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quinta-feira, 18 de maio de 2017

À ENTRADA DA TERRA DO LEITE E MEL




(Livro de Números, XIII )

Como os olhos dos doze às portas do leite e do mel
o desânimo vai ter olhos e as alegrias diante das videiras
de enormes cachos serão menores que o medo
o desânimo fará aumentar nas retinas
a estatura dos homens, gigantes como colossos
ocupam  as portas, o medo bate nos olhos
o desânimo aconselha cuidados,  regressar
às areias do deserto, à cabeça escondida na areia
e às sombras dos pequenos arbustos, não temos
ainda braços para abraçar a Terra Prometida.

16-05-2017

©  J.T.Parreira

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

SALMO DE NATAL


Alexey Kondakov  "Le Chant des Anges", de Bouguereau


Meu Deus, Meu Deus, por que nos abandonaram
Nestes lugares vazios?
Em trânsito de Belém da Judeia  para o mundo
Circunscrito dos homens, viajando
Em todos os comboios, com o sono
Do Menino em sobressalto, com anjos
Sem sapatos, que adormecem os ouvidos
Do Menino e de Maria
A tocarem nos intervalos do silêncio
Um glória a Deus na terra da alegria.


07-12-2016


© João Tomaz Parreira  

terça-feira, 1 de novembro de 2016

OUVE-SE UM CHORO EM ALEPO




Um choro se ouve em Alepo
É Raquel chorando os seus filhos
Que não regressarão da escola

O grande pranto triste do fundo dos úteros
Que ficaram órfãos

Ouve-se um choro em Alepo
É Raquel a despedir-se 
De si mesma.

01-11-2016  
João Tomaz Parreira



quarta-feira, 19 de outubro de 2016

PARÁBOLA DO SALMO DO PASTOR



As ovelhas são o meu alimento, oferecem
Com mugidos o leite que risca a noite
Com uma torrente branca, são o calor
Entre as minhas mãos, as ovelhas são a minha lã
Que me resguarda dos medos nocturnos
Pelo rebanho me levanto no meio do luar
Para encontrar entre os espinhos a centésima
Enquanto as noventa e nove estão presas
No redil às próprias sombras.



19-10-2015
© João Tomaz Parreira

domingo, 28 de agosto de 2016

ONDE DAVID PÕE OS OLHOS

Micro conto 

                  

Do alto do terraço, que recebe toda a luminosidade com que a tarde se espraia e demora nas varandas, David perguntava com o olhar quem era aquela mulher.
Formosa, num despudor que talvez não fosse inocente mas sem exibicionismos, apesar da sua beleza jovial.  Deixava passar sobre o corpo, na sua leviandade,  o frescor da água do  banho.
David, pastor de povos, tinha um enormíssimo rebanho, mas foi logo apaixonar-se por essa pequena cordeira, e roubá-la ao marido.
A jovem mulher também passava os olhos, despreocupadamente,  pelo próprio corpo, as suas mãos tocavam-no inocentes,  sem ter um rasgo de lucidez  que a levasse a pensar que poderia estar a ser observada. Mas os olhares reais estão acima de qualquer leve suspeita. Um olhar de soberano pode ser uma ordem, como foi o caso.
O vento não soprava com força, era um leve ventar, mas os cabelos compridos de Bate-Seba, molhados, não acompanhavam as voltas e revoltas do vento, eram ornatos negros que se moviam apenas aos movimentos do corpo.
Fazia-se sentir, no entanto, nos ramos das plantas ornamentais,  nas talhas douradas que adornavam o terraço.  E foi esse vento que agitou os véus e fez descobrir como, quase nua, se lavava Bate-Seba.
Ela lavava-se não tão inocentemente quanto possa parecer, como muitos séculos depois Pilatos, pegando numa bacia, lavou as suas mãos diante da multidão.

28-08-2016

© João Tomaz Parreira  

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

JESUS–NO NOVO FILME “BEN-HUR”–“É UM INSTRUMENTO” ?





Quem viu há anos, ou nas sucessivas passagens nos canais de cinema do cabo, o filme Ben-Hur, baseado no romance de Lew Wallace do século XIX, interpretado por Charleton Heston, lembrar-se-á de que a figura de Jesus aparecia apenas em silhueta. Embora o enredo do romance se reporte a “A Tale of Christ”.
A nova readaptação de “Ben-Hur”, de 2016, trata a mesma história, como uma aventura desse tempo, sobretudo aventura ética e religiosa, em que os judeus têm uma palavra de supremacia moral a contrapor aos romanos, reforçando no filme o que foi o romance, classificado com algum exagero como “o mais influente livro cristão do século XIX”.
No que concerne à figura de Cristo no filme épico pré-cistão de 1959, Jesus não aparecia directamente, mas apenas em silhueta. 
Neste filme de 2016, a personagem Jesus (o actor Ricardo Santoro) aparece para construir todo o sentido ao protagonista Ben-Hur e à sua transformação espiritual.
O actor principal, Jack Huston, no papel de Ben-Hur, para reforçar a aparição de Jesus no filme, valorizando com legitimidade esta mais valia do "remake" do clássico, declarou à imprensa que a figura divina aparece porque “Jesus é um instrumento”.
Compreende-se, embora desajustado, o que se quis dizer com isso, é que assim o filme reforça a mensagem cristã.
Mas Jesus Cristo não pode nunca ser visto como um “instrumento”. Talvez, sem querer, isso explique muito do que se passa com as “igrejas” neo-pentecostais, as IURD, e outras derivadas, que apresentam Jesus de facto como “um instrumento” para todas as coisas: financeiras, pseudo milagres, manipulação dos fiéis, etc.etc.
© 


