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sábado, 17 de dezembro de 2011

O “NÃO” PRIMORDIAL

Artigo de João Tomaz Parreira

(a sair na revista Novas de Alegria, Janeiro 2012)


Não foi um salmista que inscreveu nas Escrituras Sagradas vários primeiros “nãos”, quando compôs o Salmo 1 como “porteiro” para confrontar aqueles que querem estar na Congregação dos Justos.

Muitíssimo antes foi o próprio Deus que ao promulgar um vastíssimo conjunto de “sins”, determinou apenas um “não”. O Não primordial. “Mas da árvore da ciência do bem e do mal, dela não comerás” (Gn 2,17)

Até este momento, a relação de Deus com a Sua Criatura, o Homem-Adão, estruturava-se, digamos assim, numa palavra: o Belo ou Bom (“E viu Deus que era bom”). Expandia-se esse relacionamento primevo apenas em Direitos, não chegara o momento do Dever arquetípico e explicíto.

Alguém escreveu, para o contexto do Éden, que “a provisão feita por Deus é modelo do cuidado paternal” (1)

Adão teve um abrigo, não uma prisão sufocante. Adão não era ainda mortal, embora feito de matéria precária (o pó, o barro, a terra ), mas o sopro divino, vivificante, o distinguiria das outras criaturas.

O Criador não era um deus determinista, que lançava o homem na fatalidade. A primeira residência do homem na Terra não foi um deserto, havia Beleza inocente mas também havia sedução, e o mais importante do relacionamento Criador-Criatura era o livre-arbítrio, a liberdade no Jardim.

O Éden, pela localização que posteriormente se passou a conhecer na Geografia, não era um símbolo, nem tão-pouco um mito ou um ícone ideológico para falar do verde, do belo, era um lugar (“plantou o Senhor Deus um jardim no Éden”, 2, 8). A forma hebraica para dizer “deleite” acabou no grego da Septuaginta a dizer “paradeisos”, (“parque, paraíso”).

Esse Paraíso promovia direitos, antes de qualquer constituição política, o usufruto universal dos bens divinos, os consequentes “sins” da liberdade de Deus para o ser humano, personificado no primeiro homem. E a liberdade de Deus é como Deus, ilimitada, irrestricta, porque – como escreve o teólogo Bernard Ramm (2) - “Ele é o Criador livre, o Reconciliador livre, o Redentor livre”. E a liberdade que concede ao homem é para que seja criatura diante d'Ele, em primeiro lugar, depois, criatura perante o mundo, que Ele criou também.

Foi nesta liberdade que Adão ficou diante de toda a criação, no Paraíso. Não podemos identificar as árvores, todas as árvores do Jardim do Éden, todas pertenciam ao homem no seu gozo pleno dos frutos das mesmas. A misericórdia divina, via-se e vê-se na multiplicidade, na multiplicação. O único desejo e escopo divinos de extinção de alguma categoria, é, sem dúvida, do Pecado.

Mas a liberdade inefável de Deus queria reter para si uma árvore, não por Sua causa, mas por causa dos “danos” que faria ao homem; e o Senhor, sendo cioso do seu “não”, ainda assim libertou o ser humano para a possibilidade de Escolher. E escolher implica Crise, isto é, tem todos os riscos da mudança.

Contudo, o Senhor no Jardim do Éden não confrontou o homem com uma escolha obrigatória, segundo o pensamento de Kierkegaard, nem com alternativas previamente
determinadas, na existência de Adão abriu-se a possibilidade existencial da opção.

O possível acto opcional de Adão, sabia-o omniscientemente Deus, iria cortar a relação, a liberdade iria estar acima da comunhão porque a liberdade é uma parte essencial da natureza do homem, o espírito é a fonte dessa liberdade. Adão ouviu o “não”, como não deixou de ouvir os “sins”.

Não havia, perante Deus, no Jardim do Éden, condições prévias para desobedecer – porque isso equivaleria ao controle do determinismo.

Mas no exacto momento da sedução, a quantidade desses “sins” disponíveis pelos cuidados divinos sucumbiu à qualidade do “não” primordial, a proibição, qualquer proibição depois disso, carrega em si o mistério. E tragédia.

Se se obedece, fica-se sem desvendar esse mistério; se não se obedece, fica-se a conhecê-lo e à tragédia. Mas valeu a pena? No caso edénico? Foi o que Adão e Eva escolheram. Desvendar o mistério do fruto e a tragédia. Diria que os chamados “nossos primeiros pais” sucubiram à paixão do “Não”.

Porque esta paixão é difícil de explicar, na sua interioridade, salvo melhor opinião, por isso é que a desobediência ao “não” divino é mais vezes usada em hermenêutica do que em homilética.

Raramente se ouve uma pregação centrada na preferência do “não” contra os “sins”. Às vezes até parece que se prima por proferir uma pregação determinista, da fatalidade, porque estava no Éden Satanaz a determinar tudo, o que não é verdade.

UM NÃO DIVINO E UMA ATITUDE DO HOMEM

Ao lermos atentamente a narrativa do Génesis (2, 16-17), não podemos, contudo, ignorar o termo “ordenou”, na oração gramatical “E ordenou o Senhor Deus ao homem”. O vocábulo oriundo de “ordem” ( há versões/traduções da Bíblia que usam a palavra “ordem”), deve ser pensada não em termos legalistas ou policiais, mas de uma Aliança tendente à responsabilização de Adão ( do ser humano) diante do Criador.

Tal Aliança não colocou em causa a soberania divina nem a liberdade de escolha humana. Assim, isso leva-nos, finalmente, à proposta de outro pensamento sobre a atitude de Adão: numa Aliança não pode haver desobediência, pode existir traição, e Adão e Eva trairam. “Nunca se é traído, senão pelos seus” - é um aforismo clássico, suponho que da psicologia. Apesar de traído (no Amor sublime que dedicava à Sua Criatura), mais do que desobedecido ( na sua soberania divina), Deus continuou a Amar Adão e Eva.

O Deus do Éden é o mesmo, não houve um Senhor para o Jardim e Outro fora do Jardim.

