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quarta-feira, 28 de março de 2018

UMA VIAGEM COM C.S. LEWIS







João Tomaz Parreira

O Narrador entrou numa fila extravagante para apanhar um autocarro, uma pequena multidão heteróclita esperava já o mesmo transporte. Essa paragem parecia ser o único lugar com vida de uma cidade deserta e sem beleza.
É o início do livro de C.S.Lewis cujo título original é “The Great Divorce” e na tradução em língua portuguesa “A Viagem”.
A passagem para o português, por Richard King e Lurdes Oliveira, usa vocabulário e sintaxe cuidados, dialogia e harmonia entre as frases, concordâncias irrepreensíveis, respeitando a semântica do autor, e como complemento útil, excelentes notas referenciais do Editor. Reconheço desconhecer o original, mas a leitura desta tradução é, sem dúvida, uma reescrita.
Sem meios, de momento, para fazer comparatismo com a tradução brasileira (O Grande Abismo, da Editora Vida), o que posso aduzir é que a versão A Viagem fazia falta na nossa língua comum.
O editor, meu amigo de há muitos anos, João Pedro Martins, do Desafio Miqueias, e o ilustrador da capa, também meu amigo Natanael Gama, fizeram um trabalho excelente.
O grafismo da capa, estruturado numa “linguagem gráfica” de BD(banda desenhada), reflecte essa viagem, que metaforicamente parece ser nocturna, isto é, com suficiente mistério e encantamento, como quando o dia nos dá os seus primeiros sinais envolto em neblinas.
Esta obra de Lewis é um contraponto, para não dizer confronto a uma outra, centenária, do poeta William Blake em que este faz um casamento entre o Céu e o Inferno. Assim, estando o leitor no domínio do que está para além de si e no diáfano espaço do celestial, dir-se-ia que a leitura de “A Viagem” se fará sempre com a predominância da sétima função da linguagem, para usar a expressão de Roman Jackobson, a linguagem mágica e encantatória.
De resto, como sabemos, desde As Crónicas de Nardia, C.S.Lewis sempre a utilizou nas suas alegorias.
O livro que comecei a ler não foge a esta “regra”, que em Lewis é um estilo irrefragável. É uma metáfora, é uma grande fábula, e se quisermos dizer de outra maneira, mais “bíblica”, é tipológico. Dir-se-ia que parece, no âmbito das intertextualidades, o Huis Clos ( À Porta Fechada ) de Jean-Paul Sartre, mas com uma multidão de protagonistas.
Do ponto de vista literário, que deve ser sempre aquele pelo qual abordamos a obra de Lewis, temos pela frente literatura do fantástico, que antecipou, de certa maneira com conteúdo teológico-cristão, a literatura sul-americana de Gabriel Garcia Marquez a Julio Cortázar. E séculos antes do autor de “Crónicas de Nardia”, John Bunyan com “O Peregrino”.
Em “A Viagem”, Lewis reflecte sobre a temática que é da bagagem do Cristão: a concepção do Céu e do Inferno. A vida – vivências, circunstâncias, conflitos, concordâncias - para além da morte.
Ambos os lugares não se interpenetram, tão-pouco se equivalem, não devem equivaler-se porque são equidistantes na vida do Cristão. Num “Study Guide” da obra, assinada pelo próprio autor, ao que suponho, lemos no início desse Guia de leitura que “não há um céu com um pouco de inferno”, nem o contrário.
O que existe entre ambos, é um abismo.
Percorrendo as páginas e tendo encontros com as personagens, temos a sensação de que nos deparamos com um texto, que é mais do que ficcional, é uma mitopeia, uma “mythopoeic fairy”, (conto de fadas ou mitopoema, para usar um neologismo traduzido do inglês).
É a imaginação a funcionar, tal como no clássico do século XVII de Bunyan, numa metalinguagem que se percebe ser (nas págs. 28 e 30) do âmbito do sobrenatural, melhor dito, do maravilhoso ou do domínio do extra-subjectivo. Como os filósofos, C.S.Lewis interpreta aqui a vida para além da morte de modo variado e, por vezes, iconograficamente, para transformar isso nas relações do quotidiano. Um dos referentes, a Morte, tem um código próprio, tal como o céu e o inferno na linguagem lewisiana para nos falar de A Viagem.
- Prefiro morrer”- diz uma personagem (o Fantasma, que é uma mulher)
- Mas já morreste! Não adianta ignorar isso”- disse o interlocutor ( o Espírito)
É uma obra estruturada no onírico – no final (pág.150), percebe-se isso -, como O Peregrino baseado num sonho, com as personagens dramáticas inominadas, sejam o Inteligente, o Poeta Desgrenhado, o Grandalhão e o Baixinho, o Luminoso, o Fantasma Esquálido e o Fantasma Episcopal, o Espírito, como no romance de Bunyan são, por exemplo, o Cristão, o Obstinado e o Adaptável, etc.
Não é uma obra com citações bíblicas a propósito e a despropósito, como encontramos hoje em alguns livros “evangélicos” que usam as Sagradas Escrituras como pretexto para escrever um “best-seller” de auto-ajuda por detrás do texto sagrado.
É uma obra de induções, isto é, induz-nos ao pensamento bíblico e conduz-nos à teologia, repondo desde a época em que foi escrito, 1945, até hoje, a concepção perdida da existência do Inferno e do Céu e da viagem do Crente e do Ateu para esses lugares.
Não é uma obra apocalíptica, no sentido da escatologia. O que é, de facto, é apenas um romance cujo locus é o após-a-morte, mas com diálogos como se fossem uma conversa entre as personagens em vida, e, no entanto, elas são dramatis personae que morreram e vivem já no plano da vida eterna.
No que concerne a aspectos teológicos sem mais, que são detectáveis, Deus e Jesus Cristo, o Cristianismo e a Verdade perpassam neste livro na forma de diálogo ou nas chamadas discussões de sociedade teológica.
Há, porém, uma metáfora que, neste livro de CSL, é indubitavelmente da teologia por muito que o homem queira esquecer-se, o Inferno. Mesmo quando o narrador adoça o termo com uma, impressionante chamando-lhe “cidade sombria”, “cidade cinzenta”, com “a sua contínua esperança de alvorecer.”
A linguista búlgara Julia Kristeva escreveu que “a presença da linguagem é sensível nas páginas da Bíblia”, uso esta frase a propósito de A Viagem para dizer o contrário, que a presença da Bíblia confere sensibilidade à linguagem desta e das demais obras de C.S.Lewis. __________




