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terça-feira, 27 de março de 2012

O CERCO DE JERUSALÉM



Poema Inédito de J.T.Parreira


Jerusalém, o vento
não fará das nossas pedras sandálias
a beleza das pedras
será como algodão no ar dos nossos sonhos
cada vez que os nossos olhos perturbados
caírem sobre elas
Jerusalém, coração do mundo
o nosso sangue escureceu
as pedras, não se tornou neve
nem cinza, o nosso sangue
como o ocaso, espera em lume
o novo dia, nossas janelas
abertas nas pedras dão já para esse dia.

26/3/2012


segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

AQUELE QUE DORME NO MAR

Aquele que dorme em plena tempestade
que dorme
entre os destroços do mar
quando as ondas rivalizam com o vento
Aquele que dorme inexprimível
diante do espanto dos discípulos
como se fosse o barco um torpor
silencioso, alheio à morte
dorme
O que sonha Aquele que dorme
em plena tempestade? Embora
não se saiba nada da infância
sonhava com o mel que a sua voz
dizia, com o Verbo, nas regiões celestes?

24/2/2012

(c) J.T.Parreira

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

As Mães


As mães são as mais altas coisas
que os filhos criam”

Herberto Helder


As mães são o melhor que paira

sobre os filhos

nenhuma outra voz

deveria ficar para sempre gravada

na nossa pele

nenhum outro músculo

como o coração das mães deveria

ser eterno

senão o das mães, mesmo daquelas

que na extrema pobreza pairam

sobre os filhos.

22-1-2012 

J.T.Parreira

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

João XV


 “Egô eimi ê ampelos ê alêthinê”
Jesus Cristo
 

Eu sou a videira verdadeira
amo
todas as minhas varas
dobro sobre os ramos o meu amor
A água das mãos do lavrador
os limpa do fogo do sol
e do peso dos tumores mortais
porque amo, soltarei cachos
nas pontas férteis dos ramos.

9/1/2012
 

J.T.Parreira

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Maria de Schubert




Poema inédito de J.T.Parreira

Tem nos seus olhos um filho
a tremer de frio
sob o sólido
fogo de uma cruz, um amor
moribundo, que deixa
um tapete
macio de sangue no caminho
no seu ventre agora existe
um espaço
onde quereria guardar
o seu menino.

31-10-2011

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Contador de Estrelas


Inédito de J.T.Parreira 

" Esta noite vou contar as estrelas"
Brissos Lino


Faço questão de continuar a contar estrelas
elas
sabem quando um poeta invade
o seu reino de trevas aparente
-porque não vemos o leite das eternas manhãs
das nebulosas e galáxias- e tremem
muito mais
e se pudessem ficar fora
do controle de Deus, viriam até nós
envelhecer nos nossos olhos.

20-10-2011
 

sábado, 8 de outubro de 2011

As Cartas

AS CARTAS

Eram cartas sem resposta
apenas num sentido, como as raízes
irrompem da terra na flor vertical
impossíveis de responder, as cartas
ardiam no pergaminho, como a sarça
a viver num fogo celeste
e sem peso
vertiam-se na voz de quem as lia
o céu está nas cartas, é um lugar
na terra, em Corinto ou em Éfeso.

8/10/2011
 

Inédito de João Tomaz Parreira

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Um rapaz fugido de casa



 “Vale a pena voltar, mesmo que seja diferente”
Cesare Pavese
 



Bebendo a manhã molhada
de braços caídos, a única possessão
o vazio
nas mãos, feito de coisas que passaram
feito de coisas duma vida
outrora cheia, este rapaz
a quem chamaram pródigo, fugido
de casa, vem pela penumbra
do regresso, ainda não sabe
que os olhos do pai não têm vacilado
diante das estrelas
que os olhos do pai têm bebido
cada dia, cada hora o último fio de sol
até à madrugada.

25-9-2011 (Inédito)
J.T.Parreira

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Jardim do Éden


 “Lá onde existem as remotas/luzes”
Vicente Aleixandre


Onde existiram cores remotas
luzes próximas
de serem estrelas não desfeitas
ainda nas poeiras, metais
afinados pela Imensa Mão
Lá onde o pó
se tornou consistente
no corpo de um homem
e havia uma árvore com raízes
directas ao espírito desse homem
Lá onde existiram raios solares
dos quais não fugiam os olhos
e onde a noite podia refulgir
onde os animais se afagavam
sem lutar pelo seu nome
Lá onde o Paraíso foi
um pássaro imenso
com uma espada de lume.
 
14/9/2011

Inédito de J.T.Parreira

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Por um rio que havia em Babilónia


poema de J.T.Parreira

Por um rio que havia em Babilónia
nossos olhos perguntavam pela foz
nossas mãos colhiam e deixavam
passar por entre os dedos as estrelas
num rio que havia em Babilónia
nas margens assentamos
o coração cansado
e os cordeiros, como as harpas
presos aos salgueiros
a um rio que havia em Babilónia
descalçamos as alparcas
e lançamos orações
como a um muro de águas.