_______________________________________

(1)Génesis, Introdução e Comentário, Derek Kidner, pág. 57, Mundo Cristão, São Paulo

(2) Diccionario de Teologia Contemporanea, pág 24 e ss, Casa Bautista de Publicaciones,1975

João Tomaz Parreira

sábado, 19 de novembro de 2011

O Profeta Jeremias leitor dos Salmos

João Tomaz Parreira 

A questão levantada no título pondera uma possibilidade. Pensamos que sim pela sensibilidade demonstrada pelo profeta tanto no seu livro profético (com poesia também) como nas elegias bíblicas das suas Lamentações.

Mas sem a contextualizarmos, cronológica e textualmente, ficamos apenas no encalço dessa ponderação. Vejamos.

"Todavia abençoarei aquele que confia em mim e procura em mim a segurança.
Esse é semelhante a uma árvore plantada à beira de um regato, estendendo as suas raízes para a água. Não teme quando vem o Estio, porque as suas folhas permanecem verdes; pouco lhe importa se não há chuva; e não deixa de dar fruto."

Jeremias 17,8-9

A metáfora do bem-aventurado na imagem de uma árvore na margem de um ribeiro, é recorrente na poética hebraica, o que se compara é a vitalidade da árvore que busca o fluir da vida nas águas correntes, dependente dessa seiva que alimenta e fortalece as suas raízes, é o homem dependente de Deus.

Ao reproduzir uma imagem mental, da imaginação, perdoe-se-me a redundância, os salmistas e até o profeta Jeremias, estão a inscrever no espaço do sagrado a poesia, lírica e bucólica a um tempo, porque na prosopopeia da linguagem poética utilizada (“estendendo as suas raízes para a água”), estão a narrar o que poderia ter acontecido, o que não se pode ver a olho-nu, mas que se intui poeticamente: o movimento sedento das raízes.

No livro poético de Job lemos mesmo dois versos exemplares sobre calamidades que caem sobre o ímpio/iníquo: “ Não verá as correntes, os rios / e os ribeiros de mel e manteiga” , numa metáfora para expressar a quantidade de mel e leite e a fluidez da manteiga, segundo o costume oriental servida em jarras. (1)

Ora Job surge-nos num período de tempo anterior aos salmistas e a Jeremias, era um patriarca, e seja quem for – até o próprio - que tenha escrito o livro de Job como história de um homem cuja paciência foi capaz de comover Deus, estamos perante um livro arquétipo da poesia hebraica.

Eusebio de Cesareia parece fixar a data da existência de Job em eras anteriores a Moisés, no tempo de Isaque designadamente, cerca de 1800 anos antes de Cristo. E o local, Hus, entre a Palestina e o Eufrates.

Alguém escreveu com acerto, que não se pode estabelecer “um preciso sistema de datas” para o Livro de Salmos em geral. Salvo para aqueles que levam, obviamente, o nome dos autores, de Moisés a David, sobretudo. Seja como for, o Salmo 1 – designado por salmo do Limirar, Pórtico, Prefácio de todos os Psalmoi – é de autor desconhcido, mas entende-se que nunca poderá ter sido escrito depois dos profetas de Israel. Designadamente de Jeremias, que viveu e pregou no século VII A.C.

Basta-nos a simplificação actual do recurso à internet para na Wikipédia lermos que estabelecida a data de nascimento do rei David por volta de 1040 a.C., e sua morte em 970 a.C., escreveu e reinou sobre Judá de 1010 a 1003 a.C., e sobre o reino unificado de Israel de 1003 a 970 a.C.

Prefiro , contudo, folhear os livros e sentir a textura do vento das folhas a passarem, e nestes a confirmação acentua-se.

De facto, o historiador Flávio Josefo, no seu Livro 6º, nas suas paráfrases narrativas histórico-bíblicas dos Livros de Samuel, coloca David em contexto com os dias do primeiro rei de Israel, Saul, como sabemos.

Qualquer História de Israel não pode fazer outra coisa senão repetir a Bíblia Sagrada, como reconheceu, e.g., M.A.Beek (2). A verdade é que tal história pode pormenorizar pela diegese e até pela própria arqueologia bíblica, pormenores contextualizadores dos chamados tempos bíblicos. Sem descurar nunca que o “Velho Testamento deve manter-se como a principal fonte de consulta do historiador”.

Assim, todos os acontecimentos que se relacionam com o rei David se situam sem grande contestação dos cronologistas entre os anos 1011 e 972 A.C. E a sua poesia ao estilo hebraico, transformada por David que lhe infundiu o espírito da religião de Israel, a poesia bíblica dos Salmos, teve o seu apogeu nessa época, naqueles anos de ouro dos Louvores a Jeová.

Não obstante o primeiro Salmo não trazer indicação de autor, se considerar que não é da autoria de David, da quase unanimidade dos comentários referir que “ poucos Salmos são pré-exílicos ou totalmente depois do cativeiro” na Babilónia, está sempre contido entre os salmos pré-davídicos e do período anterior ao Exílio.

Salmo 1 (o salmo do Limiar)

Feliz é o homem que não anda

segundo o conselho dos íniquos,

Nem no caminho dos pecadores se detém,

Nem na roda dos escarnecedores se assenta.

Mas o seu prazer está na lei de Jehovah,

E na sua lei medita de dia e de noite.

Ele é qual árvore plantada

junto às correntes das águas,

Que em tempo próprio dá o seu fruto,

E cuja folha não cai (...)

in Livro de Psalmos (A Bíblia Sagrada, Soc.Bíblicas Unidas, Rio, 1947)

Não haverá dúvida de que a referência sapiêncial de Jeremias às condições éticas e morais, à fé e à inteira confiança no Senhor, de acordo com as quais o mesmo Deus abençoa, coloca as mesmas comparações do Salmo 1.

Os mesmos referentes e o mesmo Eu poético, as idênticas metáforas relacionais, o crente semelhante a uma árvore, as margens de um regato, as águas, as folhas verdes apesar do lume dos Estios, os frutos como consequência da vitalidade das raízes.

Uma prosa poética, sem dúvida, na mesma linha dos Salmos da Sabedoria. Jeremias era, naturalmente, leitor dos Salmos. Do mesmo modo que qualquer judeu com responsabilidades religiosas, antes e depois do exílio. O próprio Senhor Jesus Cristo, no que concerne às Escrituras Sagradas, ensinou sobre a sua leitura, sublinhou nelas as profecias sobre Si, “que importava se cumprisse tudo o que de mim estava escrito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos.” (Lc 24,44) As divisões principais do cânon judeu das Escrituras.