sexta-feira, 22 de abril de 2016

O QUE DISSE UM DOS MALFEITORES



A caminho da morte não falou,  a sua boca
reservava-se ao silêncio divino,  dentro da alma
chorava talvez. Assim vi o melhor espírito de Israel
consumido pela dor
numa cruz, vestido do seu próprio sangue
atravessando  o coração do Pai.
Ao meu lado a arrastar a voz ferida
a deixar no ar palavras de perdão.
Digo
aquela cruz não era para um Deus, eu que sou
um malfeitor a quem  Ele deu uma rua de ouro
no Paraíso.

08-10-2015


© João Tomaz Parreira

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

PARA ENCONTRAR A CRIANÇA ENVOLTA EM PANOS





Deus pôs no céu a mão a guiar uma estrela
No meio de lugar nenhum
Que é o espaço indecifrável da noite
A luz era o único lugar visível, não se via
A mão que a guiava, foi com surpresa
Que a viram estacionar os anos-luz
Sobre um discreto estábulo de Belém.


18-12-2015

© João Tomaz Parreira

terça-feira, 3 de novembro de 2015

SALMO CENTO E VINTE E SETE

É inútil levantar cedo, desviar

O curso desta morte lúcida
Que é o sono, inútil será contar estrelas
Até que amanheça, ir ao berço dos filhos
Ver se respiram, fazer mais filhos
Para serem frechas na aljava do valente

Se o Senhor não guardar o pão do bolor
O  pão ganho com desalento
Se não guardar da casa a trave-mestra
Nem vigiar nos olhos da sentinela
Tudo será vão como a areia
Que não resiste ao vento


12-09-2015
©  João Tomaz Parreira

domingo, 11 de outubro de 2015

SALMO 137 DO SÉCULO PASSADO






Sentávamo-nos junto aos muros do gueto de Varsóvia
e chorávamos com uma estrela no peito,  nas sombras
dos casacos rotos, pensando
que éramos o povo escolhido.  Deus
estava em Jerusalém e lá pendurámos  nossas preces.
Os que nos tinham feito prisioneiros pediam-nos
que cantássemos com a nossa boca
cheia de pão negro, aqueles que nos haviam de destruir
queriam a nossa alegria. Mas como era possível
que entoássemos outro cântico senão um kaddish
pelos mortos? O canto do Senhor em terra estranha.
Se tu, Senhor, te esqueceres de nós, seremos harpas
partidas e as nossas cinzas voarão pelos ares
como um silêncio.

10-10-2015


©  João Tomaz Parreira  

terça-feira, 4 de agosto de 2015

VIAGEM



Não nos ajoelhamos nas margens
do Mar, mas nossos joelhos tremiam
com o chão pela cavalgada dos egípcios
O que seria de nós diante
das vagas fechadas do Mar Vemelho
se a vara de Moisés não esculpisse
nas águas moles dois muros de vidro.
Até hoje 
nunca nos ajoelhamos
nem no Muro das Lamentações
nem à entrada das câmaras da morte
onde uma água falsa nos removeria
a vida.  


04-08-2015
©  João Tomaz Parreira


segunda-feira, 13 de julho de 2015

MAGNIFICAT



Eu quero este filho que o céu plantou
No meu ventre, que desceu ao mesmo tempo
Que as palavras do anjo, com a agitação
Da luz nas cortinas no meu quarto
Ele terá o andar de Deus quando pisou o Éden
Terá o andar de Deus sobre a terra, terá nas mãos
E nos pés todo o poder
Pela força clara do sangue que virá
Da sua grande ferida
Eu quero este filho, que o meu ventre
Virgem já enlaça, humilde ventre entre as mulheres
Ele encherá de alegria as multidões
Entre o silêncio e a agonia.