terça-feira, 27 de março de 2018

OVELHAS NO MEIO DE LOBOS






A História nem sempre é linear e um caminho sempre para a frente, sem regressos. A História pode repetir-se, enquanto houver Humanidade.
É neste princípio, estas linhas, como legenda ao desenho*, sob um produto religioso que são as chamadas “igrejas neo-pentecostais”.
Estas, sob os mais diversos nomes, são uma tentativa canhestra, mas com grandes objectivos, para actualizar o que elas acham ter sido o Pentecostes e até o período subsequente da “igreja primitiva” dos Actos.
Barulho, “canções” repetitivas, emocionalidades sem controle por iliteracia teológica, “espiritualidade” à flor da pele, desvios bíblicos, captação de recursos do “crente” para o suposto “bem” comunitário, com vista à prosperidade. E, pelo meio, “teólogos” de pacotilha e de coaching.
Num breve sintagma: lobos no meio do rebanho, e, infelizmente, há rebanhos sinceros que se deixam enganar pelos lobos. 

J.T.Parreira © 

*In The New York Times

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

SALMO DE NATAL


Alexey Kondakov  "Le Chant des Anges", de Bouguereau


Meu Deus, Meu Deus, por que nos abandonaram
Nestes lugares vazios?
Em trânsito de Belém da Judeia  para o mundo
Circunscrito dos homens, viajando
Em todos os comboios, com o sono
Do Menino em sobressalto, com anjos
Sem sapatos, que adormecem os ouvidos
Do Menino e de Maria
A tocarem nos intervalos do silêncio
Um glória a Deus na terra da alegria.