(1)- Comentario Exegetico y Explicativo de La Biblia, Tomo I, A.T., CBP, pág. 411.

(2)- História de Israel, M.A.Beek, Zahar Editores, 1967











quinta-feira, 21 de julho de 2011

As Quedas

Ensaio de João Tomaz Parreira



No Paraíso, Adão foi de Queda em Queda após a desobediência. Aplicaríamos aqui um verso clássico do poeta alemão Rainer Maria Rilke para caracterizar a espiral de solidão, de medo, de angústia, de deceção consigo próprio oriundas do interior de Adão: “ O belo apenas é o começo do terrível”.

A falha do homem (de Adão), na Aliança ou Dispensação da Inocência, lançou-o em várias Quedas. A sua experiência espiritual, existencial e moral com Deus/o Criador entrou pela porta errada da rebeldia e da desobediência e tais quedas revelaram-se na chamada Aliança Adâmica, de inocente passou a responsável e os custos dessa mudança foram tremendos para a Humanidade.

A Queda
No século XIX, o filósofo cristão Kierkegaard, pioneiro na definição da angústia do Ser humano como um efeito, apresentou a causa da mesma: a Queda no Jardim do Éden. Desde tal definição até hoje, tem-se manifestado grande dificuldade em traduzir a palavra “angst”, que serviu de base para o pensamento kierkegaardiano, no que concerne, designadamente, ao existencialismo cristão. O conceito traduzido, que tem vindo a ser usado, é “ansiedade”.

Não é novo este termo, nos seus efeitos visíveis. Adão terá sentido profunda e indefinível ansiedade no Paraíso, quando necessitou de se esconder de Deus e, nesse tempo de espera, revolver os seus arcanos angustiadamente e modificar o seu olhar sobre o próprio corpo.

O livro do Génesis narra o primeiro acontecimento físico da Queda, a expulsão do Jardim: “E, expulso o homem”(Gn 3,24)

O que tal expulsão significou, não esteve apenas no campo de uma deslocalização de um sítio para outro, de dentro para fora do lugar edénico; a expulsão do jardim foi a circunstância /o aspecto visível de um desligamento da Comunhão íntima com o Criador, operado no momento dito da Queda, quando Adão (o Homem) sucumbiu à tentação e se tornou desobediente a Deus. Antes da expulsão física, houve a espiritual e depois a existencial, se quisermos, e ainda a social, para aplicarmos termos que hoje nos são comuns.

Muito e incontável tempo depois, em pleno início da Igreja, Paulo de Tarso escreve que “todos pecaram e estavam destituídos da glória de Deus”(Rm 3,23)

Outra queda
Em vão procuramos nas Concordâncias clássicas e antigas, como a Cruden's ou a Concordances Verbales de Louis Segond, a palavra Queda para exprimir a passagem de Adão da inocência ao pecado. Não parece que disponhamos desse vocábulo para sublinhar a narrativa do Génesis.

O NT, apenas como um exemplo, quando refere “queda”, entre outras acepções usa este termo em relação a Israel (Rm 11:11). E por aí, expressões com os sentidos verbal e substantivo.

O termo “Queda” do homem é de uso da teologia e muito tardio já. Pertence, contudo, à história da salvação, não pode haver soteriologia séria que o não inclua. Pertence à pregação (ao querigma) mais do que à arqueologia dos termos bíblicos relativos ao Pecado original.

Assim surge desde as origens da linguagem grega ou hebraica como apostasia, rebeldia(rebelar-se), desviar, abandono, separação, etc. e, finalmente, perdição e ruína, no sentido moral e religioso.

Vários teólogos protestantes pós Kierkegaard usaram o termo para exprimir suas ideias, uns que se tratava de um mito narrativo para falar da condição do homem face a Deus, outros um paradigma para falar do “homem fora da vida divina”; Barth chama-lhe mesmo a “queda do homem”. A “queda” é a condição humana, numa palavra, o Pecado.

Seguindo a narrativa de Génesis 3, apercebemo-nos que da chamada queda original resultaram várias outras quedas.

A queda existencial ou psicológica.
Ao contrário do que Kierkegaard entendia, Adão (o homem) não “estava fora” da raça humana antes de desobedecer, de transgredir o limite imposto por Deus. Possuía livre arbítrio e relação espiritual com o Criador bastantes para escolher, não ainda entre o Bem e o Mal, (Gn 2, 16-17), mas entre ser ou não fiel ao Seu Amigo, com o qual se encontraria todas as tardes ( Gn 3,8), que lhe levou os animais e as aves para “ver como (Adão/o homem) lhes chamaria” (Gn 2,19).

Com efeito, Adão era -como sabemos pelas Escrituras Sagradas- o primeiro Homem da raça humana. Adão era um indivíduo concreto. A sua relação com toda a Criação era essencial, advinha da sua essência de homem criado à imagem de Deus, a sua existência não era simbólica. Essa existência de harmoniosa relação com o Criador foi destruída, Adão passou a viver entregue a si próprio, agora sabia o Bem e o Mal. A sua liberdade estruturar-se-ia a partir daí entre estas duas categorias.

Na sua busca incessante de um existencialismo cristão, Kierkegaard definiu a universalidade da Queda, agora com absoluta razão ao escrever: “a queda de Adão desenha a queda de todo o homem”

Queda social
Com a Queda, a realidade social de Adão alterou-se radicalmente. Usando linguagem contemporânea, diríamos que a função social de Adão foi guardar e cultivar o Éden. Função adequada à coroa da Criação divina, trabalho dignificador, promoção social que Deus conferiu para o homem participar na manutenção da criação. O que se poderia chamar teologia do trabalho, a partir do livro do Génesis, radica nessa acção primordial de que Adão foi incumbido.