13-07-2015
© João Tomaz Parreira


segunda-feira, 22 de junho de 2015

a Mulher

    (Nicolas Poussin, Louvre, 1653)

              
onde estão, Mulher, aqueles teus acusadores?
que vieram escondidos atrás das sombras
como falsificadores de Moisés, onde estão
aqueles que escutaram  através das paredes,
que não vêem
senão a carne dos dramas alheios, os que trazem
o incenso do sexo na cabeça
e  denunciam o que pode ser um amor
errado, mas ainda assim amor.
onde estão, Mulher, aqueles acusadores
que se vestiram com vestes empertigadas
para o solene cortejo, para te levarem ao cúmulo
das pedras, onde estão agora
aqueles que usaram na voz a volúpia rasteira,
todos aqueles que medem tudo com o ranger
dos dentes da sua santidade?

22-06-2015

© João Tomaz Parreira

quinta-feira, 11 de junho de 2015

O SALMO 8 POR UM POETA SECULAR




Não se pode averiguar o peso quântico da eternidade
Na oficina celeste, todos os anjos reunidos
Não sabem a mais leve partícula do nome Deus
Não há espaço no Céu para conter Deus
Todo o Céu fica aquém, só as Suas mãos
Que fazem e desfazem astros estão para lá de tudo
O que nos adormece em segurança quando olhamos
O Espaço, quem somos nós para limitar Deus ao quarto
Onde dobramos os joelhos e citamos várias vezes a nossa vontade
E contudo
Não sendo o Seu corpo que habita nos templos
Feitos pelas mãos dos homens
Só o Seu olhar  agrega-nos a todos como um alvo
Do Seu Amor no fio do horizonte.

09-06-2015

©  João Tomaz Parreira 

domingo, 10 de maio de 2015

SHOAH




os faraós não o fizeram
os babilónios também não
queriam apenas que cantássemos canções
dos nossos pais, os judeus

teríamos um papel único na morte ocidental
os judeus iriam deixar de existir, gritavam
nas praças do ódio as multidões
no dorso dos cavalos das Valquírias

ficariam apenas os vestígios
dos nossos óculos cegos, dos cabelos
emaranhados de Medusa

e dos  sapatos como um monte de Sião
o nosso coração já não teria mais espaço
onde repousar  todos os mortos

10-05-2015
© João Tomaz Parreira 

quarta-feira, 15 de abril de 2015

É TERRÍVEL SER O SENHOR



“Καὶ ὁ λόγος σὰρξ ἐγένετο καὶ ἐσκήνωσεν ἐν ἡµῖ “
(E o Verbo se fez carne e habitou entre nós)
J. 1,14

É terrível ser o Senhor e estar sentado à mesa
entre os homens, subir a crosta da terra
até ao cume onde já foram contados outros
malfeitores, andar entre os leprosos com a carne
diáfana e pura de ser Deus, partilhar
de todas as manhãs como artesão do sol
É terrível ser o Senhor entre cegos
e andar eterno no limite temporal.

14-04-2015
© João Tomaz Parreira 


sexta-feira, 3 de abril de 2015

PILATOS DIRIGE-SE AOS JUDEUS


João Tomaz Parreira


Eis o Homem
que chegou aqui pelo valor mais baixo
que às vezes tem o beijo, o da traição
Este que chegou a golpes de chicote pelo corpo
e pelas faces em silêncio que oferecia
às bofetadas. Este que chegou aqui
pelo crime de ser Deus
com uma cruz difícil sobre as costas.

02-04-2015




segunda-feira, 30 de março de 2015

O QUE DISSE DAVID NA CORTE DE SAUL


(Rembrandt, "David tocando harpa para o rei Saul", c.1630/31)



“David tocava harpa, e a dedilhava; então Saul sentia alívio”
I Livro de Samuel, 16,23



Dai-me o coração de Saul e farei dele uma harpa
E aliviarei com ela os pensamentos de sangue,
Uma harpa apaziguadora,
E tirarei as sombras dos seus olhos. Depois
Dai-me uma funda e com ela partirei o ar,
Cinco pedras vivas
E conquistarei um gigante e farei um reino.


30-03-2015
© João Tomaz Parreira

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

SOZINHO NO JARDIM




A morte preparava os raios da próxima manhã
Ele está acordado, a única maneira de ascender
Ao Pai, no escuro
É  a oração, em forma de um cálice de agonia
Se fosse possível passar, pediu com os olhos
Afastando as sombras do jardim
Pôs-se triste, ao tocar no silêncio
Dos discípulos que dormiam. 

19-02-2015
© João Tomaz Parreira 

  

sábado, 7 de fevereiro de 2015

POEMA


Apocalipse, 22, 1-5

Há um rio que se chama cristal, o brilho
Das folhas aladas da árvore cobre,
De margem a margem, o rio como um céu
Esse rio chamado cristal repousa
No fundo do Apocalipse, não há mar
Esse rio sabe-o e espera que a cidade se habite
De santos e de anjos e dos maravilhosos olhos
Do Cristo
Nela se multiplicam mil anos.
Por cada dia que não passa.

© João Tomaz Parreira