07-12-2016


© João Tomaz Parreira  

terça-feira, 1 de novembro de 2016

OUVE-SE UM CHORO EM ALEPO




Um choro se ouve em Alepo
É Raquel chorando os seus filhos
Que não regressarão da escola

O grande pranto triste do fundo dos úteros
Que ficaram órfãos

Ouve-se um choro em Alepo
É Raquel a despedir-se 
De si mesma.

01-11-2016  
João Tomaz Parreira



quarta-feira, 19 de outubro de 2016

PARÁBOLA DO SALMO DO PASTOR



As ovelhas são o meu alimento, oferecem
Com mugidos o leite que risca a noite
Com uma torrente branca, são o calor
Entre as minhas mãos, as ovelhas são a minha lã
Que me resguarda dos medos nocturnos
Pelo rebanho me levanto no meio do luar
Para encontrar entre os espinhos a centésima
Enquanto as noventa e nove estão presas
No redil às próprias sombras.



19-10-2015
© João Tomaz Parreira

sexta-feira, 22 de julho de 2016

A ÁRVORE






Era uma árvore, no meio do jardim
sabia a verdade das coisas: Adão e Eva
a esconderem os olhos do seu próprio sexo;
ou os querubins com uma espada
torneada a fogo,  que  guardaria
a melancolia de um jardim vazio.


21-07-2016

© João Tomaz Parreira

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

PARA ENCONTRAR A CRIANÇA ENVOLTA EM PANOS





Deus pôs no céu a mão a guiar uma estrela
No meio de lugar nenhum
Que é o espaço indecifrável da noite
A luz era o único lugar visível, não se via
A mão que a guiava, foi com surpresa
Que a viram estacionar os anos-luz
Sobre um discreto estábulo de Belém.


18-12-2015

© João Tomaz Parreira

terça-feira, 3 de novembro de 2015

SALMO CENTO E VINTE E SETE

É inútil levantar cedo, desviar

O curso desta morte lúcida
Que é o sono, inútil será contar estrelas
Até que amanheça, ir ao berço dos filhos
Ver se respiram, fazer mais filhos
Para serem frechas na aljava do valente

Se o Senhor não guardar o pão do bolor
O  pão ganho com desalento
Se não guardar da casa a trave-mestra
Nem vigiar nos olhos da sentinela
Tudo será vão como a areia
Que não resiste ao vento


