harpa, era Deus que respirava

Deus desfazia o silêncio nos dedos de David.


5/6/2013

©   João Tomaz Parreira                       

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Andar sobre as águas




Sob os seus pés, os átomos da água
rendiam-se, o mar não tinha fundo
voava
como as aves que não pesam sobre as árvores
o mar dormia sob o peso divino
com o mesmo silêncio do veludo.
 
30-12-2013
© João Tomaz Parreira

Publicado inédito aqui: http://ovelhaperdida.wordpress.com/2013/12/31/andar-sobre-as-aguas-inedito-de-j-t-parreira-a-fechar-2013/

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Chegou o Menino



Veio de longe, chegou o Menino que veio de longe
do ventre da mulher. Chegou um homem
que pelo frio do estábulo gemeu
as sílabas profundas de um vagido.

Chegou um menino
que deslocou o centro do céu para o mundo

Chegou de longe Deus, a carne nua
com um coração humano, igual ao meu
igual nas artérias e nas veias a qualquer judeu
e com deltas
onde o sangue desagua.



18/12/2013
© João Tomaz Parreira

(Imagem do Facebook - Desert-rose)

domingo, 8 de dezembro de 2013

ISRAEL




Não te esqueças de pedir a memória
Nas tuas lamentações sagradas
Israel não adormeças no museu
Das tuas pedras, Israel
Não esqueças o mundo
Israel quando é que enviarás
Todas as semanas corações
Para lerem o Apocalipse?...

Israel tu conheces a lei
Dos artigos de Maimónides, tens o costume
De ler Moisés e ficar preocupado
Com todos os cordeiros do país
Israel tu repousas em citações
E costumas nutrir por Jeremias
A ternura das tuas lágrimas
Israel tu detestas Isaías
Por isso o encerras no vidro da universidade
Israel pensa naqueles que voaram
Como pombas e andaram apalpando
Pela noite as suas janelas
Que esconderam a vergonha dos seus olhos
Em pequenas ruas, ao comprarem leite
E sal para as suas feridas
Israel quando te tornarás um menino
Um bando de pombas a olhar o vento
Que descansa nas figueiras
Israel levanta em redor os teus olhos
Para o mundo ver que estão cheios de lágrimas
Como no ano 132, quando te tornaste sionista
E vestiste Bar-Cochba de messias
Israel acorda todos os sonhos dos lábios
Israel as sinagogas são tarde demais.

1/1986

© João Tomaz Parreira

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

DEUS NA CRUZ


Os Teus olhos poderiam ter feito
mudar o curso dos rios, o sol derreter
as areias do deserto
poderia ter sido um sinal
do abandono entristecido
a Tua voz poderia desfolhar as árvores
na Primavera, porque na cruz
tinhas o Filho
que estava sem abrigo.

 © J.T.Parreira




domingo, 20 de outubro de 2013

Ingenuidade



Quando chegamos à nossa nova casa
sem paredes de tijolo e estuque
rodeada de arame onde suspendemos as estrelas
apertando ao peito o frio
ainda acreditamos
que nos dessem o maná
como Jeová no deserto aos nossos pais.



14/10/2013
 © J.T.Parreira

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

TE DEUM






“Not because of victories
I sing”
Charles Reznikoff


Não canto por causa de victórias,
tenho tido poucas,
mas pelo brilho do sol que nasce
para todos os olhos, que pode cegar
de beleza todos por igual,
louvo por causa do que a brisa dá,
movimentos graciosos
às flores, na primavera frágil.
O meu hino não é pelas minhas vitórias
mas pelo meu dia de trabalho feito
ó Deus, até entre as ruínas.

5/10/2013
© J.T.Parreira

("Ruinas de Eldena", 1825, Caspar Friedrich)
 

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

A Pátria Portátil

"Quando sonho com o meu regresso para ti,
eu sou como uma harpa a cantar seus cantos.”
Judah Lévy


 

Os grãos de areia das tuas estradas são mirra
veludo nos meus olhos, as ruínas
em que está meu coração
começam a encontrar a arquitrave

Poderei
comer o meu pão na mesa
com raízes no teu chão
conduzirei à mão a paciência
dos meus bois, os mansos
olhos das pombas, as asas
dos cântaros até à fonte de Jacob
onde ensobrava antes
o vale nu da morte
tocam os meus olhos uma luz.
 