A instituição do trabalho, não como contribuição redentora, nem como castigo, mas como facto participativo da Criação, não deixou de sofrer o estigma do Pecado, da desarmonia que este introduziu na humanidade. Uma teologia do trabalho não parte de outro ponto. Deste ponto de vista, apreciando na narrativa genesíaca a voz divina, entendemos que da alegria, do gozo do trabalho, Adão caiu para a obrigatoriedade do mesmo. Foi o que Deus lhe quis dizer, nestas palavras divinas: “ maldita é a terra por tua casa: em fadiga obterás dela o sustento durante os dias de tua vida. Ela produzirá também cardos e abrolhos (…) No suor do rosto comerás o tu pão” (Gn3, 17-19).

Foi uma queda social que acompanhou toda a desarmonia da própria natureza. A acompanhar esta queda, esta nova situação do primeiro homem, esteve outra que lhe marcou doravante o seu novo lugar: fora do Jardim. A expulsão do Edén foi, indubitavelmente, uma tremenda queda social; Adão do Paraíso foi relegado para o Mundo.

“E expulso o homem colocou querubins ao oriente do jardim do Éden”.(Gn. 3, 24)

Ainda assim, a misericórdia divina colocou Adão no caminho de viver, se bem com a morte dentro de si. A vida e a morte, o bem e o mal, o espírito e a carne, como estruturantes da nossa humanidade.


Análise/Perspectiva a sair na revista "Novas de Alegria", Lisboa, em Outubro.


sexta-feira, 1 de julho de 2011

CORRUPÇÃO: mal que tem origem nos hábitos cotidianos

Por Francisco Mesquita
Postei neste portal algumas semanas atrás uma leitura crítica sobre a prática do nepotismo. Muitos leitores, provavelmente, pensaram que tal análise se referia a ato de corrupção, e acertaram, pois o nepotismo é uma das formas de corrupção. Conforme Gianfranco Pasquino, corrupção é a prática ilegal de funcionário público se beneficiar ou favorecer a outro com bens públicos de modo não legal. Nessa noção, a corrupção estaria restrita ao setor público, mas veremos, logo adiante, que não é bem assim, uma vez que, no Brasil, esse mal se tornou parte da cultura social.

No âmbito do estado (setor público), segundo o cientista político italiano Norberto Bobbio existem três modalidades de corrupção: o nepotismo, que consiste da prática de gestor público empregar parente em instituições estatais, em prejuízo do mérito dos cidadãos; a peita, gratificação ilegal em dinheiro ou presente dado como suborno a um funcionário público, ou de funcionário publico a um cidadão em troca de algo ilícito – a chamada propina; e o peculato, crime do desvio de verba, do furto de dinheiro ou bem móvel apreciável por parte de funcionário público, em proveito próprio ou de terceiros. Resumindo, corrupção, strictu sensu, é o ato de empregar parente sem concurso no setor publico, receber ou dar gratificação em forma de suborno e desviar dinheiro público em beneficio próprio ou para terceiro.

Não obstante, existem outras formas de corrupção, por exemplo: funcionário – seja ele secretário, diretor, coordenador ou chefe – que utiliza a estrutura pública em beneficio próprio, usa o carro que dirige para levar o filho à escola, pegar ou deixar parente em algum lugar, fazer viagem de caráter pessoal, usa o veículo em final de semana sem estar em serviço, recorre a funcionário em horário de trabalho para fazer serviço pessoal, utiliza material público (papel, impressora, computador, etc.) em serviço pessoal, etc. Todos esses atos no setor público caracterizam corrupção.

Porém, as mesmas práticas, no setor privado, são lícitas, não configuram ato de corrupção. É o caso, por exemplo, de um empresário que pode nomear seu filho como diretor de sua empresa, e este pode utilizar o carro da empresa em atividades pessoais e familiares, recorrer ao material da empresa para serviço próprio e não há nada de corrupção nesses atos porque se trata de uma instituição privada. O que denota, então, um ato de corrupção é o fato dos recursos, dos bens, dos funcionários e o material serem bens públicos, da sociedade, de uma coletividade de cidadãos e não de um dono. Por isso determinada prática no setor privado não se caracteriza corrupção, mas no setor público o mesmo ato é nítida corrupção.

A prática de corrupção, como assinalada acima, tem raízes fincadas na cultura social através de pequenos (quase insignificantes) hábitos do dia-a-dia dos cidadãos, como: um aluno que não estudou ou se estuda não sabe um ponto específico do conteúdo da prova e no dia da avaliação pratica a conhecida “pesca”; um outro aluno que responde presença pelo colega ausente na sala de aula; um taxista percebendo que o passageiro não conhece o local de destino faz o percurso mais longo para ganhar mais; o cidadão que num determinado estabelecimento comercial recebeu o troco maior e não devolve, ou mesmo o caixa percebe que o cliente passou-lhe dinheiro a mais e não devolve troco. Todas estas práticas comuns no dia-a-dia das pessoas pavimentam a larga estrada da corrupção no setor público.

E soma-se a essas atitudes indesejadas o “famoso” e abominável hábito brasileiro do jeitinho, do se dar bem, do ser esperto, etc. Num total desrespeito as regras, as normas, os preceitos de se viver em sociedade civilizada. A sociedade, nesse caso, seja local ou nacional, torna-se ambiente de salve-se quem puder, pois vale a lei do mais forte. E ainda existem justificativas (esdrúxulas) para essas situações, como estas: pouca farinha meu pirão primeiro; besta é aquele que no setor público não aproveita; e se os outros fazem, porque não eu.

Viver de modo honesto e coerentemente numa sociedade com essa “filosofia” reforçando a cultura social e política é um desafio, pois os indivíduos são induzidos aos atos de corrupção, de oportunismo e de dar-se bem. Assim dessa maneira, a honestidade exigir do cidadão exercícios diários de uma conduta ética. Corrupção, portanto, não é só roubar dinheiro público, empregar parente na gestão estatal, fraudar licitações, favorecer correligionário, é também furar a fila, roubar a vez do outro, pescar na avaliação e favorecer amigo em detrimento de outros.

domingo, 13 de março de 2011

Um epigrama do Salmo 23 de Hemingway


Breve nota ensaística sobre um poema de Ernest Hemingway ( O salmo 23). Para ler aqui.
(foto: escritório de Hemingway, em Key West, Florida)