12-09-2015
©  João Tomaz Parreira

terça-feira, 15 de setembro de 2015

A literatura e as artes cristãs em revista: AMPLITUDE




AMPLITUDE é uma revista de cultura evangélica, com foco principal em ficção e poesia. Mas nosso leitmotiv, nosso motivo de ser e de existir, é a arte cristã em geral: Transitamos por música, cinema, fotografia, artes plásticas e quadrinhos. Publicamos artigos, estudos literários, crônicas e resenhas.
      Nossa intenção diz respeito àquela despretensiosa excelência dos humildes. Nosso porto de partida e porto de chegada é Cristo. Nosso objetivo é fomentar a reflexão e a expressão, AMPLIAR visões, entreter com valores cristãos, comunicar a verdade e o belo e estimular o engajamento artístico/intelectual entre nossos irmãos.
Nosso preço é nenhum: a revista circula gratuitamente, no democrático formato pdf.
      AMPLITUDE, revista cristã de literatura e artes, nasce como um espaço inter ou não-denominacional aberto à criação daqueles que por tanto tempo foram silenciados pela visão oblíqua e deturpada do velho status quo que via nas expressões artísticas algo menor, indigno ou mesmo inútil ao cristão ou à igreja.  Um fórum para os que tem-se visto alienados de veículos de expressão, de formas de publicar/expor/comunicar, de interagir entre pares, e para além dos pares.
      Esta revista nasce com dois anos de atraso, desde a gestação da ideia de uma revista dedicada fundamentalmente à nossa literatura, em conversações com o poeta e escritor lusitano J.T.Parreira. Porém, projetos outros impediram naquele momento a concretização da ideia.
      Como a focalização de nossas lentes recai fundamentalmente sobre a ficção e a poesia, esta edição inaugural chega com força total: são oito contos. Na poesia, contamos com nomes consagrados como o próprio J.T.Parreira, Israel Belo de Azevedo, Joanyr de Oliveira, Gióia Júnior e outros, aliados a novos nomes de excelente produção.
      O anglicano George Herbert, uma das figuras centrais dos assim chamados poetas metafísicos ingleses, inaugura a seção Jardim dos Clássicos.
      Marcelo Bittencourt apresenta sua história em quadrinhos Pobre Maria, encantando com seu texto e sua arte.
      Na seção de entrevistas, iniciamos com Veronica Brendler, idealizadora do Festival Nacional de Cinema Cristão.
      As artes plásticas são contempladas na seção Galeria, que abre suas portas com a obra de Rafaela Senfft, que também comparece com o artigo A arte moderna e a cosmovisão cristã.
      E vamos aos contos: O saudoso Joanyr de Oliveira, verdadeiro patrono da (boa) literatura evangélica, faz-se presente com o conto A Catequese ou Feliz 1953, onde o autor revisita os porões da ditadura brasileira, inspirado em eventos autobiográficos. J.T.Parreira comparece relatando sobre as crises ontológicas de Pedro, em Os Pronomes; e ainda o fino humor de Judson Canto em Uma mensagem imprópria; um singelo conto de Rosa Jurandir Braz, Você aceita esta Flor?; Célia Costa com o brevíssimo O que poderia ter sido, sobre o que poderia ter sido naquele Jardim de possibilidades; Margarete Solange Moraes com o pungente Filhos da Pobreza; este humilde escriba comparece com um conto de ficção científica, Degelo, ambientado em futuro(s) distópico(s); e Hêzaro Viana, fechando a edição com um forte e terno conto, Por Amor, em 12 páginas de ótima prosa.
      Confira ainda as seções: Notas Culturais, com pequenos flashes sobre o que rola na cena cultural cristã (e fora dela); Hot Spots, abarcando a cada edição citações da obra de um grande autor; Parlatorium, com citações diversas de autores de ontem e de hoje; e Resenhas, abarcando livros, música, cinema et al.

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quarta-feira, 15 de abril de 2015

É TERRÍVEL SER O SENHOR



“Καὶ ὁ λόγος σὰρξ ἐγένετο καὶ ἐσκήνωσεν ἐν ἡµῖ “
(E o Verbo se fez carne e habitou entre nós)
J. 1,14

É terrível ser o Senhor e estar sentado à mesa
entre os homens, subir a crosta da terra
até ao cume onde já foram contados outros
malfeitores, andar entre os leprosos com a carne
diáfana e pura de ser Deus, partilhar
de todas as manhãs como artesão do sol
É terrível ser o Senhor entre cegos
e andar eterno no limite temporal.

14-04-2015
© João Tomaz Parreira 


quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

SOZINHO NO JARDIM




A morte preparava os raios da próxima manhã
Ele está acordado, a única maneira de ascender
Ao Pai, no escuro
É  a oração, em forma de um cálice de agonia
Se fosse possível passar, pediu com os olhos
Afastando as sombras do jardim
Pôs-se triste, ao tocar no silêncio
Dos discípulos que dormiam. 

19-02-2015
© João Tomaz Parreira 

  

sábado, 7 de fevereiro de 2015

POEMA


Apocalipse, 22, 1-5

Há um rio que se chama cristal, o brilho
Das folhas aladas da árvore cobre,
De margem a margem, o rio como um céu
Esse rio chamado cristal repousa
No fundo do Apocalipse, não há mar
Esse rio sabe-o e espera que a cidade se habite
De santos e de anjos e dos maravilhosos olhos
Do Cristo
Nela se multiplicam mil anos.
Por cada dia que não passa.

© João Tomaz Parreira





segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

PASTORAL (Inédito)




O bom pastor discerne as minhas pegadas de outras pegadas
Perante o modo como me julga, pouca importa
O tamanho do Oceano Atlântico ou dos Mares do sul
Com  suavidade e a dureza
Dos seus ombros, vem ter comigo
Quando alguma coisa me empurra para baixo
Ou quando o medo cresce nas sombras, são suficientes
Os seus olhos sobre mim, são a arquitrave
Que suporta o peso do céu de um dia pleno de sol
Ou de tempestade.