© J.T.Parreira
 
("Pátria Portátil", antigo conceito judaico da Diáspora)

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Salmo Altamente Leigo





 Elevo os meus olhos para os montes
lá onde os abetos se abrem
como abraços
uns para os outros


e tenho regatos a correr
ao fresco nos ouvidos, arcos de água
rápida sobre as pedras

brilha
o dia com o sol nos meus cabelos
e à noite não há vultos
porque a lua permanece de pé
no meio da escuridão
entre a linha luminosa das estrelas.

11/2/2013
© J.T.Parreira

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

A PREGAÇÃO DA LOUCURA

Artigo de João Tomaz Parreira

O apóstolo Paulo afirmou como uma antítese que “ a loucura de Deus é mais sábia do
que os homens” (I Co 1:25).

Porventura chocou contra o ensino dos pagãos cultos, designadamente em retórica, e até contra os religiosos do judaismo do seu tempo.
Trata-se da frase mais anti-religiosa que se possa dizer sobre Deus; no século XX nem
Jean-Paul Sartre se atreveria a dizê-la, não a disse de todo em obras como “A Náusea”
ou em “Huis Clos” ( de onde partiu a célebre frase “o inferno são os outros”).
Dir-se- ia hoje que tal afirmação seria contracultura, por conseguinte, marginal. Os homens não podiam alcançar Deus pela sabedoria deste mundo, mas pela loucura da pregação.
Pregação que é permanente na sua eficácia, nos seus efeitos eternos, tal como o seu
Objecto e Tema: a crucificação, “Cristo crucificado” é indestrutível, eficaz e de efeitos
perpétuos.

A Razão dos gregos
Mas os gregos tinham razão, ainda que indirectamente.
Platão andou perto, só que falava em Mito e Mimêsis, coisas fora de qualquer norma ou cânone, coisas da Poética; embora tenha escrito nas Apologias em nome de Sócrates que não faria discursos “enfeitados de locuções e de termos escolhidos”.
A pregação era loucura, porque os olhos dos cultores da sabedoria humana cuidavam ver nela um absurdo. Um deus crucificado não entrava nem na retórica grega nem nos seus estudos filosóficos, muito menos na idealização do que “deveria” ser um deus.
A palavra da sabedoria divina, na sintaxe da linguagem humana, ultrapassava a loucura. A palavra da sabedoria louca era o Evangelho.

O apóstolo Paulo sabia que a “palavra da cruz é loucura”, se aqueles que perecem
apenas a quiserem ouvir como sabedoria dos homens. E esta reverte-se e adjectiva-se,
na acepção escrita do apóstolo, como louca (“Não tornou Deus louca a sabedoria deste
mundo?”- I Co 1, 20 )

Um bom Amigo de longa data, maestro consagrado, a propósito deste artigo escreveu-
me e tomo emprestado, que “a loucura de Deus junta o inconciliável, afirma o
contraditório e traz precisão matemática ao ilógico “.

A questão de Paulo com a linguagem
Paulo reflecte essa preocupação ao dirigir-se à sociedade judaica e grega (At 18,4), em
primeiro lugar, e depois aos crentes da igreja em Corinto.

Não usaria a linguagem dos retóricos, que nesta se apresentavam a si próprios, os
Cíceros e os Sénecas; a linguagem de Paulo apresentava Cristo. No contexto do que
escreveu, relembrando aos crentes coríntios a sua posição perante o Evangelho de Deus,
Paulo era um arauto de Outro. “Mas nós pregamos a Cristo crucificado” - escreveu ( I Co
1:23 )

Se o que pensamos nos pode moldar, a linguagem que Paulo usava como arauto de
Jesus Cristo estava plena do Filho de Deus.

Mas a sua pregação parecia contraditória aos olhos dos religiosos, porque o seu conteúdo parecia ser de um drama, falava de um Cristo crucificado e , assim aos olhos humanos, talhado para o desaparecimento, para a tragédia sem retorno, a morte. E aqui estava o que parecia Loucura.

Uma outra linguagem teve o Apóstolo dos Gentios que nos permite identificar a diferença de Saulo para Paulo. A fala de Saulo então não dissimularia ódio, a sua fala verbal não escondia a visão que tinha do fariseísmo. O historiador sagrado Lucas narra que “Saulo respirando ainda ameaças e morte contra os discípulos do Senhor, dirigiu-se ao sumo-sacerdote e pediu cartas para as sinagogas de Damasco”. Saulo assolava a igreja, entrava pelas casas, arrestava teres e haveres, prendia homens e mulheres suspeitos de pertencerem à seita do Nazareno.