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

De uma Cruz a outra cruz: a palavra do Perdão


João Tomaz Parreira

A crucificação de Cristo apresenta-se aos olhos da história como um crime da religião, por isso pode ser integrada numa história universal da infâmia.
A infâmia é, para a cultura filosófica e literária, uma relação entre o mal e os homens, desde o filósofo Michel Foucault ao poeta Jorge Luis Borges, que assim o asseveraram e escreveram sobre ela.
Nesta perspectiva , podemos afirmar sob dado ponto de vista, que certos sectores religiosos judeus foram infames, mais do que os romanos, ao levarem Cristo a julgamento irregular, à condenação e à execução na Cruz, no Monte do Golgota.
Contudo, a frase de Jesus Cristo crucificado, uma das chamadas 7 palavras da cruz, “Pai, perdoa-lhes porque eles não sabem o que fazem”, parece redimir os judeus e os romanos da infâmia (a menos que o Senhor a estivesse a usar apenas para os romanos, que parece ser o caso histórica e hermeneuticamente), é que a inocência não pressupõe infâmia.
O referido poeta JLB, numa entrevista sobre a sua História Universal da Infâmia, disse, citando a frase de Jesus: «Eu julgo que Jesus sentiu isso. Sentiu que os seus carrascos, aqueles que o pregavam na cruz, não eram forçosamente uns canalhas. Eram soldados que deviam obedecer às ordens que recebiam.»

A circunstância da frase de Jesus
O quadro diegético (a narrativa) em que esta petição de Jesus se exerce, está registado apenas no Evangelho de Lucas e parece não oferecer discussão aos chamados Pais da Igreja( de Irineu, Clemente a Eusébio) ainda que não se encontre em todos os manuscritos gregos antigos.
As razões, do ponto de vista da elaboração do texto lucano canónico, estarão no próprio objectivo do Evangelho de Lucas e no mundo civilizacional que pretendeu atingir: os gregos, a cultura grega, numa palavra, os gentios, no sentido paulino. Também porque Lucas é a narrativa mais completa da vida de Jesus Cristo.
Assim, a inclusão daquele pronunciamento do Senhor reveste-se de um sentido teológico e da atitude divina e humana de Cristo para com os homens. O relacionamento sempre com base no Amor divino e no Perdão. “Amai os vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem”(Mat.5,44). E, em contexto de sofrimento e morte próxima, “Pai, perdoa-lhes...”.
Lendo a composição dos factos do Evangelista, médico e escritor, vemos que o tempo cronológico e o psicológico, o espaço ( o local) e as personagens, elementos da narrativa, reportam o início da crucificação e os autores materiais da mesma. Admite-se como certo nos meios da hermenêutica fundamentalista e da história da crucificação que a frase de Cristo possa ter sido dita aquando os soldados O cravavam na cruz.
Quem rodeava o Filho de Deus e agia sobre Ele, de forma violenta pelo acto próprio de uma crucificação, foram os soldados romanos; os judeus entregaram-No e, tal como Pilatos, lavaram também desse facto as suas mãos. A narração de Lucas situa-nos nesses momentos precedentes e posteriores à crucificação.
É factual que a proximidade dos romanos e a sua acção “legal” e administrativa efectuada, tenha levado Jesus Cristo a interceder misericordiosa e amavelmente, com Amor que só é divino, rogando para eles e seu acto, Perdão.
A dificuldade poderia estar na causa do pedido desse perdão: que não sabiam o que estavam a fazer. Os romanos não sabiam, cumpriam a execução de uma pena de morte; os judeus, à distância do Monte do Calvário, mas mais perto psicologicamente, religiosamente, familiarmente (conterrâneos) de Jesus, esses sabiam em consciência o peso da sua conta naquela crucificação. Não foram as suas vozes reunidas perante Pilatos, que gritaram bem alto “ O seu sangue caia sobre nós e sobre nossos filhos.”?
Sobrepondo-se a quaisquer análises, quer ao que decorre da diegese usada por Lucas, quer à contextualização dos eventos na história da Paixão e Morte do Salvador, há o aspecto profético, do cumprimento profético das palavras de Jesus, palavras tolerantes, compreensivas da natureza humana e repletas de Amor divino.
Com efeito, o proto-Evangelho em Isaías e a narração profética antecipando a história do dia da crucificação, apresentavam esse quadro na parte final do cap. 53, assim: «...foi contado com os transgressores (os dois malfeitores que O ladeavam); mas ele levou sobre si o pecado de muitos ( a função substitutiva do Redentor), e pelos transgressores intercede (aqueles que o estavam a crucificar, naquela circunstância temporal e, soteriologicamente, em sentido mais profundo universal).

De uma Cruz a outra cruz
As três cruzes erguidas no alto do Golgota têm cada uma um lugar na narração de Lucas, sendo a do meio protagonista material de relevo. Nela estava cravado o Filho de Deus. O próprio Jesus Cristo referiu-se, por duas vezes, a esse acontecimento, usando em ambas o verbo ser “levantado”, donde se infere a morte de cruz, da qual havia de morrer (Jo 3,14 ; 12,32), do mesmo modo que o termo induz também exaltação.
A cruz é um símbolo antiquíssimo, que acompanha o homem desde remotos tempos, desde o simbolismo telúrico ao religioso. No religião cristã tomou o lugar simbólico do sofrimento e o factual e histórico como objecto usado para condenação à morte do Salvador do Mundo. É o principal símbolo do Cristianismo, segundo a Enciclopédia Britânica.
Na poesia cerebral e culta do poeta argentino Jorge Luís Borges, em que o autor procura inúmeras vezes os arquétipos das coisas, das palavras, da sua cultura enciclopédica, encontramos mais do que uma vez a referência à cruz, no contexto bíblico e referencial do perdão.
Ao usar nos versos seguintes, um conceito ético sobre o perdão, o poeta JLB fez da cruz o veículo pelo qual esse perdão se transmitiu, através do sangue de Jesus e da Sua própria voz de candor, como o poeta lhe chamou:
“ Gracias quiero dar(...) // por las palabras que en un crepúsculo se dijeron / de una cruz a outra cruz”. Tais palavras carregaram a sublimidade do perdão, não apenas ao malfeitor, mas a todos os homens que creram e crêem, na humanidade.
E o mesmo poeta, noutro belíssimo poema, escreve assim, sobre Cristo na cruz (título do poema): “Cristo na cruz. Os pés tocam a terra. // Deixou-nos esplêndidas metáforas / e uma doutrina do perdão que pode / anular o passado.”
De uma cruz a outra cruz a transversalidade universal do perdão para o Mundo.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Esperança em Meio a Dor