26-01-2015

© João Tomaz Parreira 


quarta-feira, 19 de novembro de 2014

6.000.000




Seis milhões de nomes sob cinzas
toda a gente como de facto diziam
as estrelas
por cima dos vestidos
casacos sobretudos moribundos
Nenhum deles viu o fogo que nascia
dos fornos das galáxias da morte
seis milhões de nomes como cinza

Famílias inteiras com pequenos nomes
nos braços não chegariam
mais à idade de brincar nos pátios
ou os velhos
que jamais iriam acender a Menorá
iluminando o pôr-do sol de sexta à noite  

foram cinzas de seis milhões de nomes
que subiram à tristeza divina pelo ar.

13-06-2014

© João Tomaz Parreira 

terça-feira, 28 de outubro de 2014

SALMO 23 EM LINGUAGEM MODERNA



O Senhor é o meu gestor: nada me falta.
Os canais do meu coração são tranquilos, o sangue
mesmo com mais glóbulos brancos não tem rumores

de morte. A vida
não é um banquete contínuo, ainda assim
tem sido longa. A morada
da casa do Senhor não tem cânticos ruidosos
ainda é o silêncio
da minha alma.



26-10-2014
© João Tomaz Parreira

terça-feira, 14 de outubro de 2014

ALGUMAS COISAS QUE FIZESTE




Já dançaste em círculos à volta do bezerro, ébrio
do ouro a escorrer pelos teus olhos,  alguns
dos teus haveres empenhados  no caminho
rumo a Canaã; sentiste as tábuas da lei partidas
contra o teu coração, mesmo assim  colheste
dos arbustos sem nome o mais belo pão divino;
bateste numa rocha
e bebeste a água represada desde o dilúvio; viste gigantes
à porta da terra do leite e do mel, já longe
do Egipto começaste a ter a noção da saudade, a falta das cebolas
e da carne e olhavas para trás, com os pés no chão
andaste quarenta anos no deserto.

13-10-2014

© João Tomaz Parreira 

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

O QUE CANTOU A SULAMITA A PROPÓSITO DO SEU AMADO




Era uma vez o meu amado como uma macieira
o meu amado era distinto
entre as árvores do bosque,  jovem
a sua sombra ali estava contra os invisíveis
raios solares. Era uma vez o meu amado
como um fruto doce que derramava
frescura no meu paladar.

Ali estava o meu amado, era uma vez com passas na mão
e maçãs como um rubro engaste
Era uma vez o meu amado a acenar ao longe
com o vento nos seus braços, era uma vez
com um perfume que chegava nas mãos, o seu amor
ao redor dos meus cabelos como um laço.


 21-09-2014

© J.T.Parreira

terça-feira, 1 de julho de 2014

O QUE DISSE ISAQUE A REBECA QUANDO SE ENCONTRARAM





Minha irmã que possas dar vida a milhares de descendentes
Diria Isaque
quando subiram os seus olhos acima dos camelos
           
Refrescou seu sonho na cristalina água
dos olhos frescos de Rebeca, ambos
se abriram ao oiro da tarde

E descansou Isaque
o coração no regaço de Rebeca, no rosto
 adolescente do Amor tocou com suavidade.

16-05-2014

© João Tomaz Parreira 


sábado, 21 de junho de 2014

A COROA

Annibale Carracci, óleo s/tela, 1585


Repouso a minha cabeça para a coroa
de espinhos, ostentarei
o silêncio da flor envergonhada
com flechas no lugar das pétalas

Poderia no fim da vida
ter uma coroa que me amaciasse
a cabeça, mesmo que o reino fosse pesado
uma coroa limpa

Mas não, eu não poderia suportar uma coroa
que esmagasse em mim o meu amor
escarlate pelo mundo
para ter um reino na terra, se assim fosse
teríeis outras razões para a minha morte. 


20-06-2014
© J.T.Parreira 

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

DAVID



Nenhum homem esteve mais perto

de Deus do que David

por razão da música e seus salmos

Quando tocava

a harpa, era Deus que respirava

Deus desfazia o silêncio nos dedos de David.


5/6/2013

©   João Tomaz Parreira