Deveria deter poder suficiente e influência decisiva no movimento de perseguição aos
crentes em Cristo, porquanto lemos acerca do gesto de depositarem aos seus pés as
vestes do proto-mártir cristão Estevão.
Não lemos nenhuma fala de Saulo neste período de actividade persecutória que Lucas
narra. O que nos é dado pelo evangelista é algo como uma “actividade contada”, de que
se desconhece a fala do personagem, o que na circunstâcia Saulo disse. “E também
Saulo consentiu na morte de Estevão” ( 8,1).

No silêncio, porém, podemos imaginar ouvir uma voz de ódio , de intolerância com
certeza juntando zelo religioso e honestidade intelectual, mas ódio e intransigência contra
os seguidores do Caminho. Saulo respirava ainda ameaças e mortes contra os discípulos
do Senhor ( 9,1)- escreve Lucas.

As falas do jovem fariseu Saulo estão nas entrelinhas da diegese dos Actos os Apóstolos, ao referirem que Saulo pediu cartas para ir a Damasco. A linguagem de Saulo, para entendermos a mudança, a crise de que foi protagonista, começa no cap. 9 e com a frase – que ouvimos bem, na estrada de Damasco - “ Quem és Senhor?”

Esta pergunta agónica dá início a um novo discurso daquele que seria Apóstolo Paulo,
um discurso em que toda a linguagem estruturante passará a ser a do Amor divino.

Paulo, como um novo Jacob que não consegue lutar e cai por terra, aparece-nos desde a rua chamada Direita e traz uma linguagem nova para a expressão da fé. Cristo crucificado, a grande loucura serena e sábia.
 
© João Tomaz Parreira

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

A TRANSFIGURAÇÃO






Mas ninguém se atrevia a olhá-lo na cara,
porque era semelhante à dos anjos”
Oscar Wilde


Subiu ao monte
com um rosto no qual depois o sol nasceu,

a luz velando o rosto e sobre a luz
e o branco dos vestidos
os discípulos se alegraram,

o vento cantava no cume da montanha,
desceu a glória de uma nuvem
e as vozes, que traziam a certeza
da morte redentora, falou-se de cicatrizes
e ouviu-se a voz de Deus, que talvez trouxesse
a neve dos cabelos envolvida em lume.

9/8/2013
 
© João Tomaz Parreira  


















sexta-feira, 26 de julho de 2013

JUNTO AOS RIOS DA BABILÓNIA




E disseram: « Cantem um hino de Sião»
como o vento nas cordas verdes das harpas

Como as abraçaremos, e aos hinos

do nosso coração silenciado?

Às harpas não voltará a alegria, notas de tristeza
com esta terra estranha vão melhor

Mas disseram: « Alegrem-nos
com as nossas coisas, são vossas agora»

as águas dos rios, as lágrimas
que inundam as margens, «cantem

como o vento» disseram, «nas cordas verdes
dos salgueiros a melodia de Sião»

24/7/2013


© João Tomaz Parreira

segunda-feira, 22 de julho de 2013

MODO DE VER NO MUNDO



A máquina de escrever é sagrada/ o poema é sagrado”
Allen Gisnsberg


O naipe de instrumentos do Salmo 150 é sagrado
A distância que vai da minha alma
ao céu é sagrada, O pó da terra
que David levantou diante da Arca a dançar
é sagrado, A dança é sagrada
Os cordeiros que deram os seus últimos
balidos no Egipto são sagrados
As águas do Jordão são sagradas, O mar
da Galileia que suportou o peso do Eterno
é sagrado, tudo o que foi criado
todas as formas da criação são sagradas
até as portas da morte
do Salmo nove são sagradas.

© João Tomaz Parreira 

quinta-feira, 27 de junho de 2013

A Noiva das Bodas de Caná






“There is none like thee among the dancers;
None with swift feet.”
Ezra Pound ( no poema For the Marriage in Cana of Galilee)



Os seus olhos são cântaros nas margens
do mar da Galileia, a ondulação
do seu vestido estremece o vento

E os seus braços são dois ébanos
que sustêm o Amor, quando nascer
um filho terá nos olhos o verde
das vinhas de En-Gedi

Ò jovem mulher que desenhas nos lábios
sorrisos de marfim, são lírios
as suas mãos quando dança, seus cabelos
são uma brisa ágil no ar, quando canta é um rio
de alaúdes a sua voz e o nosso coração
deixa o sangue repousar nos seus perfumes.