O livro Lamentações de Jeremias é um lamento fúnebre para a cidade conquistada de Jerusalém. Foi escrito pelo profeta, logo após Jerusalém sair cativa para a Babilônia em 586 aC. Nessas alturas o magnífico templo que o rei Salomão havia construído foi queimado até o chão e a maioria do povo de Judá foi morto e tomado como reféns. As condições de Jerusalém eram terríveis. Durante o longo cerco da cidade, a doença endêmica e da morte era comum (II Rs 25:1, Ez 5:12) A fome que resultou no cerco foi tão grave que alguns dos habitantes de Jerusalém recorreram ao canibalismo, comendo os próprios filhos (Lm 3:20, 4:10, Ez 5:10). Após a invasão, Jeremias teve permissão por parte das forças da Babilônia para permanecer em Jerusalém com as poucas pessoas que ali restaram, os mais pobres da terra (Jr 40:7).

Não é de admirar que em seu lamento o profeta diz: "Como está abandonada a cidade, outrora tão cheia de gente!". Os poemas dos capítulos de 1 a 4  são acrósticos, ou seja, cada versículo começa com a letra do alfabeto hebraico. Jeremias chorou por Jerusalém de "A a  Z".

Um punhado de pessoas fiéis estava consciente de que a Babilônia era uma vara de disciplina na mão de Deus (Lm 1:5, 12,15) E mesmo se mantendo fiéis ao Senhor esse grupo sofreu juntamente com os demais que experimentaram o julgamento de Deus pelos pecados. Foi no meio desse sofrimento que este remanescente fiel pode dizer: "As misericórdias do Senhor são a causa de não sermos consumidos, pois as suas misericórdias não têm fim" Jr 3:22 .Misericórdia aqui pode ser traduzida como hescol; "Concerto de amor". Aleluia!

Como cantar fidelidade e misericórdia em um estado tão miserável? Jeremias e o remanescente sabiam que Deus estava sendo fiel as suas promessas ao mantê-los firmes e fortes em meio às investidas do exército Babilônico. Eles deveriam ser exterminados com toda a terra (Jr 4:27), mas  Deus não quis destruir por completo a nação. Assim, cada amanhecer era um símbolo do "concerto de amor". Era Deus declarando que enquanto o sol nascia a cada dia, a nação viveria. Eles sabiam que Deus não os havia abandonado. Agarraram-se as promessas e por elas viveram.

As lições extraídas desse contexto são encorajadoras. Se Deus deu esperanças ao remanescente em meio ao cenário de dor, podemos estar certos de que Ele nos dá esperança em meio as nossas feridas. Assim como o punhado de fiéis, viveu pelas promessas, nós podemos olhar para o Senhor e Sua Palavra, vamos encontrar esperança. Há uma promessa que diz: "Todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus Rm 8:28, isto inclui nossas mágoas.

Tem outra promessa que diz: "Deus faz todas as coisas segundo o conselho de sua vontade" Ef 1:11. Significa que nenhum evento do universo acontece fora do controle da mão de Deus. Mesmo as coisas do mal não estão fora dos limites de Deus. Nada acontece por acaso! De forma sobrenatural Deus sabe e controla as fontes de nossas feridas, Ele não apenas "junta os cacos" como pode transformar em algo bom o que viria a ser uma tragédia. Quer reconheçamos quer não, quer compreendamos ou não. Ele está sempre no controle!(Ef 1:11, 12).

Quando percebemos que não merecemos nada de Deus, mas que Ele ainda controla os eventos do universo a nosso favor, nós ganhamos uma nova apreciação de quão grande é o amor e fidelidade de Deus para nós, mesmo no meio de nossa maior dor. É uma aplicação do seu concerto de amor. Passamos a apreciar Sua eterna graça nas "pequenas" coisas: Na ajuda inesperada de alguém, no incentivo de um estranho, no animal de estimação enroscado aos nossos pés ou colo... começamos a agradecer ao nosso Pai celeste porque todas as coisas realmente têm um significado revestido de amor.

Em meio as nossas necessidades não atendidas da maneira como gostaríamos, nas desilusões, nas feridas diversas Deus traz esperança no meio da dor! Ele é fiel a Seu compromisso de nos proporcionar bem estar. Finalmente Temos todas as promessas Bíblicas de um futuro eterno com o Senhor no céu. Esta vida é apenas um momento fugaz em comparação com a eternidade. As mágoas de hoje em breve terão ido embora para sempre. Para o cristão essa é verdadeiramente viver a esperança no meio da dor. É a maior de todas as promessas advindas do concerto de amor.



 Adaptado
Por: Wilma Rejane
http://atendanarocha.blogspot.com

domingo, 28 de novembro de 2010

UMA CIDADE CHAMADA VIOLÊNCIA. RIO DE JANEIRO, O QUE ESTÃO FAZENDO COM VOCÊ?

Jefferson Magno Costa


      Capital da violência, os teus pecados e o poderio do narcotráfico já não te deixam ser mais aquela Cidade Maravilhosa de tempos idos. Os teus encantos mil estão ameaçados por essa atual geração de filhos violentos e sanguinários, que enchem tuas ruas de pânico, insegurança e medo.

     Onde serenidade para contemplar tuas belezas naturais? Onde tranquilidade para caminhar por tuas avenidas, tuas praças, tuas praias?


     Cidade da insegurança e do temor, Deus tenha misericórdia de ti, e que a Sua salvação alcance esses filhos de Belial que ensanguentam tua paisagem, “porque os pés deles correm para o mal e se apressam para derramar sangue” (Provérbios 1.16). 

     Cidade de madrugadas longas e cheias de pesadelo, de menores abandonados e drogados dormindo nas calçadas, de carros, ônibus e vans incendiados, tua imensa propensão ao crime faz com que todos os dias destruas muitos inocentes, com seus sonhos e ilusões.