1/9/2011


 

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

O que Adão disse no Éden

Poema inédito de J.T.Parreira

Eating the peach, I feel like a murderer.

Henry Cole

Comer o fruto como um homicida
que se esconde atrás dos olhos fechados
Arrancar o fruto dos ramos como a noite
arranca a estrela cadente
para perdê-la
nas águas de um buraco fundo
Mergulhar o sabor do fruto
na corrente jovem do meu sangue
enquanto os dentes desferem
golpes letais na polpa
para aprender a ter fome
depois empurrar como uma pedra
meu próprio corpo
até à morte.


28/8/2011




sexta-feira, 24 de junho de 2011

Poucas vezes a fome terá tido



Poema inédito de João Tomaz Parreira

Poucas vezes a fome terá tido
tanta altivez
como nos caixotes do lixo, com a cabeça
triste, levantada, a procurar
poucas vezes o homem terá sido
tão ignorado
pelo homem como quando lança as mãos
como uma rede
para apanhar o seu quinhão de ar
Estar escondido atrás da claridade
das cortinas da janela
e ver essa altiva pobreza, poucas vezes
terei tido nos meus olhos
a beleza dolorida de ser homem.

24/6/2011

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Exteriores (Carta de João em Patmos)

João Tomaz Parreira

Mandem de Éfeso um pouco de sal
Da nossa terra venha um pergaminho
Desenrolar maravilhas.
Tragam também um cântico para passar
No coração a voz dos irmãos,
Mandem todo o fogo que ardia
Do primeiro amor,
Um cheiro do anoitecer no vento,
Mandem-me para amenizar o azul
Quente que vem do mar.

Queria também que as trevas
Não enchessem o pouco verde
Da ilha.

Enviem-me pássaros para fazer
Das asas as sombras do vento,
A frescura quando assento
Nas pedras, o silêncio do olhar.

in e-book "Na Ilha Chamada Triste", sobre João em Patmos. Editado por Sammis Reachers.

sábado, 28 de maio de 2011

Não era ainda o maná no deserto


“Oraram, e ele fez vir codornizes, e saciou-os com o pão do céu”
Salmo, 105,40




Não era
ainda o tempo do maná
o pão sem raiz
solto dos céus, ainda era o tempo
das robustas panelas
das lágrimas dentro das cebolas
não era o tempo ainda
do céu com codornizes frescas
como a sombra da tarde
era o tempo da argila escravizar
as mãos e da recusa
da esperança vir aos palcos da alma
dar a face.

27/5/2011


João Tomaz Parreira

sábado, 14 de maio de 2011

Sozinho no Getsémani


“A minha alma está profundamente triste até à morte”
Jesus Cristo



Fiz sozinho as minhas pegadas
até aqui
e o veludo da noite pousando
nas pedras limou as arestas
a minha angústia vertendo gotas
pela minha fronte
meus olhos sozinhos
palmilhando o céu deixaram pegadas
cada anjo alheou-se de mim
na noite a transbordar de estrelas
como um cálice
nesta noite como a água
de sombras de um poço imenso
fiz sozinho as pegadas
da agonia na minha alma até aqui.

14/5/2011

Poema inédito de J.T.Parreira

sábado, 7 de maio de 2011

O Salmo




Quem vem por cima do vento
tangendo uma harpa
quem vem tangendo nuvens
na harpa, como na sua casa
quem vem
tangendo a harpa como se derramasse
sobre a terra um vaso de água de cristal
quem vem a tanger a sua harpa
espalhando asas pelo ar
e a excitar o gineceu das rosas.


3/5/2011
João Tomaz Parreira

domingo, 10 de abril de 2011

Poema para Paixão, inédito de J.T.Parreira


Tu foste, apesar do cobre das lanças
e do cálice
de prata, Tu foste, envolto
na bela noite de Abril
e entraste na casa onde começaram
sacerdotes a jugular o cântico dos anjos
e o céu, que Te lançaram à face
Tu foste, mesmo assim
e abriste os braços como uma cruz
sem sinos a dobrar o som
E agora sem mais sofrimento
eu sei para onde foste, é bom.

10-4-2011

sábado, 1 de janeiro de 2011

O meu Salmo 121


poema inédito de João Tomaz Parreira


Tenho tido os meus montes
e à sua volta anéis
de nuvens, circulando
com átomos tristes de água

Os meus olhos procurariam
nada, um mergulho no escuro
mas um pé em falso
romperia a ténue película
que me sustém a vida

Nos meus montes peço socorro
de onde virá a mina de oiro
a fonte dos cristais
da pura água
mas um salto no escuro
e seria o fim

O meu socorro vem do Senhor
que fez de céu e de terra
esta distância
que trazem os meus olhos.

31/12/2010

sábado, 6 de novembro de 2010

Noli Me Tangere

Não me toques
que o meu corpo é agora inconsumível
nem o beijo dos anjos tocará meu rosto
deixa a tua mão
na fronteira do amor que se desprende
do meu corpo, a minha carne
agora é um cristal.

5/11/2010

J.T.Parreira