26/6/2013

© João Tomaz Parreira



(Weeding at Cana, Adelaide Ironside, Austrália, 1831-1867)
 

sábado, 15 de junho de 2013

A CORDA ( Conto de João Tomaz Parreira)

                               


Ainda tentou erguer os olhos acima da sua cabeça, mas a luz apagou-se. 
Debaixo do céu onde principiavam a pairar os corvos, que o homem já não poderia ver, porque cortara todos os laços com esse céu, o corpo não passava agora de um peso no laço da corda.
Um outro tipo de peso, denso como uma nuvem negra, tinha-se formado antes na sua consciência.
-Traí o sangue inocente - dissera ele. Ainda não pesava o ter cometido suicídio, uma proibição entre as 613 leis da Torah. Por isso, aquele suicídio seria embaraçoso, não deixava de ter uma ligação com os sacerdotes principais de Jerusalém, mais tarde até um evangelista iria levar o caso para o cristianismo.
O homem, mesmo antes do resultado final, ao saber que Jesus tinha sido condenado a morrer, resolveu o assunto.
-É verdade, é verdade, não posso alterar a história – disse com voz trémula, mas cava. E acrescentou - Se pudesse ia falar com Pilatos, dizer-lhe que o dinheiro não é tudo agora.
E foi ao fundo da memória lembrar-se da viúva que lançou a sua última moeda na caixa das esmolas do templo.
-Isso é contigo – tornaram os chefes judaicos.
-Digo-o, porque é verdade, era isso que gostaria de fazer. E atirou aos pés dos religiosos as moedas de prata.
-Ele, apesar do que lhe fiz, falou-me – ainda disse o homem, mais para si próprio do que para os dirigentes do tribunal.
-O que Ele te disse, não nos interessa agora- e fecharam-lhe a porta à conversa.
Nos seus ouvidos ressoavam como pedradas as palavras que ouvira, embora tivessem o peso do algodão que se aplica numa ferida: - Amigo, faz o que tens a fazer – dissera-lhe Ele após o beijo.
Depois desse momento, há quem garanta que o viu a chorar, mas não se pode confirmar esse acontecimento. As lágrimas são, por natureza, gotas de água suave que saem duma fonte trágica que se acorda e que ninguém sabe onde fica. As suas seriam no entanto chicotadas nas faces . O homem não podia parar de pensar nisso.
Nos últimos três anos de vida, enquanto acompanhara aquele a quem um dia chamou Mestre, o seu trabalho tinha sido tesoureiro e acumulador de decepções acerca da missão desse Mestre. Agora não seria nem tinha mais nada.
- O corpo, é a única coisa que tenho – disse para si, enquanto escolhia uma árvore adequada.
Tinha cerca de quarenta anos, evidenciava amargura, a barba crescida tornava-o escuro,
 tinha um olhar aguçado nuns olhos que pareciam sempre escondidos entre duas fendas, as suas mãos eram belas, dedos compridos, quem procurasse o seu trabalho anterior não era pelas mãos que o descobriria. Era de Queriote e não havia lá a tradição da pesca, o mar estava morto.
Enforcou-se, a seguir. Teve medo de viver com a sua traição. O ter devolvido as trinta moedas não foi suficiente para tirar o vil metal da sua alma, nem os ruídos das moedas lançadas à lage de mármore se sobrepuseram aos remorsos. O coração parou, enfim, a excitação.
O local, com as suas figueiras, e o vento a espreitar por entre as folhas, era sossegado.
Pendurado debaixo da figueira cuja copa e as folhas impediam que a luz solar lhe deramasse pelo chão o desenho do seu corpo, o homem era uma sombra dentro da sombra.
O corpo já não lhe importava, seriam agora livres de se servirem dele, o que Judas I estava a enforcar era a sua alma. A pequena morte nas carótidas a apertar a maçã de Adão era o menos.

2013
©

quarta-feira, 5 de junho de 2013

DAVID

 (Rei David, Domenico Zampieri)


Nenhum homem esteve mais perto
de Deus do que David
por razão da música e seus salmos
Quando tocava
a harpa, era Deus que respirava
Deus desfazia o silêncio nos dedos de David.

5/6/2013

© João Tomaz Parreira