    Capital da violência, o Complexo do Alemão, a Vila Cruzeiro, a Favela da Rocinha, o Morro do Dendê, a Favela do Jacarezinho e centenas de outras, com o poderio e o arsenal de violência e malignidades dos traficantes, e seus moradores ameaçados, coagidos, esmagados e mortos lembram as velhas cidades edificadas pelo sanguinário Ninrode e seus descendentes, nas planícies da Mesopotâmia. Entre elas se destacavam Babilônia e Nínive. 

      Do sanguinário Ninrode, a Bíblia diz que foi “poderoso caçador diante do Senhor...” (Gênesis 10.9). Ele caçava leões na planície. Caçava também homens, pelo simples prazer de os matar.
     Tua geração de filhos sanguinários é descendente de Ninrode, ó cidade de noites traiçoeiras, que não oferecem segurança aos estudantes, aos casais de namorados, às mulheres que trabalham e voltam tarde da noite para casa, ao burocrata, ao executivo, ao profissional liberal, ao policial vítima de emboscada, ao trabalhador assaltado e assassinado nos ônibus, nas ruas, na porta de sua casa, pelos sanguinários assírios da modernidade, que o privam para sempre da vida e da companhia de sua família. 


       Esses assassinos são teus filhos. São da linhagem do implacável e diabólico Ninrode. Assaltam residências, ônibus, bancos, escritórios, lojas, postos de gasolina, supermercados, motoristas em seus automóveis e pedestres nas ruas, e matam pelo cruel prazer de matar, sob as trevas ou à luz do dia.

      Nínive moderna, Deus tem enviado centenas de Jonas para anunciar aos teus filhos entorpecidos pelo pecado, a salvação oferecida por Jesus Cristo. Eles têm pregado contra os teus crimes, denunciado tuas abominações, trabalhado para libertar pelo poder do sangue de Jesus os que estão presos à maldição das drogas, da prostituição, do homossexualismo, e combatido a permissividade de uma sociedade que deixa suas crianças e jovens ser conduzidos ao precipício e à morte. 


     Mantendo sob suas mãos sanguinárias as vítimas caídas nas arapucas de seus antros de obscenidades e iniciação em todos os vícios, esses novos guerreiros assírios, cujos antigos irmãos cortavam a língua e as orelhas de seus prisioneiros, lancetavam os olhos dos reis vencidos, empalavam príncipes e violavam mulheres, também não se compadecem da súplica dos inocentes.



 Babilônia de astrólogos, curandeiros e videntes. Por não quereres ouvir a voz de Deus, por não inclinares teu coração aos assuntos do Céu, a ira do Senhor desabará sobre ti, se não te arrependeres, se não deres ouvido às palavras dos pregadores evangélicos que em tuas praças e ruas, na televisão, no interior dos templos e nos estádios, convocam-te ao arrependimento, advertindo-te conforme fez o profeta Isaías:



     “Deixa-te estar com os teus encantamentos, e com a multidão das tuas feitiçarias em que trabalhaste desde a tua mocidade, a ver se podes tirar proveito, ou se porventura te podes fortificar. Cansaste-te na multidão dos teus conselhos; levantem-se pois agora os agoureiros do céu, os que contemplam os astros, os prognosticadores das luas novas, e salvem-te do que há de vir sobre ti” (Isaías 47.12,13).



     Tuas praias são escolas de iniciações pecaminosas, degraus de uma escadaria que desce para um abismo mais profundo que o mar. 

     As ondas que banham e poluem tua orla marítima em nada se assemelham às ondas que beijaram as longínquas areias do mar da Galiléia, por onde Jesus andou entre pecadores e apóstolos, e proferiu palavras de vida eterna. 


     Ai de ti, Rio de Janeiro! Tu desconheces o gesto e as palavras de perdão de Jesus diante da pecadora e de seus acusadores. Das areias de tuas praias estão ausentes as pegadas do mais belo dos Rabis. Ai de ti, que não queres ouvir os profetas de Deus, por teres preconceito contra a simplicidade de muitos deles.

     Cidade de alucinados, de desesperados, de homens que não conhecem Jesus Cristo, o Príncipe da Paz. Quem dera que teus filhos ouvissem a Sua voz: 
     “Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para as vossas almas. Porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve” (Mateus 11.28-30).
     Mas eles orgulhosamente ignoram e desprezam o Filho de Deus, o Salvador da humanidade, e se enforcam, tomam veneno, sobem ao alto de edifícios e pulam de lá; atiram-se diante dos trens, encostam revólveres na própria cabeça e apertam o gatilho.


     Capital da violência, Sodoma e Gomorra instalaram bases em tuas esquinas, criaram sucursais de atentados, assassinatos, prostituição e homossexualismo em tua periferia, em teus bairros nobres, em tuas praças principais. Os sodomitas misturam-se com os guerreiros de Ninrode, e ignoram o que o apóstolo Paulo escreveu na 1ª. Carta aos Coríntios 6.10: 

     “Não erreis: nem os devassos, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os sodomitas, nem os ladrões, nem os avarentos, nem os bêbados, nem os maldizentes, nem os roubadores herdarão o reino de Deus”.


      Não. O teu Cristo de pedra não poderá te salvar. Nem o Cristo dos Rosários, ou os que jazem silenciosos nos gongás da umbanda e do candomblé. Pois eles “têm boca, mas não falam; têm olhos, mas não veem; têm ouvidos, mas não ouvem; nariz têm, mas não cheiram; têm mãos, mas não apalpam; têm pés, mas não andam; nem som algum sai de sua garganta. Tornam-se semelhantes a eles os que o fazem, e todos os que neles confiam” (Salmo 115.5-8).

     Cidade de maravilhas e perdições, que os teus filhos se arrependam e sejam alcançados por esta promessa de bênção perpétua lançada sobre a vida do povo de Deus, em sua Palavra: “O Senhor te abençoe e te guarde; o Senhor faça resplandecer o seu rosto sobre ti e tenha misericórdia de ti; o Senhor sobre ti levante o seu rosto e ti dê a paz” (Números 6.24-26).


     E tu, Igreja, que serves ao Senhor nesta cidade; tu não deves ficar neutra, passiva, calada diante de tanta violência e abominações. Ergue a tua voz em meio às maravilhas ilusórias dessa sofrida cidade, e denuncia as obras praticadas por muitos dos seus filhos e condenadas por Deus. Ensina aos guerreiros de Ninrode e a essa população amedrontada e aflita, que a solução e a salvação só podem vir de Jesus.


sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Afinal de contas, Deus está do lado de quem?

eleicoesigreja Afinal de contas, Deus está do lado de quem?
Imagem: Charles Muller

Jarbas Aragão

Essas eleições de 2010 ficarão marcadas pelo excessivo número de emails e blogs que apostaram na boataria, nas acusações, nas promessas de juízo em quem votar nesse ou naquele. Esse povo que diz falar com Deus e em nome dele está me deixando confuso.
No final de julho a CNBB emitiu uma carta assinada por Don Luiz Gonzaga. Os parceiros históricos do PT e que já elegeram vários padres pela legenda no passado, agora pediam que os fiéis não votassem em Dilma, onde afirmou

Recomendamos a todos verdadeiros cristãos e verdadeiros católicos a que não dêem seu voto à Senhora Dilma Rousseff e demais candidatos que aprovam tais “liberações”, independentemente do partido a que pertençam.

Algum tempo depois a CNBB tirou a nota do seu site. Recentemente, o pastor batista Paschoal Piragine conseguiu mais de dois milhões de visitas no Youtube falando contra o PT e que sua candidata ataca os princípios cristãos. O pastor Silas Malafaia, da Assembleia de Deus Vitória em Cristo anuncia apoio a Marina e nos últimos dias diz que se enganou e abraça Serra. A Igreja Universal, que exerce grande influência sobre  o PRB está na coligação que apóia Dilma. A Assembleia de Deus Madureira é liderada pelo bispo Manoel Ferreira, que declarou em carta aberta ( AQUI)

Reitero neste momento a nossa posição de apoio total e irreversível à candidatura de Dilma Rousseff à Presidência da República Federativa do Brasil, com a certeza de que estamos no rumo certo do sucesso…  dos princípios éticos cristãos, sendo estes inequivocamente a base para a vitória que todos queremos os quais são defendidos reiteradamente por Dilma Rousseff.

Para completar, os “apóstolos” Valnice Milhomens e Renê Terra Nova fazem campanha aberta por Marina Silva e declarações surpreendentes. Renê, por exemplo, afirma neste vídeo  AQUI que

Em 2010 Deus colocará o justo no poderMarina Silva tem uma palavra profética na direção dela em Daniel 4:17 que Deus vai pegar os mais simples e que não são acreditados e colocará no poder. Nesse ato profético para fazer a maior votação da história… Existem demônios que só saem em nome de Jesus e outros que só saem com votos.

Todos eles se consideram profetas. Uma das prerrogativas do profeta é falar em nome de Deus. Então quem Deus está apoiando? Será que essas colocações não trazem apenas mais confusão aos eleitores que procuram viver de acordo com suas crenças?
Poderia listar ainda várias declarações de outros tantos, mas lembro ainda a declaração de Julio Severo, que não é pastor, mas se acredita profeta (AQUI)

Para presidente, não vejo ninguém em quem votar. De uma forma ou de outra, Serra, Marina e Dilma têm compromissos preocupantes com a iniquidade institucionalizada. Pelo menos no meu caso, eu faço assim nas eleições: Digo para Deus que não há em quem votar e voto 7777… Voto em quantos setes for possível. Sete é o número de Deus, é o número da perfeição. Prefiro fazer isso a deliberadamente colocar um ímpio para me representar.

Eu fico confuso. Afinal de contas, Deus está do lado de quem?
Não sou uma sumidade em teologia, mas tendo lido a Bíblia algumas vezes acredito que os senhores não tem essa resposta. Deus já viu governantes muito piores ao longo da história. Deus já viu muito mais iniquidade do que se anuncia estar se sedimentando no Brasil.
Muito tem se falado sobre o que parece ser o tripé amaldiçoado desse pleito: aborto, casamento homossexual e liberação da maconha. Não sou a favor de nenhuma dessas coisas, que fique claro. Mas o que me incomoda e ver milhares de cristãos perplexos vendo e ouvindo padres, bispos, pastores, apóstolos e toda essa turma que se arvora a falar em nome de Deus confundindo ao invés de guiar. Não é isso que os pastores deveriam fazer?

Por que não vemos tanto empenho da parte desses sacerdotes em denunciar e combater outras questões igualmente danosas ao país?

Se o aborto tira vidas inocentes, a corrupção também resulta em vidas ceifadas pela falta de atendimento médico decente, falta de comida na mesa, falta de condições mínimas de saneamento básico, por exemplo.

Se o casamento homossexual fere convicções religiosas, o mau uso do poder, o nepostismo, a venda de favores e etc também o faz. Afinal, o papel principal dos profetas na Bíblia que esses senhores pregam, muitas vezes era denunciar os erros dos reis.

Se o uso de entorpecentes ajuda a destruir vidas e aumentar muitas vezes a criminalidade, não é o mesmo que ocorre com a falta de segurança pública, relaxo no controle das fronteiras, por onde entram armas quase todos os dias, por exemplo?

Enquanto isso, um acha que Deus se enganou quando mandou apoiar uma candidata e agora mudou de idéia, outro quer expulsar demônios com votos e ainda há quem  invoca Deus pressionando o número 7 (?). Tenho a impressão nessas horas de ouvir o eco das palavras de Jesus em Mateus 15:14 “Se um cego conduzir outro cego, ambos cairão num buraco”. Creio ainda que os que se crêem profetas e porta-vozes de Deus deveriam fazer como Amós. Esse sim falava em nome do Senhor! Foi ele quem afirmou “corra a retidão como um rio, a justiça como um ribeiro perene! Am 5:24″

A retidão e a justiça, senhores profetas e pastores, nesse caso vai muito além das questões que os senhores levantam. Por que não vemos ainda tanto esforço, dedicação e pronunciamentos toda vez que “estoura” algum escândalo de corrupção neste país? Por que não se manifestaram publicamente com a mesma veemência em episódios como o “mensalão”, “os senguessugas” e outros que envolviam a tal “bancada” que eles mesmo ajudaram a eleger? Alguém aí poderia me responder?

Façam-me um favor senhores, falem em seus nomes, não usem o nome de Deus em vão. Afinal , que eu lembre este ainda é um dos mandamentos que rege a fé que os senhores defendem!
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Via  http://www.pavablog.com